Embora seja um dos mais conhecidos e comentados fatores de risco para doenças cardiovasculares, como infarto agudo, insuficiência cardíaca e derrame, além de insuficiência renal, a hipertensão ainda acomete um terço da população brasileira. De acordo com o estudo ?Corações do Brasil?, realizado pela Sociedade Brasileira de Cardiologia, 28,5% dos brasileiros têm pressão arterial acima dos 140 por 90 mmHg ? nível já considerado alto pela Medicina. Na verdade, qualquer resultado acima de 120 por 80 mmHg já requer mais cuidados. A pesquisa ainda mostra que a segunda maior incidência dos casos encontra-se no Sul do País, onde 30,4% dos habitantes apresentam o problema, ficando atrás apenas do Nordeste (31,8%).

Por ser uma doença silenciosa, já que 90% da população afetada não apresenta sintomas, metade dos hipertensos sequer sabe que tem pressão acima do normal. A falta da cultura da prevenção é o principal motivo dos números continuarem alarmantes. ?Como não sente dores ou qualquer outro sintoma que atrapalhe o dia-a-dia, a pessoa não procura um médico e, portanto, não trata do problema. Um simples check up poderia salvá-lo do que, um dia, pode se transformar em um infarto agudo?, explica Marcos Bubna, chefe do departamento de Cardiologia do Hospital Cardiológico Costantini, de Curitiba. A partir do diagnóstico da doença, medidas simples de prevenção já conhecidas pela maioria das pessoas podem ajudar a controlar a pressão arterial. ?Basta adotar uma dieta com baixos índices de gordura e sódio (sal) e rica em potássio, além de exercícios físicos regulares, controle de peso e auxílio de medicamentos prescritos por médicos?, explica Bubna.

O acompanhamento médico é imprescindível, uma vez que alguns remédios podem colaborar no aumento da pressão arterial ? especialmente os corticóides, anti-inflamatórios, anticoncepcionais e anorexígenos. ?Os corticóides, por exemplo, aumentam a retenção de líquido e de sal no organismo, o que pode elevar a pressão arterial?, afirma o cardiologista. Isso não significa que os hipertensos não possam ser tratados com tais medicamentos. ?Trata-se de um alerta para que, em hipótese alguma, as pessoas consumam remédios de forma indiscriminada e sem acompanhamento médico?, completa.

Hipertensão do avental branco

Pelo menos 20% da população que chega aos consultórios apresenta a chamada hipertensão do avental branco ? ou seja, tem pressão arterial elevada apenas quando está diante do médico. ?É um aumento reacional da pressão arterial, causado pelo estresse que algumas pessoas sentem ao entrar em um consultório?, afirma o cardiologista Marcos Bubna. Ele explica que o estresse libera dois hormônios que colaboram no aumento da pressão arterial ? a adrenalina, que faz acelerar o coração e contrair as artérias, e o cortisol, que aumenta a retenção de água e sal pelo organismo. ?O estresse altera o metabolismo do colesterol e da glicemia no organismo?, completa Bubna.

A hipertensão do avental branco mostra que apenas uma medida da pressão arterial não basta para comprovar a existência da doença. O cardiologista conta que, quando um paciente apresenta hipertensão na primeira medida em consultório, várias outras medições devem ser feitas ao longo da consulta. ?Ainda assim, havendo suspeita de hipertensão do avental branco, o ideal é fazer o acompanhamento da pressão arterial por meio de Monitorização Ambulatorial da Pressão Arterial (Mapa), em que um aparelho fica conectado ao paciente durante 24 horas, fazendo medições freqüentes?, diz o cardiologista. O Mapa realiza cerca de 70 medições da pressão arterial ao longo das 24 horas.

Genética

Quem tem pressão alta precisa ter cuidados para toda a vida. Não fumar, ter acompanhamento médico, remédios adequados, alimentação controlada, exercícios físicos e controle do estresse devem ser medidas de ordem para o paciente. De acordo com o cardiologista Marcos Bubna, o número de pessoas que abandonam o tratamento e agravam seu estado é muito alto. ?Devido à falta de sintomas, alguns pacientes acreditam que basta tomar uma cartela de remédios, que está tudo resolvido. Mas, o medicamento nunca pode ser abandonado?, alerta.

Enquanto isso, a Medicina continua avançando no esforço de descobrir novas maneiras de prevenir e tratar a hipertensão. Uma das novidades está na genética. Bubna conta que os estudos caminham para que, em um futuro breve, o mapa genético do paciente mostre se ele apresenta uma tendência à doença, facilitando a antecipação de medidas preventivas, e quais os medicamentos mais indicados.