Depois do grande susto, o recomeço de uma vida

Preocupações constantes com o trabalho, questões financeiras, horários e violência fazem parte da rotina de grande parte dos brasileiros. O estresse é tanto que algumas pessoas deixam de ter um tempo de convivência adequado com a família, esquecem-se dos amigos, não se preocupam em cuidar do corpo e muito menos da mente. Muitas vezes, homens e mulheres só de dão conta do estilo de vida corrido que levam depois de passarem por uma grande tragédia pessoal. São várias as pessoas que, depois de enfrentarem um grave problema de saúde ou sobreviverem a um acidente, resolveram mudar radicalmente. Adotaram um estilo de vida bem mais tranqüilo, voltado à convivência, em sintonia com a arte, a natureza e Deus.

“Percebo que as pessoas que chegam no limite entre a vida e a morte passam a encarar as coisas de outra forma”, comenta o fisioterapeuta Marcos Ribas, que atende pacientes vítimas de derrames e diversos tipos de traumas. “A maioria dos que passam por essa experiência enfrenta uma fase de depressão, mas muitos conseguem superá-la. Com grande força, tiram algo de bom do que aconteceu, surpreendendo a todos. Se tornam bem mais humanos e adotam uma vida mais tranqüila, servindo de exemplo para outros que enfrentam problemas semelhantes”.

Vida através da arte

É o caso do aposentado Rosalvo Timotheo Souza Silveiro, de 67 anos, que em 1990 teve um acidente vascular cerebral que lhe paralisou o lado direito do corpo e lhe deixou com dificuldades de se expressar através da fala, ler e escrever. Antes do acidente, Rosalvo – que é formado em Direito – morava no Rio de Janeiro, trabalhava no setor jurídico de um banco e dominava cinco línguas estrangeiras. Sua vida era tão estressante que ele só pensou em casar e constituir uma família aos 45 anos de idade.

“Ele tinha uma vida muito agitada. O fato de morar no Rio de Janeiro lhe gerava uma angústia muito grande, pois ele se preocupava demais com a violência e com a segurança dos filhos (uma menina que hoje está com 20 anos e um menino atualmente com 18)”, revela a professora aposentada e esposa de Rosalvo, Vera Lúcia Z. Silveira. “Rosalvo era uma pessoa depressiva e estressada.”

O aposentado e a família mudaram para Curitiba em 1987, três anos antes do acidente vascular. Um tempo depois de o problema se manifestar, a terapeuta que atendia Rosalvo descobriu que ele gostava de desenhar e o incentivou a se expressar através do desenho. Mesmo sendo destro, Rosalvo aprendeu a desenhar com a mão esquerda. Hoje, realiza desenhos que pela qualidade artística surpreendem amigos, familiares e visitantes de suas exposições.

“Quando Rosalvo teve o acidente, os médicos disseram que ele não voltaria mais a andar. Ele teve muita força de vontade, está andando e levando uma vida ativa, superando as expectativas de todos”, explica Vera. “Apesar do que aconteceu, o Rosalvo é uma pessoa muito mais feliz. Ele era muito materialista e precisou acontecer uma coisa ruim para ele mudar.”

Rosalvo, que era ateu, adquiriu grande fé em Deus e se tornou um exemplo de força e coragem para as pessoas que o conhecem.

Piano muda o foco das atenções

O músico e professor aposentado Gilberto Azevedo Hirsh, 53 anos, foi vítima de um acidente vascular cerebral há dezesseis anos. O mesmo resultou na paralisação de boa parte do lado esquerdo de seu corpo. Antes do acidente, Gilberto nunca tinha manifestado graves problemas de saúde e, apesar de ter dois empregos, levava uma vida relativamente tranqüila.

Mesmo assim, o que aconteceu o fez encarar a vida de maneira diferente, aumentando sua fé em Deus. “Não tive uma fase de desânimo e nunca me isolei, pois tentei encarar o acidente vascular cerebral com naturalidade e sem vergonha”, diz. “Sempre tive muita fé em Deus, mas ela foi fortalecida. O que aconteceu é que tive que ajustar minha vida a uma nova realidade.”

Mesmo sem movimentar o lado esquerdo do corpo, Gilberto nunca deixou de tocar piano, atuar como maestro e realizar apresentações em público. Atualmente, embora aposentado, ele leva uma vida normal e realiza trabalhos como compositor, tendo suas músicas bastante ligadas a temas religiosos. “Devemos aceitar que tudo o que acontece com os outros também pode acontecer com a gente. O ajuste pelo qual tive que passar gerou um aprimoramento em minha vida. Porém, sempre me senti capaz e nunca incapaz”, finaliza. (CV)

De economista a terapeuta

O economista e terapeuta Vítor Caruso Júnior também levava uma vida bastante estressante. Trabalhava quatorze horas por dia e sua rotina girava em torno de serviços de escritório e reuniões. No ano 2000, aos 30 anos de idade, Vitor descobriu um inchaço no pescoço. Procurou um médico, soube que tinha um aneurisma e pouco mais do que alguns dias de vida.

“Tive um choque muito grande, pois achava que iria morrer a qualquer momento. Então, comecei a perceber a vida de outra forma. Notei que tinha feito empresas multinacionais lucrarem mais, mas que minha existência tinha significado muito pouco. Eu tinha carro, benefícios, seguro e uma situação financeira bastante estável, mas quando a gente chega no limite entre a vida e a morte não interessa o saldo da conta bancária”, afirma. “Naquele momento, decidi que iria dedicar o tempo que ainda me restava, nem que fosse apenas um ou dois dias, ao bem de outras pessoas.”

Vítor procurou outros médicos e, dez dias depois de receber o diagnóstico de aneurisma, soube que na verdade o que ele tinha era câncer linfático. Apesar da gravidade do problema, teve disposição para pesquisar formas de acelerar a cura da doença. Estudou sobre acupuntura como forma de reduzir os efeitos colaterais do tratamento, importância de apoio psicológico, alimentação natural, meditação e outras atividades, como yoga. “Descobri, por exemplo, que pacientes que meditavam se recuperavam de forma extraordinária”, conta.

Hoje, o terapeuta está curado. Abandonou totalmente a carreira executiva e passou a se dedicar às terapias alternativas. No bairro Batel, em Curitiba, abriu uma clínica denominada Ciência Meditativa, que oferece atividades como meditação, yoga, yoga terapia, assistência psicológica, acupuntura e palestras sobre assuntos variados. Em maio de 2003, com a finalidade de ajudar outras pessoas vítimas de câncer, lançou o livro Como Qualquer Um de Nós, onde conta a experiência pela qual passou. No próximo mês de novembro, deve lançar o livro O Lama e o Economista, durante o evento Espiritualidade nos Negócios, que acontecerá na Federação das Indústrias do Paraná (Fiep), na capital. (CV)

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