Todo ano é a mesma coisa. A simples visão de um pinheirinho natalino com as luzes piscando ou os primeiros acordes da tradicional Jingle Bells causam arrepios em um número importante de pessoas. Afinal, o corre-corre que antecede o final de ano (presentes, roupa, comida…) pode estressar qualquer um. Somem-se a isso as filas no shopping center, o desespero no trânsito, a procura por "aquele" presente que falta e a tentativa de fechar o ano com as contas em dia. Com todos esses contratempos, será possível alguém entrar o novo ano "com saúde pra dar e vender"?

Conforme os psiquiatras, essas festas são reconhecidas como o período mais estressante do ano, principalmente para aquelas pessoas propensas aos distúrbios depressivos. Os distúrbios mais incidentes são marcados pelo mau humor, impaciência, dores de cabeça, enxaqueca, depressão, angústia e, em alguns casos, até pelo pânico. De acordo com Osmar Ratzke, presidente da Sociedade Paranaense de Psiquiatria, quem tem dificuldade de conviver com as exigências da vida moderna, conciliando vida pessoal, social e profissional, é a vítima mais vulnerável do estresse característico desse período.

Laços sangüíneos

Para as pessoas que estão "de bem com a vida", o Natal demora muito a chegar e é celebrado em cada detalhe, e pode vir carregado de bons fluidos. Para os outros, a data insiste em acontecer todos os anos, criando sensações contraditórias, mais perturbando do que trazendo coisas boas. "Para estes, é como se o tempo se atropelasse e, por conta de todos os afazeres natalinos, suas vidas virassem de ponta cabeça", diz a psicóloga Silvana Martani.

Para a terapeuta, a festa, vista como um encontro importante, pois muitas famílias se reúnem somente nessa data, hipervalorizando laços que, segundo ela, são única e exclusivamente sangüíneos e não afetivos, impondo a todos uma dimensão de harmonia, amizade e afeto artificial que acaba irritando mais as pessoas do que agradando. Além disso, temos a questão dos presentes, considerados por muitos o principal da festa, pois acabam sendo um instrumento tanto de prestígio quanto de valorização econômica.

O Natal também se faz geralmente acompanhar de um considerável aumento das despesas financeiras. A conseqüência aparece normalmente sob a forma da decepção de não ter a quantia suficiente para satisfazer seus desejos ou da sensação de assumir gastos maiores do que deveria. Osmar Ratzke diz que sempre é preciso agir com prudência e equilíbrio, não se deixando levar por impulsos do momento. Ele lembra que o fundamental é a confraternização e a importância da sua presença para as outras pessoas.

Deixe fluir tranqüilamente

O psiquiatra esclarece que essas datas são apenas simbólicas, não existindo nada que comprove a tendência depressiva que elas possam trazer. "Ninguém deve culpar o calendário por momentos desanimadores", frisa. Segundo o especialista, qualquer dos sentimentos depressivos é o resultado de seu próprio pensamento. "O melhor é deixar o período de festas fluir, em vez de torná-lo um bicho-de-sete-cabeças", orienta.

Uma dica para diminuir o estresse é distribuir as responsabilidades entre todos. Se a família tem o costume de se reunir nas comemorações, um mínimo de planejamento pode ajudar, assim enquanto uns se preocupam com a decoração natalina, alguns podem comandar a cozinha e outros resolvem diferentes pormenores. Também é bom não esquecer de estabelecer limites de gastos, para que ninguém se sinta prejudicado financeiramente.

Outra resolução que pode causar estresse é tentar cumprir as promessas feitas no réveillon passado antes que este ano acabe. No entender de Ratzke, essas promessas podem se tornar objetivos a serem alcançados independente da época do ano em que sejam feitas. "Nesse caso é bom avaliar coerentemente os motivos que o impediram de atingi-los e, no próximo ano, ser menos exigente, estabelecendo metas que realmente sejam concretizáveis", opina o psiquiatra, salientando que não é necessário levar a ferro-e-fogo o cumprimento dessa lista. Muitas conquistas não se resumem ao período de um ano, "as coisas não são tão simples assim", ressalta. Uma promessa que nunca falha é estabelecer como meta para os próximos meses um cuidado maior consigo mesmo e com sua qualidade de vida. Isso ajudará a reduzir os efeitos negativos do estresse, deste e de outros finais de ano.

Natal sem estresse

Algumas medidas podem ser adotadas para auxiliar no controle do estresse de final de ano.

· Aceite os seus sentimentos – Se você passou por alguma perda familiar recente, admita que é razoável sentir angústia e dor. Não reprima seus sentimentos, senão eles poderão se prolongar por muito mais tempo.

· Ajude e procure ajuda – Quando se sentir em situações de isolamento procure ajudar outras pessoas ou mesmo buscar ajuda, isso lhe fará muito bem.

· Não queira o impossível – À medida que a família vai mudando e crescendo, as tradições também se alteram, por isso compreenda também que elas já não se adaptam aos tempos em que vivemos.

· Esqueça as diferenças – Pode ser difícil, mas tente aceitar os membros da sua família exatamente como são.

· Controle as despesas – Verifique cuidadosamente quanto dinheiro tem disponível e mantenha-se dentro dos limites fixados, para não se arrepender depois. Programe-se antes de sair, evitando a hora do rush e aglomerações, principalmente, quando estiver com crianças.

· Mantenha os bons hábitos – Não se sinta obrigado a comer e a beber mais do que aquilo a que está habituado só porque é final de ano.