É difícil encontrar uma pessoa que nunca tenha sentido dor de cabeça. De acordo com um estudo realizado por neurologistas em todo o Brasil, mais de 80% da população nacional tem pelo menos uma crise de dor de cabeça ao ano. Para o vendedor de jóias Marcos Cunha Lima, no entanto, a incidência deste distúrbio é bastante freqüente. ?Não tem uma semana que eu passe sem as malditas crises?, reclama. Por mais que tente todas as opções, ele não consegue se livrar da enxaqueca que o acompanha há mais de dez anos e que interfere nas suas atividades cotidianas, trazendo inúmeros prejuízos.

Não é para menos, afinal, quem é que consegue trabalhar, estudar ou conviver com intensas e latejantes dores na cabeça, náusea, enjôo, tontura? Esses são os sintomas da enxaqueca, uma doença incapacitante e bastante complexa. Especialistas da Sociedade Brasileira de Cefaléia dizem que são reconhecidas mais de 150 tipos de cefaléia. As mais prejudicadas são as mulheres.

Em decorrência dessa alta prevalência, os pacientes acabam buscando auxílio na automedicação, o que, em muitas situações, acaba agravando o problema, principalmente porque retarda um correto diagnóstico. Segundo o neurologista e cefaliatra (especialista em dores de cabeça) do Hospital Vita Curitiba, Elcio Juliato Piovesan, a cefaléia indica alguma desordem no cérebro ou ao seu redor e sua causa é dividida em dois grupos. De acordo com o especialista, o tipo primário é quando a dor de cabeça tem relação direta com a doença, como no caso das enxaquecas. ?Já a cefaléia secundária é quanto a dor é apenas um dos sintomas de outras doenças, como meningite, problemas visuais, sinusite ou aneurisma cerebral?, explica.

Cefaléia em salvas

Jorge Soares é comissário de bordo há mais de quinze anos e, há pelo menos dez, teve a sua primeira crise a bordo. ?De madrugada uma dor alucinante não me deixava em paz?, conta. Jorge já passou por diversos médicos e por inúmeros exames, de polissonografia (exame de monitoramento do sono) e tomografias computadorizadas. Especialistas concluíram que o comissário sofre de cefaléia em salvas. De acordo com o neurocirurgião Edgard Rafaelli Jr., autor do livro ?Dor de cabeça, o que se dizà o que se sabeà?, os sintomas da cefaléia em salvas são típicos e inconfundíveis. ?É uma dor pulsátil, violenta, unilateral que se manifesta em um dos olhos, na órbita ou no fundo do olho?, descreve. De acordo com o especialista, na região comprometida ocorre queda da pálpebra, congestão ocular, obstrução nasal, coriza e o olho fica vermelho e lacrimejante.

Talvez porque enxaqueca seja a dor de cabeça que mais aflige e chama a atenção por causa dos sintomas que a acompanham -intolerância à luz, ao barulho, vômitos, mal-estar geral – a palavra tenha-se transformado em sinônimo do distúrbio. O mais freqüente é a cefaléia tensional-episódica, a dor de cabeça comum que todo o mundo tem de vez em quando e não procura o médico por causa disso. Elcio Piovesan alerta para o perigo de as pessoas buscarem a automedicação ao invés de procurar um médico e descobrir a origem do problema.

?Existem casos, inclusive, em que o uso freqüente de analgésicos acaba causando a dor de cabeça?, comenta, salientando que, se uma pessoa toma analgésicos sem orientação médica mais de dois dias por semana, já é um alerta do perigo que ela pode estar causando para o organismo.

Não à automedicação

Os tipos de dores de cabeça mais simples de interpretar, tratar e resolver são aqueles cuja causa é aparente, como nos casos das cefaléias determinadas pelo estresse emocional (dor tensional) ou por um acidente que afete a musculatura do pescoço. ?Para essas, um tratamentos que contemple apoio psicológico e medicação ocasional consegue resolver?, explica o neurologista Pedro André Kowacs.

Por seu lado, na enxaqueca, a identificação dos fatores desencadeantes da dor é mais complexa. Nesse caso a cefaléia – que tende a diminuir nas primeiras 24 horas, mas pode se estender por até três dias – é apenas um dos sinais da doença. ?Alterações visuais, aversão à luz e à comida, vômitos e letargia também são outros sintomas freqüentes que ajudam a compor o quadro?, reconhece o especialista.

Muitas pessoas levam meses até se render à evidência de que deveriam procurar ajuda especializada para tratar de enxaqueca crônica. Além de tomar os remédios prescritos por um médico para o tratamento agudo (somente nas crises) e preventivo (entre as crises, para induzir o controle da doença) é necessário observar se essas crises estão associadas a algum fator determinante, como determinada alimentação, ingestão de bebidas ou aromas.

Criança também sofre

Durante muito tempo, se pensou que a queixa de dor de cabeça era exclusiva dos adultos. De fato, acreditava-se que as crianças não sofriam de dores de cabeça e essa “certeza” durou por muitas décadas. No entanto, de acordo com estudos epidemiológicos internacionais, estima-se que 5% das crianças sofram dessa patologia. Na adolescência, os números aproximam-se dos da idade adulta, batendo em 18%.

De acordo com os neurologistas, as circunstâncias que podem levar ao surgimento da doença, são a predisposição genética, as viroses – como gripes e resfriados, sinusite e otite -, meningite, traumatismo cranioencefálico, aumento da pressão intracraniana, alterações oculares e enxaqueca, entre outras disfunções. Conforme o cefaliatra Elcio Piovesan, as cefaléias primárias, em que a criança tem um episódio que começa e termina, não passando habitualmente para o dia seguinte, sem ter um caráter progressivo, são as menos preocupantes.

A maior preocupação dos pais é que as dores de cabeça dos filhos correspondam a uma doença grave. Os médicos recomendam que, se a reclamação se tornar rotineira, o melhor é passar por uma avaliação clínica que fundamente uma investigação mais detalhada. Naturalmente, nas crianças o diagnóstico é mais complicado. “A classificação da dor, já que a criança não consegue descrever a dor corretamente e até sua localização é muito complicada”, completa Pedro Kowacs.

Mantenha distância da dor de cabeça

>> Observe e evite alimentos ou medicamentos que provoquem crises de dor

>> Respeite as horas de sono

>> Evite ficar longos períodos sem comer.

>> Procure controlar sentimentos como a raiva e a ansiedade

>> Tome a medicação contra a crise logo no início da dor

>> Faça alguns intervalos ao usar por muito tempo o computador