Com bom humor e muito conhecimento de causa, já que parte de seus workshops se dirigem a grupos exclusivos de mulheres, Bruna Gascon fala das ansiedades femininas, do modelo impossível de magreza que começou a ser espalhado pela mídia e pela cabeça das mulheres a partir da década de 1980, e de como o sofrimento para se adequar a ele muitas vezes não traz benefícios nem estéticos, nem de saúde, nem nos relacionamentos.

Com uma pitada de ironia, Bruna convida as leitoras a observarem como os homens preferem as mulheres mais “cheinhas”, que frequentemente se tornam as amantes pouco elegantes, mas muito desejadas.

Ela própria protagonista de uma longa luta pelo peso ideal, ainda que oposto ao da maioria da população (sempre sentiu que era magra demais), fala com fluência e grande pertinência sobre uma das questões que mais movimentam a moda, a estética, o comportamento e a cultura da atualidade, oferecendo reflexões para convidar a leitora a uma vida mais ajustada consigo própria e mais baseada em uma saudável autoestima.

O que a levou a escrever Enfim magra, e agora?

Minha própria experiência pessoal. Sempre fui magra. Tinha baixa autoestima por causa disso e, no entanto, só recebia elogios das mulheres, que diziam que eu tinha sorte, pois podia comer de tudo e não engordava.

Meus médicos se negavam a passar qualquer tipo de dieta para ganhar peso e eu morria de inveja daquelas que tinham uns quilos a mais. Até que resolvi engordar por conta própria: parei de fazer qualquer tipo de exercício aeróbico, mudei minha alimentação, que ficou muito rica em carboidratos e chocolates, comecei a fazer musculação bem “pesada”, e engordei oito quilos. Uma maravilha. Imaginando que devam existir mulheres como eu, resolvi colocar tudo no livro Enfim magra, e agora?

Qual a razão de as mulheres preocuparem-se tanto com seu peso?

Até os anos 1960, peso não era um problema grave para as mulheres. Elas apenas se preocupavam em voltar ao seu peso natural após a gravidez. Até que infelizmente apareceu a modelo Twiggy, ditando moda com seus dezesseis quilos e todos acreditaram: estilistas, revistas de moda e, naturalmente, as mulheres.

Foi uma verdadeira epidemia. Antes dela, os padrões de beleza eram Marilyn Monroe, Sofia Loren, Gina Lollobrigida, Anita Ekberg, só para citar algumas. Todas eram bem “cheinhas”.

Nos anos 1980, as mulheres comuns ainda tiveram algum status com o sucesso de Cindy Crawford e Luiza Brunet, que eram curvilíneas, de pernas gossas e faziam enorme sucesso. Mas foi só.

O que vimos depois e até hoje são meninas cada vez mais novas comendo agrião e chupando gelo para ficarem magérrimas e horrorosas. Muitas não gostam de ser magras, mas percebem que com esse padrão de corpo serão mais aceitas por uma entidade massacrante: os outros.

Você acredita que a questão de um corpo perfeito tornou-se central na vida das pessoas?

Sim. As mulheres principalmente vivem em função disso. E não só de corpo perfeito, mas, também, pele perfeita, boca perfeita, cabelos perfeitos, botox perfeito, preenchimento perfeito, etc.

Sou totalmente a favor de tudo isso, mas quando necessário. Conheço meninas que colocam botox e fazem lipoaspiração com vinte anos. Isso é ridículo.

Por que há tanta vontade de emagrecer? Qual a origem do ideal de magreza?

Hoje em dia ninguém sabe lidar com as diferenças. Então todas ficam iguais. Outro dia em uma festa, vi que todas as moças presentes eram muito magras, todas usavam os cabelos compridos e lisos, todas estavam com o mesmo estilo de roupa: jeans de grife caríssimos, botas de montaria para fora da calça, jaquetas iguais.

Roupas elas compram, tudo bem, mas a magreza é conquistada com muito sacrifício. Tanto que não as vi comer nada na festa. Depois passam escondidas em um pronto-socorro e tomam soro para compensar.

Você conhece mais mulheres como você, que lutam para engordar?

Em toda minha vida conheci quatro mulheres como eu. As magras que desejam engordar estão totalmente abandonadas. Não existem regimes para ganhar peso, nem livros sobre o assunto, muito menos spas onde possamos nos internar e sair de lá com pelo menos dez quilos a mais. Erroneamente, o mundo acha que todas as magras por natureza são felizes. É um engano.

O que você acha que as mulheres precisam para ter mais autoestima?

A baixa autoestima das mulheres está no inconsciente coletivo há séculos. O mundo sempre foi e ainda é masculino, e os homens fizeram regras que precisam ser quebradas.

Como nas histórias, elas precisam de um príncipe que venha beijá-las para que voltem à vida, calçar-lhes um sapatinho para que possam se casar, ou de algum caçador que as salve.

Mesmo hoje, com todas as conquistas feitas, ainda sentem-se inferiores, inseguras, ganham menos que os homens, apanham dos parceiros caladas, e se sujeitam a sexo ruim só para não perder o relacionamento. Não há autoestima que resista.

Qual a verdadeira motivação para mulheres emagrecerem?

As mulheres querem ficar magras em 1.º lugar para causar inveja às inimigas. Em seguida para competir com as amigas. Depois para causar boa impressão nos homens e, depois, para serem aceitas pela sociedade.

Em último lugar para satisfazerem a elas mesmas. O pior é que enquanto “ralam” nas academias para ficarem magras e saradas, seus maridos têm amantes cheinhas, gordinhas, e algumas até bem acima do peso, a quem eles consideram “gostosas”. Como dizem os árabes, mulher precisa “encher uma cama”. Eu concordo.

SERVIÇO

Livro: Enfim magra, e agora?
Autora:
Bruna Gasgon
Editora: Jardim dos Livros
Páginas: 104
Preço: R$ 24,90