Sol, água, coqueiros e uma
boa rede. Em todas as ilhas,
impera a “lei do mínimo esforço”.

Há mais ou menos vinte anos, o turismo nas ilhas da Polinésia Francesa era resumido a duas ilhas: Moorea e Bora Bora, porém, o mítico nome, para dizer paraíso, era Taiti. Esse erro está custando caro ao departamento de turismo das ilhas. Taiti é, na verdade, a ilha principal, onde se encontram o aeroporto, os escritórios de governo e as grandes empresas, mas não é, em termos paisagísticos, um sinônimo de paraíso. O Bureau de Turismo quer que as ilhas da Polinésia Francesa se separem do nome Taiti e tenham, cada uma, sua própria identidade, força e apelo turístico. Para conseguir isso, estão dando um forte golpe de timão em marketing. Hoje, seu excelente Manual de Vendas 2004 chama-se “Taiti e suas ilhas”. É sua primeira tentativa para, digamos assim, esclarecer que gilette não é sinônimo de barbeador.

Eles têm um bom trabalho pela frente, já que são 118 ilhas, uma mais bonita que a outra, divididas em cinco arquipélagos com características geográficas diferentes. O arquipélago das Ilhas da Sociedade tem quatorze ilhas, sendo as mais conhecidas: Taiti, Bora Bora, Moorea, Huahine e Tetiaroa (a ilha de Marlon Brando), entre outras. A maioria delas tem altas montanhas cobertas por intensa vegetação, cachoeiras e dezenas de praias. Os outros arquipélagos são Gambier, Austral e Marquesas, onde Paul Gauguin viveu os últimos anos da sua vida, com ilhas montanhosas sem anéis de coral e com pouquíssimas praias. O outro arquipélago é o das Ilhas Tuamotu. É nessas onde o Bureau de Turismo da Polinésia Francesa está jogando suas fichas hoje, ao ver que sua primeira estrela, as Ilhas da Sociedade, começa a chegar aos limites estabelecidos para o desenvolvimento turístico.

Uma visão do paraíso

O Tuamotu é um dos maiores arquipélagos polinésios. Tem 76 ilhas e atóis, em uma área com mais de vinte mil quilômetros quadrados de oceano. É mar para ninguém botar defeito e, justamente por isso, é que sua principal atração está, logicamente, embaixo d’água. Até mesmo porque acima dela e em cada uma de suas ilhas só há uma fina plataforma de coral em forma de anel oval que supera os cinco metros acima do nível do mar. O chão dos atóis não é de terra negra ou escura, e sim composto de pedras e pó de coral brancos como a neve.

Pois é nessa paupérrima camada vegetal que surge a vida e, para os turistas, a deliciosa sombra que se procura ao passear de bicicleta embaixo de um sol ardido e inclemente. Fora dos resistentes coqueiros e algumas árvores de pouca altura, uma mata baixa cresce desafiando as leis básicas da natureza. E aí pode surgir a pergunta: é esse o paraíso? E essa é uma questão que só pode ser respondida quando se está em uma praia das Tuamotu, com águas que passeiam por toda a palheta do tom azul e de uma transparência que dá até vontade de bebê-las. Uma toalha na espreguiçadeira ou na rede, um livro de James A. Mitchener, Robert Louis Stevenson ou Jack London, para ficar de acordo com o entorno, um maitai com bastante gelo e uma boa companheira de viagem complementam o quadro. Não precisa de mais nada. O relógio e, conseqüentemente o tempo no paraíso não têm a menor importância. Você acaba medindo tudo pela trajetória do sol. Ele está saindo? É hora do café da manhã. Escorrega entre os troncos dos coqueirais? Boa hora para sair a dar uma volta de bicicleta ou esperar pelo transporte que o levará a mergulhar. Ele está em cima da sua cabeça? Está pronto o almoço. O astro-rei vai descendo? Ali estão a praia, a espreguiçadeira e o livro esperando por você. O sol começou a entrar no mar? Bom momento para abraçar quem é sua companhia nesta viagem e se render ao romantismo.

Ao chegar a noite, a ceia à luz de velas, uma música cadenciada, o canto dos nativos e o som dos coqueiros que se mexem com a suave brisa vão deixá-los com vontade de mais amor, sentindo-se Adão e Eva. Não é mesmo o paraíso?

Ilhas são a meca dos mergulhadores

Imagine um lugar tranqüilo, a antítese perfeita de Disneyworld ou Ipanema. Mesmo assim, não conseguirá sequer imaginar a paz e a tranqüilidade que há nas ilhas do arquipélago das Tuamotu. Nelas há diminutos povoados, alguns com menos de quinhentos habitantes, onde tudo gira ao redor do mar e de suas riquezas. E não estamos falando só de peixes. Nos atóis e ilhas, os negócios são o turismo e as pérolas negras, nessa ordem, igual à economia da própria Polinésia Francesa. Um par de décadas atrás, só alguns iniciados chegavam até as Tuamotu para mergulhar. As condições de hospedagem eram para lá de franciscanas, precárias ao máximo mas, mesmo assim, ano após ano, o número de visitas aumentava consideravelmente.

Segundo os mergulhadores experts, a razão dessa lenta mas segura romaria a esses atóis deve-se à riqueza e à diversidade da fauna marinha, que radica nas condições especiais que se dão na plataforma do mar desses lugares. No interior das lagoas coralinas, há um mar tranqüilo, que permite o desenvolvimento das espécies, graças ao farto alimento que possuem os corais. Essas espécies proliferam, pois não há grandes predadores dentro da lagoa e raramente saem dos limites dos atóis, no máximo até as bordas externas da barreira de coral que protege cada um deles. A natureza é surpreendente. Pela quase ausência de areia no lado externo dos atóis não há partículas em suspensão que compliquem a visão. O mar transforma-se em uma massa de cristal, na qual se pode enxergar até cem metros de distância. Mergulhando no fundo da plataforma de coral, a uns 45 ou cinqüenta metros de profundidade, encontramos tartarugas, tubarões-martelo, arraias-mantas, napoleões, meros, moréias, lagostas, golfinhos e até baleias, em certas épocas do ano. Peixinhos coloridos, então, nem se fala. Com uma máscara e um snorkel, eles podem ser vistos às centenas nas praias dos hotéis, com a água nos quadris.

Os atóis nada mais são que a cratera de um vulcão que sofreu erosão por vento, chuva e ondas que bateram em suas paredes durante milhares de anos. O que um dia foi uma montanha que cuspia fogo, hoje é um fino anel de coral que, um dia, desaparecerá coberto pelas águas. As bordas dessa antiga montanha ainda estão embaixo desse mar e suas paredes descendem até profundidades abissais. Olhar essa borda num dia de mergulho é uma visão que jamais se esquece. Daí esse azul profundo que se pode ver das janelas do pequeno avião ATR da Air Tahiti, rodeando a maioria dos atóis e ilhas das Tuamotu. (JB)

Infra-estrutura diferencia pequenos paraísos

Ranguiroa, a ilha bela

Nem todas as ilhas têm estrutura turística de alto padrão. Em Ranguiroa, existem três hotéis de excelente nível e belíssimo entorno. São eles o Kia Ora Sauvage, o Hotel Kia Ora e o Ranguiroa Beach Resort. Há mais de vinte estabelecimentos, entre pequenos hotéis e pensões familiares. Embora sejam, em geral, até 50% mais econômicos que os hotéis maiores, o sonho do paraíso rodeado do glamour deve ser levado em conta quando se pensa na relação orçamento-comodidade. Aqui também funciona o que cada um espera da viagem. Geralmente, os mergulhadores preferem ficar em uma pension, que são pequenos hotéis com zero luxo, mas com o mínimo necessário para se sentir confortável. Geralmente são bangalôs muito simples mas charmosos, com boa cama e um banheiro sem água quente. Isso pode soar como simplicidade estóica e franciscana, mas numa região onde sempre faz calor a ducha será sempre morna.

Um hotel de alto padrão pode custar US$ 380 diários, em um bangalô na praia, e até US$ 700 se é um bangalô sobre o mar, para duas pessoas. Uma pension custa geralmente US$ 150 por pessoa e US$ 250 para duas pessoas. Se viaja sozinho, como a maioria dos mergulhadores europeus que chegam às Tuamotu, compensa ficar nas pensões. Mas se está acompanhado, é melhor puxar mais US$ 130 do bolso e optar por um bangalô dos hotéis cinco estrelas. A diferença pode ser grande para sua carteira, mas é brutal quando se comparam as atenções, a comodidade e o ambiente romântico dos bangalôs cinco estrelas.

Ranguiroa oferece várias possibilidades de passeios interessantes. Um deles é sobrevoar a ilha; outro, bastante especial, é a descida da passagem e o encontro com os delfins. Essa excursão é feita de lancha através da entrada que une a lagoa com o mar, o chamado pass. O grupo entra na água com equipamento de mergulho simples, pé-de-pato, máscara e snorkel, e se deixa levar pela correnteza até o oceano. Uma sensação deliciosa, sem perigo algum, que permite aquela impressionante visão do jardim de coral que termina numa abrupta quebrada, que se perde nas profundezas do mar.

Manihi, a ilha solitária

Manihi começou sua vida turística sendo a meca dos mergulhadores nos anos noventas. Hoje, continua sendo, mas o turismo de luxo chegou ao se abrir o Pearl Beach Resort, um hotel fora de série, alguns anos atrás. Para se divertir um pouco encontramos o clássico mergulho ou o passeio no barco com fundo de vidro. O povoado pode ser visitado por mera curiosidade. Além dos quatro minimercados e alguns quarteirões de casas, não há muito o que percorrer. Além do mais, a vilinha fica do outro lado da passagem Turipaoa, e é necessário contar com a boa vontade de algum nativo de barco para cruzar até lá.

Há uma pensão familiar num lugar bastante afastado e isolado do mundo, como se isso pode ainda ser possível num lugar que já é suficientemente distante de tudo. É a Chez Jeanne, a nove quilômetros do aeroporto. Conta com três bangalôs para duas ou três pessoas. O preço é US$ 140. Cada um deles tem fogão, geladeira, pratos e talheres. Na casa principal, podem-se comprar alimentos congelados, refrigerantes e cerveja (xxx698-964290). Mesmo quem fica no Pearl Beach Resort pode ir até Chez Jeanne para comprar pérolas de Guy Huerta, um atencioso e simpático francês, coisa rara no planeta dirão alguns, que tem fazenda própria e trabalha nela praticamente sozinho. Por isso, seus preços são os melhores que conseguimos achar em todas as ilhas Tuamotu que visitamos. (JB)

Farakava, a ilha selvagem

Agora, se você está realmente querendo se isolar da civilização, a dica é ficar um par de dias no atol de Fakarava. Ele foi, um dia, a capital das Tuamotu e é o segundo maior atol da Polinésia depois de Ranguiroa. Declarado reserva da biosfera pela Unesco, o atol está se transformando em mais um destino obrigatório dos mergulhadores. Arraias, delfins tursiop, barracudas, meros, tubarões cinzas do recife e napoleões são vistos com grande facilidade na passagem Garuae, a maior da Polinésia Francesa. Além do mergulho, pode-se fazer piquenique na ilha deserta ou um bom passeio de bicicleta. O resto é praia e tranqüilidade total.

Há um bom hotel na ilha, o Maitai, com bangalôs e Main House, de caprichosa arquitetura em madeira fina. Os preços vão dos US$ 300 até os US$ 430, podendo hospedar até três adultos ou dois adultos e duas crianças. A pensão completa tem um custo adicional de US$ 99 por pessoa e a meia pensão US$ 71 (xxx989-984300 info@fakaravahotelmaitai.pf site: www.hotelmaitai.com). Este é o único lugar da ilha onde há internet.

Agora, se quiser gastar pouco e se sentir em casa, opte pela pensão Tokerau Village. Esta é, sem dúvida, a melhor pensão das Tuamotu. Os bangalôs do vil-lage são só quatro e estão a poucos metros de uma praia paradisíaca que é só para você. Tem bom espaço interior, são limpos, simples e sem uma decoração carregada ou cafona, coisa rara nas pensões polinésias. Os preços são convidativos: US$ 150 por pessoa e US$ 280 por duas pessoas, com pensão completa. Crianças de 4 a 7 anos: US$ 75 (telefax: xxx698-984109). (JB)

Pérolas, o segundo pilar da economia

A riqueza da Polinésia está em seu mar, tanto na parte de cima, com o turismo nas ilhas, como na parte de baixo, onde estão os alicerces da economia dessa possessão francesa ultramarina. Nas Tuamotu há 250 fazendas marinhas onde se cria a ostra Pinctada margaritifera, única espécie capaz de desenvolver em seu interior essa preciosidade chamada pérola negra (foto). Em praticamente todas as ilhas e atóis há fazendas de pérolas cultivadas desse tipo e sempre há alguma aberta ao turismo. Lá se mostra o longo, difícil e delicado processo da produção de pérolas.

Desde o enxerto do pequeno núcleo, feito de uma concha do Mississipi, dentro da ostra viva que depois é coberto com um diminuto pedaço da gônada de ostra, até o momento de abrir alguma que passou longo período embaixo d´água, a qual, talvez, desenvolveu uma pérola. Pois é, nunca há certeza de que a ostra vai produzir uma pérola. Só 25% dos enxertos dão certo. E se isso ainda é pouco, há que pensar que nem todas as pérolas são perfeitas e caras, há também as que se ficam pequenas, ou perdem a forma arredondada, ou nascem com diminutas deficiências na sua textura ou, ainda, pouco brilho.

O negócio das pérolas é de alto risco; numa visita às fazendas marinhas dá para perceber isto perfeitamente. Por outro lado, nos últimos anos, a compra de pérolas no mercado internacional diminuiu e, numa volta pelas Tuamotu, podem ser vistas várias fazendas em completo abandono. Uma forte razão para que o governo aposte com força no desenvolvimento turístico e, de preferência, de alto padrão. Esta queda no negócio é própria dos altos e baixos da economia mundial, mas por outro lado oferece ao visitante uma oportunidade muito tentadora, que é comprar as preciosas pérolas negras a preços bem em conta. Quem sabe possa ser, além de um belíssimo presente, um bom investimento a longo prazo, já que crises não são eternas.

Um comprador expert usa sete critérios na escolha das boas pérolas. Eles analisam tamanho ou diâmetro, o brilho, a forma, o polimento (superfície fina e sem falhas), a textura ou densidade da camada exterior, o peso e a cor. (JB)

Tikehau, a ilha sofisticada

A quarta opção de visita no arquipélago das Tuamotu chama-se Tikehau, que significa “chegada em calma” no idioma nativo. Um nome que faz jus à tranqüilidade e paz que se respiram nesta ilha. Sua paisagem se acerca demais à definição da palavra bucólica. Olhando o mar azul anil, os tons que este brinda na orla ao se misturar com areia coralina, as ilhotas ou motus que há nas redondezas e essa visão em quase 360 graus da imensidão do Pacifico dão uma sensação de calmaria interior surpreendente. O melhor hotel é, de longe, o Tikehau Pearl Beach Resort, que tem representante no Brasil (11-3871-9268 e site www.pearlresort.com). É um cinco estrelas construído na ilhota ou motu de Tiano, a cinco minutos de lancha da vila principal, Tuherahera. Este é um destino perfeito para uma lua-de-mel, seja a primeira ou a décima nona da sua vida.

Os bangalôs são extremamente finos em decoração e arquitetura. É claro que as suítes over-water são ainda mais charmosas, não dá nem vontade de sair delas, o mar com águas deliciosas está ali, ao descer as escadas do seu terraço. A praia do hotel é de areia branca e águas absolutamente transparentes, mas se preferir, também há uma piscina com serviço de bar o dia inteiro. O passeio que não deve deixar de fazer é até a Ilha dos Pássaros, onde se pode estar a centímetros deles sem o menor problema. Os habitantes de Tikehau o farão sentir-se em casa acenando ou dando o bon jour correspondente, com um sorriso franco e aberto. Quem deseja corresponder essas gentilezas deve aprender duas palavras, “marurú”, que quer dizer obrigado, e “naná”, que é uma forma coloquial de dizer até logo ou tudo bem. Depois desses passeios, esqueça do mundo e pense que, se chegou ao paraíso, é porque você fez tudo por merecê-lo. (JB)

É bom saber

– Ao chegar a Papeete, o fuso horário vai querer cobrar de seu corpo o preço das sete horas. Não siga o jogo dele e entre de cara no horário taitiano. Mesmo que esteja caindo de sono às oito da noite deles, agüente e deite somente quando o pessoal do hotel for dormir.

– Descubra, seja de carro, moto ou bicicleta, as melhores panorâmicas da ilha.

– É fundamental saber que a Polinésia não é o Caribe, embora suas águas sejam cristalinas, mornas e de areia branca.

– Taiti e suas ilhas são sinônimo de descanso, belezas naturais e muita tranqüilidade. Quem procura agito, varar a noite na disco ou muita adrenalina deve procurar outros destinos.

– Para entrar na Polinésia precisa-se de visto francês, que se tira no consulado desse país em 24 horas.

– O dólar custa 110 FP (Franco Polinésio) e uma cerveja custa perto dos R$ 4. A mala deve ser a mais simples do mundo, com roupa de banho, sandálias que suportem a água do mar para caminhar e tomar banho nas praias com corais, camisetas, bermudas, chapéu, protetor solar.

– Não precisará jamais roupa de frio, uma camisa de manga comprida ou uma jaqueta leve é mais que suficiente para os mais friorentos.

– Não esqueça da máquina fotográfica e muito filme ou uma câmera de vídeo e fitas a vontade. (JB)