Os efeitos benéficos das dietas para a saúde e para o ego de pessoas que estão acima do peso já são bastante conhecidos. Porém, o que pouco se sabe é que as dietas, tão badaladas nesses meses que antecedem o verão, são uma das principais causas dos chamados “transtornos alimentares”, principalmente em adolescentes.

“Para adolescentes e crianças, a dieta é um prática particularmente arriscada, uma vez que compromete o crescimento normal e os coloca em risco para o desenvolvimento de um transtorno alimentar”, afirma Paula Melin, diretora do Nuttra ? Núcleo de Transtornos Alimentares e Obesidade, do Rio de Janeiro.

Os resultados de um estudo realizado na Austrália com 888 pessoas apontam estreita relação entre as dietas e os TAs ? transtornos alimentares, como anorexia, bulimia e compulsão alimentar. Constatou-se que as pessoas que fizeram dietas rígidas tinham 18 vezes mais chances de vir a ter um TA do que as que não fizeram uma dieta similar.

O estudo também mostrou que as mulheres que fizeram dieta moderada tinham cinco vezes mais chances de desenvolver um TA do que as que não tinham feito. No Reino Unido, uma outra pesquisa feita com meninas revelou que o risco de uma delas ser diagnosticada com um TA um ano depois de fazer dieta aumentava em oito vezes.

“Hoje, o número de adolescentes que buscam tratamento médico para emagrecer é muito maior do que há dez anos. Entretanto, o que mais preocupa são os jovens que começam a fazer dietas absurdas por conta própria, sem a orientação adequada”, alerta a psiquiatra Paula Melin, que coordenou uma ampla pesquisa com jovens no Rio.

De acordo com a pesquisa, realizada com mais de 3.000 adolescentes de ensino médio do Rio de Janeiro, cerca de 75% dos jovens estão insatisfeitos com o próprio corpo. Mais da metade não apresenta hábitos alimentares saudáveis, embora quase todos confessem pensar muito em comida, peso e… dieta.

“Vivemos na era da estetização exagerada do ser humano, da satanização do gordo. As pessoas em geral e sobretudo os jovens têm medo de ser discriminados e excluídos por estarem ? ou acharem que estão – acima do peso. Daí a obsessão por perder peso rápido e às vezes de forma drástica e até desnecessária”, explica a especialista.

Segundo Paula, a dieta radical não é a causa única dos TAs, mas, em muitos casos, é o fator precipitante. “Ela pode ser um fator de risco particularmente significativo durante a puberdade, quando a percentagem de gordura nos corpos femininos aumenta e existe uma maior sensibilidade quanto à imagem corporal e à atratividade física”, diz.

Os TAs são um problema crescente no Brasil e no mundo e, dentre as doenças psiquiátricas, são as que mais causam mortes. Até pouco tempo, eram vistos como doenças de “mulheres jovens, ricas e frescas”. Hoje se sabe que anorexia, bulimia e compulsão alimentar também são freqüentes em pobres e em homens.

Em um estudo realizado na Santa Casa de Misericórdia com 415 pacientes de renda mensal baixa, viu-se que 27,5% sofriam de compulsão alimentar ? “ataques de comer” periódicos e descontrolados; 18,6% de bulimia – exagero alimentar, seguido de vômitos, abuso de laxantes, diuréticos ou remédios para emagrecer; e 5,4% de anorexia ? pavor de engordar e obsessão por magreza.

Segundo os mesmos estudos, cerca de 60% das pessoas com transtornos alimentares têm depressão, 60% ansiedade, 70% transtornos de humor e 30% usam substâncias que causam dependência e danos à saúde, como drogas ilícitas, tabaco e álcool.