A cena já é comum nas baladas: jovens consumindo bebidas destiladas misturadas com energéticos para garantir o agito a noite toda. Uns para reduzir a sensação de embriaguez, outros para manter por mais tempo a fase de excitação. É isso que os consumidores de álcool misturado com bebidas energéticas esperam ao experimentar a combinação. Expectativa confirmada por uma recente pesquisa desenvolvida pelo Departamento de Psicobiologia da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). O resultado do estudo mostrou que o efeito estimulante do álcool foi potencializado pela administração crônica da mistura.

No entanto, conforme o autor da pesquisa, Sionaldo Eduardo Ferreira, exames toxicológicos mostraram que, apesar de as bebidas energéticas não terem causado danos ao organismo, também não foram capazes de reduzir os efeitos tóxicos do álcool. ?O estudo comprovou que a coordenação motora das pessoas que receberam a combinação ficou ainda mais prejudicada?, alertou, salientando que essa questão é bastante preocupante para a saúde pública, já que o uso abusivo dessas bebidas colabora para o conseqüente aumento do desenvolvimento de dependência química.

Prazer fácil e imediato

A psicoterapeuta e professora de Psicologia do Desenvolvimento Adulto da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), Renate Vicente, diz que a administração repetida de álcool, nesse caso ?mascarada? pelo energético, pode levar ao conseqüente aumento da dose para obtenção do mesmo efeito. ?Isso em pessoas com tendências à adesão pode levar a uma situação preocupante?, adverte. De acordo com o pesquisador da Unifesp, estudos realizados em diversos países demonstram que as pessoas mais sensíveis aos efeitos prazerosos das drogas de abuso, inclusive do álcool, têm maior chance de fazer uso abusivo e desenvolver dependência.

Comercializadas em mais de 40 países, as bebidas energéticas chegaram ao Brasil no final dos anos 90s e, entre seus efeitos, apregoavam a melhora no desempenho físico e mental. Para a psicoterapeuta, infelizmente, a sua rápida popularização ocorreu juntamente com seu uso combinado a bebidas alcoólicas. Conforme Renate Vicente, o uso do álcool por si só já traz uma importante diminuição na percepção de alguns sintomas de intoxicação alcoólica. Para a especialista, o uso dessas substâncias que podem levar ao prazer ?fácil e imediato? deixa as pessoas sem capacidade para buscá-lo por meios naturais. ?E, como conseqüência, a experimentar outras substâncias ainda mais perigosas?, destaca.

Os pesquisadores ressaltam a importância de se evitar o uso abusivo de álcool, seja ele combinado ou não com bebidas energéticas, ou com quaisquer outras substâncias. ?O álcool está associado à maior parte dos gastos públicos com saúde decorrentes das drogas de abuso, apesar de ser legal e socialmente aceito?, afirma Sionaldo Ferreira.  ?É importante despertar nos jovens a consciência de que os comportamentos abusivos de hoje podem ter graves conseqüências no futuro, não só para o indivíduo, mas para a sociedade como um todo?, sinaliza. 

NÚMEROS QUE VALEM

A pesquisa avaliou o padrão de uso das bebidas energéticas. Abaixo, seus principais indicadores:

– 76% as consumiam juntamente com bebidas alcoólicas.

– Destes, 91% utilizavam preferencialmente com bebidas destiladas.

– 86% dos entrevistados relataram alguma alteração dos efeitos do álcool, principalmente na melhora do humor e na diminuição da sensação de embriaguez.

– A média de consumo variou entre uma e três latas por ocasião de uso.

POR DENTRO DAS BEBIDAS ENERGÉTICAS

– Elas estimulam o metabolismo e servem como fonte de energia.

– Contêm carboidratos, complexo de vitamina B, gluconolactona, cafeína e taurina.

– Não viciam, pois a quantidade de cafeína contida numa dose de energético é a mesma encontrada no cafezinho, refrigerante ou xícara de chá.

– A taurina, substância presente também no organismo humano, aumenta a resistência física e diminui os efeitos depressores do álcool.

– Em alguns países, dezenas de mortes causadas por problemas cardiovasculares estão associadas ao consumo de álcool e energéticos.