Especialistas alertam para a importância da alimentação adequada

Metade dos pacientes internados continua desnutrida. O alerta é feito por especialistas em nutrição hospitalar que lembram a importância da alimentação adequada para reduzir o tempo de internação dos doentes, diminuir os riscos de complicações clínicas, de infecções e os índices de mortalidade. Os benefícios também impactam em menores custos para o Sistema Único de saúde. ?Para cada R$ 1,00 investido em nutrição hospitalar, há uma economia de R$ 3,00?, destaca o gastroenterologista e especialista em nutrologia Joel Faintuch.

O Elan (Estudo Latino-Americano de Nutrição) demonstrou um cenário sombrio: 50,2% dos pacientes internados apresentavam algum grau de desnutrição, sendo 11,2% de forma grave. ?É uma greve de fome disfarçada e permanente, longe do olhar das pessoas, mas dentro dos nossos hospitais?, reconhece Faintuch. Estima-se que 80% dos doentes em terapia intensiva morrem por infecção e a maioria tem a desnutrição como fator coadjuvante. Pesquisas apontam que, entre outros fatores, o desconhecimento dos profissionais de saúde sobre a relevância do tema se reflete nesses índices desanimadores.

Terapia nutricional

prejuizos101007.jpgEvidências clínicas mostram que 100% dos casos de desnutrição hospitalar poderiam ser atenuados e de 70% a 80%, revertidos ou neutralizados. ?O primeiro passo é incentivar a triagem nutricional nos hospitais?, explica o cirurgião e nutrólogo Antônio Campos, professor titular do Departamento de Cirurgia e professor adjunto do departamento de Nutrição da UFPR. ?É um método simples, geralmente um questionário, que avalia as condições gerais do paciente como peso corpóreo, diagnóstico, motivo da internação, dieta alimentar e outros aspectos?, relata. Após a triagem, os pacientes com risco nutricional (desnutrição leve, moderada ou grave) são submetidos a uma avaliação mais completa com exames clínicos e laboratoriais.

Estudos clínicos mostram que os pacientes graves internados perdem, em média, 20 quilos e podem chegar à caquexia, o grau mais elevado de desnutrição. No entanto, a intervenção com dietas nutricionais específicas – seja oral ou por sonda – reduz o impacto da desnutrição. ?Pacientes bem nutridos respondem melhor aos tratamentos a que são submetidos e permanecem menos tempo internados?, garante Campos. Dados do Elan demonstram que a terapia nutricional é pouco indicada nos hospitais da América Latina.

Chá com torradas

A desnutrição pode ser primária ou secundária. A segunda é predominante no ambiente hospitalar, pois acontece quando o organismo está doente. Ela ocorre principalmente em pacientes com patologias crônicas como câncer, aids, doenças pulmonares e renais ou em pessoas que passaram por cirurgias e tratamentos agressivos. ?Falta de apetite, reações a medicamentos, como náuseas, vômitos e alterações de paladar, dificuldade de deglutição, por exemplo, são comuns em pacientes com câncer?, conta Faintuch.

Ao contrário, a desnutrição primária tem causas basicamente socioeconômicas, pois envolvem a dificuldade de acesso a uma dieta que garanta a ingestão diária necessária de proteínas, gorduras, carboidratos, vitaminas e outras substâncias. ?Pacientes com distúrbios alimentares, aqueles que não têm o que comer e ocasionalmente até obesos são alguns exemplos?, explica o especialista. Esse quadro é bastante comum na população idosa que, por dificuldade de mastigar ou rejeição ao alimento, desenvolve a ?síndrome do chá com torradas?, consumindo alimentos pobres em vitaminas e nutrientes. A vantagem das dietas especializadas é que elas oferecerem uma mistura de nutrientes altamente específicos para a doença apresentada pelo paciente, proporcionando a recuperação mais rápida e eficiente com menores efeitos adversos.

Antes da internação

A Anvisa vem, periodicamente, regulamentando a atenção aos doentes que necessitam de nutrição enteral e nutrição parenteral. Essas iniciativas são de grande importância, pois beneficiam a população, conscientizando profissionais e instituições das regras e procedimentos necessários para a boa execução técnica desse tipo de nutrição. Mas de acordo com especialistas, ainda restam lacunas, principalmente em relação ao uso da nutrição oral especializada, indicada para pacientes capacitados a ingerir alimentos ou líquidos. O ideal seria que esses suplementos pudessem ser utilizados pelos pacientes com risco de desnutrição hospitalar antes mesmo da sua internação.

Os médicos alegam que, em pequenos volumes, as preparações atendem de forma mais adequada às carências que os alimentos naturais não suprem.

"Assim, o paciente é admitido no hospital em melhores condições, expondo-se menos às complicações e hospitalizações prolongadas que caracterizam a desnutrição", explica Joel Faintuch.

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