Respirar é um ato reflexo que ninguém precisa aprender como fazer. Não é bem assim. Há divergências, pois fazê-lo corretamente é outra história. A respiração certa possibilita que o ar inspirado chegue devidamente filtrado e aquecido aos pulmões. Independente do clima, o ar que passa pelo nariz chegará à temperatura ideal do corpo humano. Para driblar o obstáculo nas vias nasais que impede em respirar pelo nariz, o corpo desenvolve uma forma alternativa de respiração: a bucal. Esta pode trazer uma série de graves consequências à saúde. O número é significativo: 30% das crianças brasileiras respiram pela boca e apresentam a síndrome.

No caso dos respiradores bucais, pessoas que passam a maior parte do tempo respirando pela boca, esse ar segue pelas vias aéreas inferiores com baixa qualidade, muitas vezes, predispondo o organismo a uma maior incidência de resfriados, gripes, sinusites e faringites, entre outras doenças. Já nos primeiros anos de vida, quando se desenvolvem as estruturas faciais, ocorrem as primeiras alterações no crescimento e desenvolvimento dentofacial. Como consequência, a maxila fica estreita, reduzindo ainda a arcada dentária superior e estimulando a mordida incorreta, normalmente com cruzada posterior.

Processos alérgicos

Tecnicamente, a ortodontista e especialista em respiração bucal, Gilda Souto, explica que a respiração bucal é a suplência do oxigênio por via oral, por alguma patologia nasofaríngea ou por alterações ambientais temporárias, entre elas, a prática da natação. Dentre as patologias que mais causam o distúrbio estão a hipertrofia das adenóides ou das amígdalas, além dos desvios de septo e traumatismos faciais. “Essas disfunções ocasionam uma obstrução nasal que faz com que a pessoa passe a apresentar, na maior parte do tempo, a respiração pela boca em detrimento da respiração pelo nariz”, explica a especialista.

A ortodontista comenta que, em situações de processos alérgicos, como rinites e asma, ocorrem mudanças no modelo funcional respiratório de nasal para bucal. “Em geral, os respiradores bucais demonstram alta positividade a alérgenos, predominantemente os ácaros e o fumo passivo”, alerta. Fatores secun-dários, como a obesidade, o período da amamentação e a história de hábitos bucais danosos persistentes à primeira infância, também influenciam nesse modelo respiratório.

Estética comprometida

Em geral, o portador do distúrbio desenvolve uma face notadamente “longa”, como o sinal mais visível. No entanto, há uma série de alterações associadas, como a posição da cabeça para frente, ombros também colocados para frente, rotação mediana dos ombros, flexão da cabeça, assimetria de ombros e cabeça pendida para a lateral, na questão postural. A alteração postural ocorre como uma tendência compensatória para aumentar a extensão da via aérea na busca de facilitar a respiração. “Porém, esse mecanismo compensatório não é suficiente para prover uma respiração normal”, salienta Gilda Souto.

Lábios hipotônicos, força da língua, função mastigatória e o bruxismo estão associados a essa síndrome. Ademais, pode existir uma série de comprometimentos dentários associados a ela, denominados de má oclu-são, como dentes grandes e salientes, mordida cruzada, mordida aberta anterior, apinhamento superior e arco dentário inferior mais curto, entre outros aspectos. Distúrbios que comprometem a estética facial. Outro aspecto importante é que a qualidade de vida dos respirados bucais é significativamente prejudicada.

A respiração bucal revela-se mais intensa durante o sono, prejudicando a qualidade do sono. Com efeito, o sono insatisfatório a consequente sonolência diurna afetam o desempenho cerebral, podendo contribuir para uma mudança no desempenho cognitivo e escolar, bem como na menor capacidade de atenç&a,tilde;o e maior estresse emocional manifestado por comportamentos agressivos, aspectos que também são observados em respiradores bucais.

Para a especialista, é importante salientar que se a respiração bucal não for tratada adequadamente antes da fase puberal resultará em alterações nas vias aéreas superiores, deformidades dentárias, craniofaciais e posturais permanentes, além de distúrbios psicossociais severos. “No adulto, pode ser encontrada, além dessas defor-midades, uma tendência ao envelhecimento facial”, avalia.

Tratamento

A respiração bucal, como patologia, deve de ser diagnosticada pelo médico, que irá descobrir a causa e tratar o impedimento obstrutivo. Quando houver sido sanada ou equilibrada a causa dessa disfunção respiratória, será necessária uma reorganização do que faz parte do sistema respiratório, como arquitetura das arcadas dentárias, musculaturas faciais e musculatura da língua, entre outras. “O tratamento é obrigatoriamente multidisciplinar, pois nenhuma terapêutica individual será capaz de retratar as alterações ocasionadas por essa síndrome”, garante a ortodontista Gilda Souto
Assim, um oftalmologista, um cirurgião dentista, um ortopedista funcional, um ortodontista facial, um fonoaudiólogo e um fisioterapeuta poderiam participar do tratamento, dependendo da necessidade de cada caso e da severidade dos comprometimentos relacionados.

Comece a perceber

O respirador bucal tem algumas características básicas que permitem, na maioria dos casos, fácil diagnóstico tanto por profissionais quanto por familiares. É importante lembrar que quanto mais a pessoa respira pela boca, pior será seu quadro geral de saúde. Os sinais mais comuns encontrados nos respiradores bucais são:

* Olheiras
* Hábito de dormir de boca aberta
* Olhar cansado e sem brilho
* Palato (céu da boca) profundo
* Arcada superior estreita
* Queixo para trás
* Língua e lábio inferior moles
* Lábio superior curto com dentes à mostra
* Dentes incisivos para frente
* Pouco desenvolvimento do tórax