salada031007.jpgSuprimir refeições, ingerir sempre os mesmos alimentos e trocar a ingestão de alimentos nutritivos por outros nem tanto são os principais pecados cometidos à mesa pelo brasileiro. ?Dois terços da população tem dieta inadequada em quantidade e qualidade?, lamenta Andréa Ramalho, professora titular da Universidade Federal do Rio de Janeiro e consultora do Ministério da Saúde. Esses maus hábitos levam ao que a especialista chama de fome oculta. Não se trata da desnutrição de quem passa fome, mas sim da ingestão de vitaminas e minerais em quantidade insuficiente para o bom funcionamento do organismo.

A afirmativa se baseia no resultado de uma pesquisa recém-concluída pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) em parceria com a Faculdade de Saúde Pública da USP que revela que a dieta do brasileiro deixa muito a desejar, com baixo consumo de vitaminas e nutrientes essenciais para a saúde, como o cálcio e a vitamina D. O estudo Brazos Nutricional, patrocinado pelo laboratório Wyeth avaliou 2.420 pessoas (em entrevistas porta a porta), em 150 municípios das cinco regiões do País.

Feijão com arroz

Andrea Ramalho: “O estudo é
importante por focar principalmente
a questão do consumo de vitaminas e outros nutrientes”.

Andréa Ramalho esclarece que a fome oculta não apresenta sintomas específicos, mas pode ser traiçoeira. ?Quando é percebida, já se transformou em doenças como osteoporose, câncer, hipertensão, problemas cardiovasculares, envelhecimento precoce?, adverte. Com efeito, a fome oculta é a carência que o corpo tem de certos nutrientes que previnem essas doenças. Muitas vezes, no entender da especialista, o problema pode estar escondido por uma aparência de normalidade ou de exageros. ?Aí é que está o perigo: além de não comermos o que é necessário, comemos em excesso o que não é preciso?, constata.

Os resultados do Brazos Nutricional comprovaram que os brasileiros ingerem quantidades menores do que o recomendado internacionalmente de vitaminas e nutrientes essenciais para o organismo. Além disso, o estudo derrubou o mito de que o tradicional prato de arroz com feijão, salada e carne é suficiente para uma alimentação adequada. ?Embora rico nos chamados macronutrientes, o prato típico da refeição brasileira não é suficiente para garantir as quantidades necessárias de cálcio, potássio e vitaminas D, E e A para a saúde?, reconhece o reumatologista Marcelo Pinheiro, da Unifesp, coordenador do estudo.

Pouco cálcio

Para se ter uma idéia, o brasileiro consome quantidade de cálcio três vezes abaixo da quantidade diária recomendada internacionalmente e até seis vezes menos vitamina D do que o necessário para prevenir doenças como a osteoporose e a hipertensão. Situação semelhante acontece com vitaminas E, A, K, potássio e betacaroteno. ?O cálcio é importante em todas as idades, por ser essencial para ossos, dentes e especialmente para a prevenção da osteoporose que acontece, entre as mulheres, principalmente, no período da menopausa?, avalia. Assim, a saúde óssea do brasileiro está comprometida e o risco de adquirir doenças crônicas é cada vez maior.

Marcelo Pinheiro: “a saúde óssea do brasileiro está comprometida e o
risco de adquirir doenças crônicas é cada vez maior.”

Outro ponto importante diagnosticado pelo estudo confirmou pesquisa realizada pelo IBGE, apontando que a obesidade e o sobrepeso se tornaram um dos grandes problemas do brasileiro. Esses distúrbio prevalecem em todas as classes sociais e pressupõe a mesma carência de vitaminas e nutrientes encontradas nas pessoas desnutridas. ?As classes sociais mais favorecidas, ao contrário do que muitos pensam, também sofrem com a fome oculta?, conclui Marcelo Pinheiro.

De acordo com o coordenador, para melhorar esse quadro, é necessária uma mudança nos hábitos alimentares da população. O brasileiro precisa aumentar (em quantidade) seu consumo de leite e derivados, frutas, legumes e verduras. Para os pesquisadores, o passo inicial, passa por consultas aos médicos e nutricionistas, que podem indicar uma dieta adequada, inclusive com a prescrição de suplementos vitamínicos, quando necessário.

Raio-X da fome oculta

Confira os principais resultados do Brazos Nutricional, que entrevistou 2.420 pessoas em todas as regiões do Brasil.

Números raquíticos

90% da população consome cálcio abaixo da quantidade recomendada de 1.200 miligramas por dia. A maioria não consome nem 400 miligramas por dia.

99% entrevistados ingerem vitamina D em uma quantidade quase seis vezes abaixo do recomendado internacionalmente.

99% também não consomem as quantidades de vitamina E indicadas.

50 % consomem menos vitamina A do que o mínimo necessário.

80% dos indivíduos também não chegam à quantidade ideal de magnésio.

80% da população consomem vitamina C abaixo do recomendado.

81% não consomem a quantidade de vitamina K indicada.

40% da população não atinge o mínimo do consumo de minerais (selênio, cobre, zinco, ferro e iodo) exigido.

O coração sofre

De acordo com o cardiologista Daniel Magnoni, do Hospital Dante Pazzanezze de São Paulo, a comprovação de que a alimentação do brasileiro é pobre em vitaminas e minerais, além do alto grau de sedentarismo, mostra que a população precisa modificar tais hábitos de vida, pois eles influenciam sobremaneira na saúde do coração. “As pessoas que pertencem ao grupo de risco de desenvolver doenças cardiovasculares não podem prescindir de uma alimentação equilibrada”, adverte. Para o especialista, num futuro bem próximo, cada vez mais pessoas que pertencem a esses grupos vão precisar de suplementos de vitaminas e minerais para se manterem saudáveis.

Magnoni pondera que, embora não exista comprovação científica de que a falta de vitaminas esteja ligada diretamente às doenças do coração, já se sabe que esse tipo de doença passa por vários enfoques, como a prática de exercícios físicos, o controle dos fatores de risco e a alimentação correta.

Cada região, um distúrbio

O estudo também identificou as doenças mais prevalentes em cada região, conforme relato do entrevistado:

Sul

Depressão

Sudeste

Hipertensão, diabetes e osteoporose

Centro-oeste

Lombalgia e diabetes

Nordeste

Dislipidemia e hipertensão

Norte

Artrite, lombalgia e dispepsia

Principais conclusões

A ingestão de todas as vitaminas e nutrientes essenciais está inferior à recomendação internacional. Isso significa que o brasileiro não consome a quantidade de vitaminas e outros nutrientes essenciais sugeridas internacionalmente.

Isso se deve à ingestão insuficiente de vegetais, frutas e grãos. As quantidades ingeridas desses alimentos são insuficientes para atingir as necessidades de acordo com gênero e idade.

O consumo de minerais na maior parte dos indivíduos foi adequado, mas ainda está abaixo em 40% dos entrevistados.

Recomenda-se incentivar o consumo de vegetais, frutas, cereais integrais e grãos na nossa população.

O coração sofre

De acordo com o cardiologista Daniel Magnoni, do Hospital Dante Pazzanezze de São Paulo, a comprovação de que a alimentação do brasileiro é pobre em vitaminas e minerais, além do alto grau de sedentarismo, mostra que a população precisa modificar tais hábitos de vida, pois eles influenciam sobremaneira na saúde do coração. “As pessoas que pertencem ao grupo de risco de desenvolver doenças cardiovasculares não podem prescindir de uma alimentação equilibrada”, adverte. Para o especialista, num futuro bem próximo, cada vez mais pessoas que pertencem a esses grupos vão precisar de suplementos de vitaminas e minerais para se manterem saudáveis.

Magnoni pondera que, embora não exista comprovação científica de que a falta de vitaminas esteja ligada diretamente às doenças do coração, já se sabe que esse tipo de doença passa por vários enfoques, como a prática de exercícios físicos, o controle dos fatores de risco e a alimentação correta.