As mulheres aproveitaram as transformações ocorridas no final do século passado, conquistaram direitos sociais e políticos, passaram a ocupar importantes postos de trabalho nas empresas e importantes cadeiras nas universidades. Essa mudança de postura as obrigou a mudar consideravelmente o estilo de vida, fazendo-as enfrentar as agruras do estressante mercado de trabalho. Nessa incursão, elas tiveram comprometidos o bem-estar, a qualidade de vida, a saúde e, até mesmo, a longevidade.

Com efeito, as mulheres nunca estiveram tão expostas ao infarto, doença tradicionalmente masculina. De acordo com o cardiologista Eduardo Zen, do Hospital Santa Cruz, a incidência da doença coronariana entre elas sempre foi menor. Para ele, entram como vilões nessa história a péssima qualidade na alimentação, a falta de uma atividade física regular, o estresse e o tabagismo.

Ao contrário do que a maioria das pessoas imagina, as mulheres morrem mais que os homens de doenças cardiovasculares, em especial o ataque cardíaco e o derrame. A confirmação vem da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC). E o que é pior: grande parte delas não realiza exames preventivos com freqüência, desconhecendo, por exemplo, a sua taxa de colesterol. ?Muitas não fazem nem idéia de que estão correndo risco de sofrer um ataque cardíaco?, adverte Zen.

As recomendações que assustam os homens ? mesmo que apenas um número ínfimo busque os check-ups preventivos ? parece que, entre as mulheres, não encontram a mesma ressonância. O resultado desse pouco caso é comprovado por pesquisas divulgadas pela SBC: a doença cardiovascular é a principal causa de morte em mulheres com mais de 35 anos, superando em seis vezes o número de mortes por câncer de mama, por exemplo. Além disso, nas últimas duas décadas, a taxa anual de mortalidade por doenças cardíacas no Brasil atinge mais mulheres do que homens.

O cardiologista José Roberto Barreto explica que um infarto costuma ser construído ao longo dos anos. "Ele é resultante da obstrução coronariana causada pelo excesso de gordura ? colesterol e triglicérides ? no sangue?, esclarece. Assim, as placas de ateromas ? camadas de gordura depositadas nas paredes arteriais – impedem que a irrigação sangüínea e o oxigênio cheguem ao coração, ocasionando assim a morte de uma parte do miocárdio. ?O quadro piora se a paciente sofre de diabetes, tiver antecedentes familiares de doenças cardíacas ou sofrer de estresse crônico", complementa.

Para Eduardo Zen, a mulher deve começar a se preocupar com o coração a partir dos 35 anos, quando os problemas se tornam mais evidentes. Muitas pacientes de alto risco não têm sintomas e não sabem que correm perigo. Para ele, a prevenção de doenças cardiovasculares pode e deve começar na infância. Dá para começar combatendo pelo menos dois fatores de risco importantes: o sedentarismo e a obesidade. Todas as mulheres, mesmo antes de passar pela menopausa ? onde os problemas se agravam, devem colocar na sua agenda uma visita anual ao cardiologista. ?Sempre é tempo de modificar hábitos e viver de forma sadia?, completa o especialista.

Sinal vermelho

* Mulheres têm o dobro de risco que os homens de morrer após uma cirurgia de ponte de safena.

* Um terço das mulheres apresentam sintomas cardiovasculares atípicos, por isso não reconhecem nem tratam os sintomas dessas doenças.

* 38% das mulheres morrem após um ano de sofrer o primeiro ataque cardíaco.

* 35% das sobreviventes ao primeiro ataque têm outro em seis anos, em média.

* A maioria das mulheres só busca auxílio médico quando a situação já se tornou grave.