Um seminário organizado nesta segunda-feira (3) no Rio apresentou um novo método de detecção do vírus da Aids. Trata-se de um estojo descartável batizado de OraQuick, capaz de identificar a contaminação de um indivíduo pelo HIV 1 e 2 a partir da saliva. O resultado pode ser obtido em até 20 minutos. Fabricado pela empresa norte-americana OralSure Technologies, que promoveu o evento num hotel da zona sul da capital fluminense, o kit de diagnóstico está sob análise da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), mas a expectativa dos fabricantes é ter o uso no Brasil liberado no início de 2008.

O método é aplicado nos Estados Unidos desde 2004 e foi aprovado pelo Food and Drug Administration (FDA), agência americana que regulamenta o setor de remédios e alimentos, e pelo Center of Disease Control (CDC-Centro de Controle de Doenças). Ao contrário dos testes rápidos de gravidez, o OraQuick não será vendido em farmácias. O exame continuará a ser feito por profissionais treinados, mas com vantagens em relação ao tradicional Enzyme Linked Immuno Sorbent Assay (Elisa), teste que permite a detecção de anticorpos específicos no soro, a partir do sangue.

O OraQuick chegou ao Brasil em junho, na Feira Hospitalar de São Paulo. A apresentação do produto no Rio no mês dedicado ao combate à doença foi preparada para acompanhar uma palestra da médica Ely Côrtes, chefe do Setor de Infectologia e coordenadora do programa sobre aids do Hospital da Lagoa. Ely é defensora da adoção de métodos rápidos de detecção do vírus no sistema de saúde para estimular os cidadãos a fazer os exames.

Ela lembra que muitos pacientes só descobrem que são portadores do HIV quando chegam a unidades de saúde com doenças oportunistas, principalmente os mais pobres. Num país onde check-up e exames periódicos não são um hábito, muitos descobrem que têm aids quando tratam moléstias como a tuberculose, a mais comum entre os pacientes de baixa renda que têm aids.

"Temos de ampliar a ‘testagem’ usando métodos rápidos para que mais diagnósticos sejam feitos precocemente. As pessoas estão chegando muito tarde ao diagnóstico", constata Ely, referindo-se aos brasileiros que perdem a oportunidade de administrar a enfermidade desde cedo, com a possibilidade viver com o vírus por muitos anos com a ajuda de remédios, por não saber que estão infectados.

Resultado

Calcula-se que 10% dos pacientes não voltam para pegar o resultado dos testes de sangue. Eles podem contaminar outras pessoas sem saber. Segundo a médica, existem exames sanguíneos com resultados em até 30 minutos no Brasil, usados em situações excepcionais. A vantagem do novo método é substituir o sangue pelo fluido oral dos pacientes, eliminando o uso de material como agulhas, seringas e luvas. Com isso, é mais fácil levar os testes a lugares de difícil acesso, áreas de vazios demográficos como a Amazônia, ou ambientes isolados, como o sistema carcerário.

O paciente, sob orientação especializada, colhe a amostra, que não pode ser de qualquer porção de saliva. Com uma palheta, o fluido a ser analisado deve ser recolhido da gengiva. Mergulhada num frasco com reagente, a lâmina apresenta uma linha, se o resultado for positivo, ou duas, se negativo. O processo não detecta o HIV, que não é encontrado na saliva, mas anticorpos produzidos para combater o vírus no organismo.

"Apesar da facilidade, o teste só deverá ser aplicado por pessoas treinadas, capazes dar uma orientação pré e pós-teste, principalmente, se o resultado for positivo. A aids é tratada hoje como doença crônica, mas ainda é fatal. Não tem cura. Imagine como é esse momento de se descobrir com a doença", observa Ely. Para a médica, aspectos como a reação psicológica ou a confidencialidade dos resultados foram levados em conta para que o produto não seja vendido em farmácias. A restrição também evita distorções como o uso do exame antes do ato sexual para decidir pelo abandono da camisinha.

"Talvez, um dia a autotestagem pode acontecer. Nem nos Estados Unidos isso foi permitido. É preciso antes uma discussão com a sociedade", opina. Os fabricantes do OraQuick atestam uma precisão de 99% nos resultados, mas os médicos recomendam um novo teste tradicional para a confirmação. A criação do produto consumiu 14 anos de pesquisas da fabricante americana. A estimativa é que o custo de cada estojo seja de cerca de 35 reais. A empresa negocia com o Ministério da Saúde o fornecimento para o serviço público em todo o País.