São Paulo (AE) – Dona Eunice Leitão, de 90 anos, sofreu das dores de uma doença osteomuscular severa durante 25 anos. "Nem conseguia tomar banho sozinha." Passou por diversos especialistas e a interação entre os medicamentos prescritos só piorou sua condição. Foi, enfim, ao geriatra, que assumiu o papel de supervisor-geral de sua saúde. Agora, as dores diminuíram e cada pequeno progresso é celebrado. Como um delicioso banho quente, com privacidade.
Conhecidas como reumatismos, doenças osteomusculares – dolorosas e, por vezes, incapacitantes – são mesmo comuns na velhice, mas têm tratamento. Tratamentos, no plural. "Atividade física, medicamentos e terapias complementares, como ioga e acupuntura", resume o geriatra Carlos Freitas dos Santos, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), médico de Eunice.
O geriatra explica que os remédios podem ser compostos por analgésicos (da dipirona à morfina) e antiinflamatórios, muito úteis e eficazes, mas que requerem monitoramento contínuo. "O consumo abusivo pode causar insuficiência renal e cardíaca, além de problemas gastrointestinais", alerta. Mas isso não quer dizer que os antiinflamatórios sejam vilões.
PREVENÇÃO
Fundamental no tratamento da dor, a atividade física é também a melhor estratégia de prevenção. "É preciso se exercitar em todas as idades", afirma a professora de educação física e psicomotrista Laura Pricoli, que recomenda exercícios de fôlego, como a natação; de carga, como a musculação, e alongamento. Apenas as atividades de impacto, a corrida por exemplo, devem ser evitadas para poupar as articulações. Vale lembrar que, antes de qualquer iniciativa, um médico deve ser consultado.
"O grande segredo é não desistir da vida", frisa a gerontóloga Marisa Accioly, presidente do departamento de gerontologia da Sociedade Brasileira de Geriatria. A propósito, você sabe o que é gerontologia? Se a geriatria estuda as alterações funcionais do organismo no processo de envelhecimento, a gerontologia preocupa-se também com as transformações sociais e psíquicas dessa fase da vida.
Há uma tendência contemporânea de que os geriatras tenham também noções de gerontologia. Afinal, há dores, digamos, "metafísicas" também relacionadas ao envelhecimento.
VIDA COM QUALIDADE
Mas o que seria dor social? De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), já havia 15 milhões de pessoas com mais de 60 anos no Brasil em 2000. No mesmo censo, foram registrados mais de 25 mil centenários no País – um aumento de 77% em relação a 1991. Enfim, o diagnóstico: os idosos brasileiros têm renda média de dois salários mínimos e apenas três anos de escolaridade. E 70% são usuários do Sistema Único de Saúde (SUS). Ter uma população mais envelhecida é uma característica dos países desenvolvidos, "mas esses anos a mais têm de ser desfrutados com qualidade".
O envelhecimento envolve dores físicas e sociais, como visto. Mas há uma terceira (relacionada às outras duas): a dor emocional. "O declínio físico e as sucessivas perdas de pessoas da mesma geração deixam o idoso mais vulnerável", afirma a psicóloga Valéria Lasca, mestre em gerontologia pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Mas, para continuar vivendo, é preciso… continuar vivendo. "O idoso, como todo mundo, tem que se manter ativo, sonhar."
A aposentada Olga Faraco, de 60 anos, acaba de ingressar na terceira idade. Foi uma iniciação difícil. A artrose deixava as mãos inchadas, tortas, doloridas. A depressão tirava-lhe o entusiasmo pelo porvir. Mas ela reagiu. "É uma questão de auto-estima, sabe?" Procurou um reumatologista. Fez análise, ioga, caminhadas. Há dois meses, começaram as aulas de teclado. "A música relaxa a mente e eu até esqueço a dor."


