barrigadomal311007.jpgA comerciante Maria Ernestina Vieira Sampaio, 38 anos, sempre foi considerada ?gordinha?, chegando a pesar mais de 100 kg, sem nunca ter se importado com apelidos ou brincadeiras dos amigos. De vez em quando fazia uma dieta e perdia alguns quilos. ?Mas logo os encontrava de novo?, brinca. De repente a comerciante passou mal e teve que ser internada. O susto maior veio com o diagnóstico: infarto do miocárdio. Maria passou por uma cirurgia e está em plena recuperação. A paciente era vítima da síndrome metabólica, o conjunto de fatores de risco que associados elevam as chances de desenvolver doenças cardíacas.

O fator mais ?visível? desta síndrome é o aumento da circunferência abdominal. A maioria dos pacientes e até mesmo alguns médicos não sabem que o aumento da medida da circunferência da cintura é um importante fator de risco para doenças cardíacas – que matam 17 milhões de pessoas todos os anos no mundo. Para se ter um exemplo, no Brasil, quem fuma tem 4,3 vezes mais chances de um infarto no miocárdio comparado àqueles que se mantêm longe do tabagismo. Por seu lado, um homem com circunferência abdominal maior que 90 cm ou uma mulher medindo mais de 80 cm, possuem 3,2 vezes mais risco do que as pessoas abaixo dessa medida. ?É um fator de risco que deve ser melhor avaliado por médicos e pacientes?, reconhece Ricardo Pavanello, cardiologista do Hospital do Coração, em São Paulo.

Maçã ou pêra?

Com efeito, a fita métrica é uma importante aliada na luta contra as doenças do coração. ?Saber de que forma a gordura se distribui pelo organismo é importante instrumento na batalha contra a obesidade?, diz o endocrinologista e especialista em obesidade Alfredo Halpern. O médico salienta que, para ficar longe do grupo de risco, a primeira coisa a fazer é não exibir uma deselegante barriguinha por aí. Ele explica que a principal ameaça à saúde não é a gordura subcutânea, mas a localizada na região abdominal, e que, mesmo pessoas com índice de massa corpórea (IMC) normal podem sofrer de síndrome metabólica. Álvaro Avezum, diretor de pesquisa do Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia de São Paulo, explica que são descritos dois padrões para esse tipo de acúmulo de gordura: a forma de maçã, na qual os indivíduos acumulam gordura no abdome, e o tipo pêra, caracterizada pela deposição de gordura nos quadris. ?Para a saúde cardíaca, o tipo maçã é considerado uma grande ameaça, pois mostra a prevalência no corpo da chamada gordura visceral?, frisa. Assim, as pessoas que se enquadram nessa comparação apresentam risco predominante de desenvolver diabetes, doença cardiovascular e doença cerebrovascular.

Para se ter idéia, a medida da circunferência abdominal é considerada hoje pelos especialistas uma indicação mais precisa do que o índice de massa corpórea (o IMC calculado dividindo-se o peso pela altura ao quadrado). ?Trata-se de uma ferramenta efetiva para identificar pessoas sob risco cardiovascular. E apesar dos avanços terapêuticos, a doença coronariana vascular permanece como a principal causa de morte no planeta?, relata Pavanello.

Cenário sombrio

As doenças cardíacas acontecem porque as artérias acabam entupidas por placas de gordura, os ateromas, que impedem a circulação do sangue até o coração. Para o especialista em obesidade Alfredo Halpern, não adianta espernear, a saída é mudar o estilo de vida e se livrar da obesidade. "Quando não se consegue por meio das dietas, o ideal é utilizar medicamentos sob prescrição médica", comenta. Com efeito, a obesidade abdominal é considerada um fator de risco maior do que a obesidade corporal em si. Assim, no entender do especialista, uma senhora obesa, por exemplo, mas com a cintura fina, corre muito menos risco do que um homem bem mais magro, porém com uma cintura larga.

Outro fator que tem que ser levado em conta é a diferença no impacto da circunferência abdominal na saúde entre pessoas de etnias diferentes. No Japão, por exemplo, o tamanho limite considerado é de 90 cm para mulheres e de 85 cm para os homens. Nos Estados Unidos, o número vai de 88 cm para elas e de 103 cm, para eles. Álvaro Avezum diz que se atitudes urgentes não forem tomadas, o cenário das doenças cardíacas tende a se tornar cada vez mais sombrio.

Além disso, os gastos com saúde pública só tendem a aumentar se nada for feito. O cardiologista comenta que, pelo menos, 20 milhões de pessoas sobrevivem aos ataques cardíacos e ao acidente vascular cerebral a cada ano. "Muitos passam a necessitar de cuidados clínicos de alto custo", completa.

Para prevenir

fitinha311007.jpg* Para adultos, uma caminhada de 30 minutos por dia ajuda a reduzir os riscos de DCV

* Crianças podem ter 60 minutos de atividade física diária

* Procure ajuda de pessoas incentivadoras que participem com você ou mesmo lembrem sobre a importância da prática de exercícios

* Reduza o tempo que você e sua família passam diante da televisão ou do computador

* Exercícios físicos e dietas são considerados terapia de primeira escolha, podendo levar a uma redução expressiva da circunferência abdominal

* Antes de dar início a qualquer programa de exercício ou reeducação alimentar, consulte seu médico

* Para medir corretamente a circunferência abdominal: tire a camisa e afrouxe o cinto; posicione a fita métrica entre a borda inferior das costelas e a borda superior do quadril. Relaxe o abdome e expire no momento de medir.

A síndrome metabólica

Um conjunto de alterações metabólicas que precede o estabelecimento definitivo de problemas cardiovasculares, do diabetes tipo 2 e da hipertensão, entre outras doenças. Tem síndrome metabólica que possui pelo menos três dos seguintes parâmetros:

* Obesidade visceral ou IMC maior que 30

* Triglicerídeos acima de 150 mg/dl

* Colesterol HDL (colesterol bom) abaixo de 40 mg/dl, para homens, e de 50 mg/dl, para mulheres

* Pressão arterial maior ou igual a 130/85 mmHg (ou 13 por 8,5)

* Glicemia de jejum acima de 110 mg/dl