Depois de retirar um tumor maligno de seu pulmão, o ator Herson Capri levou outro susto. O tratamento prescrito pelo pneumologista e professor da USP Carlos Carvalho era fazer exercício físico intenso, no mínimo meia hora por dia, e todos os dias:

– Eu, que era maníaco por vitaminas, estranhei. Só isso? Pois é só o que tenho feito: uma hora diária de corrida, natação ou musculação. Nunca mais tive nada. Minha vida ficou mais gostosa e alegre. Tenho mais energia para o trabalho e ânimo para curtir a família – diz o ator.

A história de Herson Capri é uma das milhares que comprovam uma nova revolução na medicina preventiva: a luta contra o câncer anda por caminho semelhante ao que alterou as estatísticas das doenças cardíacas na década de 80. A prática diária de exercício, além de reduzir os riscos cardíacos, pode prevenir tumores malignos – não só para os que já venceram uma vez o câncer, mas sobretudo para os que não sofrem do mal – além de melhorar a qualidade de vida dos que estão em tratamento. Essa é a constatação de pesquisadores de diversas universidades do mundo, entre eles Kerry Courneya, da Universidade de Alberta, no Canadá; Inger Thune e Anne-Sofie Furberg, da Universidade de Tromso, na Noruega; e especialistas da Clínica Mayo, do hospital da Universidade Johns Hopkins e do Instituto Nacional do Câncer dos EUA.

Os exercícios recomendados são caminhadas rápidas, pedaladas e até mesmo, em alguns casos, corridas; trabalhos com halteres e cargas para flexão de braços e pernas, abdominais e alongamento. Os resultados desses estudos sugerem para o brasileiro Claudio Gil Araújo, especialista em medicina do exercício, um novo protocolo médico diante do câncer que inclua, necessariamente, a atividade física:

– As pesquisas mostram que os sedentários têm cerca de duas a três vezes mais chances de ter câncer do que os que fazem ginástica. É um índice mais alto do que o de doenças cardíacas, em que os sedentários têm uma ou duas vezes mais chances de cardiopatias. Haverá uma revolução nessa área, com impacto talvez maior do que o dos benefícios do exercício físico para o coração, há 20 anos.

Exercício na juventude ajudou Herson Capri

O chefe da Oncologia Clínica do Instituto Nacional do Câncer (Inca), Renato Martins, avaliou o estudo feito pelo canadense Kerry Courneya de 12 trabalhos sobre o impacto do exercício físico em pacientes de câncer. Apesar de fazer ressalvas à pouca profundidade e ao número ainda reduzido de pacientes dos estudos, ele disse que o canadense traz uma informação nova: a de que o exercício físico deve ser incluído nas recomendações médicas a pacientes de câncer que tenham condições de realizar essas atividades:

– O exercício físico beneficia qualquer pessoa e, entre elas, estão os pacientes de câncer que tenham condições de saúde para praticar atividades físicas. Mas ainda há uma espécie de tabu entre os oncologistas em relação ao exercício.

Renato Martins reconhece que o paciente de câncer é tratado com as restrições impostas ao paciente cardíaco há 25 anos: pijama, alimentação leve e repouso. Os casos de câncer são complexos e, segundo ele, exigem cuidados que terminam por deixar a atividade física em segundo plano.

– Quando um paciente me pergunta se pode fazer hidroginástica, eu autorizo. A família até se espanta: “Pode, doutor?”. Mas não é um hábito. Geralmente a solicitação vem do próprio paciente – diz.

Exercícios previnem câncer de cólon, pâncreas e pulmão

Pesquisas internacionais comprovam que a atividade física previne casos de câncer de pulmão, cólon, pâncreas, próstata e mama mesmo em pessoas com predisposição genética para a doença. Foi esta, aliás, a explicação que o ator Herson Capri recebeu de seu pneumologista para a baixa agressividade do tumor retirado de seu pulmão: a vida de atleta na adolescência:

– O fato de eu ter praticado natação até os 19 anos compensou de alguma forma os efeitos nocivos do hábito de fumar, evitando uma gravidade maior do caso. Parei de fumar e faço uma hora de exercícios por dia. Nos dias em que não consigo malhar, sinto uma diferença enorme. A disposição e o bom humor diminuem.

A professora de educação física Claudia Avelar, de 44 anos, disse ter recuperado o movimento dos braços após uma mastectomia há três anos, persistindo nos exercícios físicos.

– Não deixei a peteca cair. Queria perder o peso que ganhei com a quimioterapia e recuperar os movimentos dos braços. Consegui – conta.

Um estudo coordenado pelo cientista D. Michaud, do Instituto Nacional do Câncer dos EUA, e publicado no “Journal of American Medical Association” constatou que o risco do câncer pancreático é menor nos fisicamente ativos, mesmo para aqueles que têm excesso de peso. Cientistas de Londres, liderados pelo pesquisador S.G. Wannamethee, estudaram adultos de meia-idade por 18 anos e comprovaram que os que praticavam atividade física apresentaram menor incidência de câncer de próstata, bexiga e estômago.

Oncologistas devem valorizar mais a ginástica

As pesquisadoras Inger Thune e Anne-Sofie Furberg, da Universidade de Tromso, na Noruega, constaram que a atividade física diminui o risco de todos os tipos de câncer, especialmente os de cólon intestinal. A explicação é de que a atividade física estimula o tráfego intestinal, evitando o acúmulo de resíduos nos intestinos por longos períodos, até mesmo de agrotóxicos cancerígenos.

Os programas de exercício físico para pacientes de câncer têm aumentado nos Estados Unidos, especialmente em mulheres sobreviventes de câncer de mama. O Hospital Johns Hopkins, em Baltimore, desenvolve há dois anos um programa de ginástica para cerca de 400 mulheres que já tiveram câncer de mama ou estão em tratamento, com benefícios comprovados. Há ainda projetos independentes como o “Abreast in a boat”, de exercícios e suporte social com mais de 30 equipes em três estados americanos; e outro chamado “Team Survyvor USA”, com dois mil participantes em oito estados.

O oncologista Carlos Augusto Andrade, da Oncoclínica, comenta que a descoberta dos benefícios da ginástica contra o câncer é recente. Ele disse que, há dois anos, com base em pesquisas internacionais, começou a indicar a alguns pacientes (cerca de 12 no último ano) programas de exercícios supervisionados por médicos.

Claudio Gil Araújo explica que, com exceção de casos de câncer ósseo, com alto risco de fraturas, pacientes de todos os outros tipos de câncer estão aptos à prática de algum exercício físico diário, desde que tenham condições de fazer essa atividade monitorados por médicos.

– Pesquisas comprovam que o exercício diminui até mesmo a fadiga decorrente dos tratamentos de quimioterapia. Ao contrário da prescrição habitual, a fadiga não se combate com repouso, mas com uma atividade física constante. Pude comprovar melhoras significativas na qualidade de vida dos doentes. Isto ocorre até mesmo no período de sobrevida de pacientes com metástase cerebral – afirma.

Claudio Gil ressalta ainda que os exercícios não promovem milagre nem livram pacientes de casos mais graves da morte, mas são fundamentais para que a pessoa aproveite com mais disposição o seu tempo de sobrevida:

– Os cientistas estão preocupados em melhorar a disposição física dos pacientes de câncer. Nos Estados Unidos, eles chegam a oito milhões e 60% têm uma sobrevida de mais de cinco anos. Essas pessoas não devem ficar em casa. Podem conviver melhor com a doença.

Ele alerta que só a natação não é indicada, pela dificuldade de controlar a intensidade do esforço do paciente e pela baixa resistência imunológica favorecer a infecções em piscinas não tratadas.

Cuidados para malhar

INTENSIDADE: Os exercícios devem ter intensidade de moderada a intensa, de três a cinco vezes por semana, em sessões de no mínimo 30 minutos. Os aeróbicos mais indicados são as caminhadas rápidas e as pedaladas, em alguns casos até corridas, sob rigorosa supervisão médica. Há indicações de exercícios também com pesos para pernas e braços, abdominais e alongamentos.

CÂNCER DE MAMA: Especialistas dizem que os exercícios para braços em pacientes que fizeram cirurgia para a retirada de tumores da mama devem ter atenção redobrada dos médicos. Geralmente, não são indicados movimentos de braços elevados, que podem provocar edemas devido à ruptura dos vasos linfáticos, especialmente em pacientes que se submeteram à mastectomia.

CÂNCER ÓSSEO: É um dos poucos casos em que a prática de atividade física não é recomendada, devido ao alto risco de fraturas ósseas. Também não devem ser recomendados exercícios a pacientes recém-saídos de cirurgias, nem aos que estão sofrendo de fadica aguda nos dias subseqüentes às quimioterapias.

FADIGA: O exercício pode diminuir a fadiga gerada pelo tratamento do câncer.