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Viagem e Turismo

Turismo com sotaque holandês nos Campos Gerais

  • Por Danielle De Sisti

Grupo folclórico e turistas em frente
ao moinho O Imigrante, no Memorial da Imigração Holandesa: ponto alto do
passeio em Castro.

A Holanda tem cerca de dezesseis milhões de habitantes. Parece pouco se o país não tivesse somente 41,5 mil quilômetros quadrados. Só para comparar em proporção, o Brasil, com seus 180 milhões de habitantes, tem 8,5 milhões de quilômetros quadrados, ou seja, muito mais espaço por habitante que o pequeno país europeu. Esse foi o principal motivo que levou centenas de holandeses, a partir de 1911, a se deslocarem para o Brasil. Muitos deles vieram para o Paraná, se instalando na região dos Campos Gerais, a aproximadamente 150 quilômetros de Curitiba. Talvez pela semelhança com os terrenos planos da Holanda e, principalmente, pela abundância de recursos naturais e fertilidade do solo, o local foi considerado perfeito pelos imigrantes, que tinham a agropecuária como principal atividade.

Para mostrar um pouco dessa história e também da cultura e meio de vida dos holandeses que se instalaram no Paraná é que foi lançado o Roteiro dos Imigrantes, uma rota turística que abrange, num raio de cem quilômetros, Castro, Arapoti e Carambeí, municípios onde se formaram as mais expressivas colônias holandesas do Estado: Castrolanda, Capal e Batavo, respectivamente.

A rota, que acaba de ser colocada à disposição dos turistas, foi formatada pela Cooperativa Paranaense de Turismo (Cooptur) e é fruto de uma parceria entre a Ocepar (Sindicato e Organização das Cooperativas do Estado do Paraná) e o Sescoop/PR, que desenvolveram em 2002 o projeto Circuito das Cooperativas de Colonização Européia.

Castrolanda

Fotos: Danielle de Sisti
As danças folclóricas animam os cafés coloniais servidos na rota.

Uma pequena cidade dentro de Castro. Assim parece Castrolanda, uma colônia onde moram quase três mil holandeses e descendentes. Lá, o modo de vida muito organizado já é um atrativo. A colônia é formada por belas e amplas casas, igreja, escola e um lar de idosos, tudo muito bem cuidado e, claro, cercado por vastos campos verdes e plantações.

Mas não é só isso. O centro histórico de Castro convida a um interessante passeio. Lá, o turista vai conhecer a Casa da Sinhara, um museu onde está retratada a forma de vida das matriarcas das famílias tradicionais da cidade. Logo em frente, a Igreja Matriz de Sant?Ana, construída em 1810, é objeto de um fato pitoresco. Um de seus sinos, doado por Dom Pedro II, quando visitou a cidade em 1881, rachou, anos mais tarde, com o excesso de badaladas que anunciavam o fim da Segunda Guerra Mundial. Hoje, ele não está mais na torre da igreja, mas virou um atrativo.

Fator decisivo na construção da cidade, o tropeirismo ganhou um museu no centro histórico de Castro. Exemplares do vestiário e objetos utilizados pelos tropeiros que transportavam muares entre Viamão (RS) e Sorocaba (SP) e pernoitavam às margens do Rio Iapó fazem parte do acervo.

Holandesinhas dão boas-vindas
aos turistas no Restaurante
Refúgio, de culinária típica.

Um pouco mais afastada, a Fazenda Capão Alto, que também era parada obrigatória para os tropeiros, tem um casarão construído em 1870, como as sedes das fazendas de café de São Paulo e Rio de Janeiro. E para completar o circuito histórico, o Museu Casa do Imigrante Holandês retrata, em um simpático imóvel de madeira, como era a residência dos holandeses que deram início a Castrolanda a partir de 1951.

Castro tem seis imóveis tombados pelo Patrimônio Histórico do Estado: Museu do Tropeiro, Casa da Praça (espaço cultural), dois casarões, Casa da Sinhara e a Fazenda Capão Alto. Na última sexta-feira, a Secretaria de Estado da Cultura apresentou o processo de tombamento do Centro Histórico, na Câmara Municipal de Castro.

O moinho

Ponto alto do passeio a Castro é a visita ao Memorial da Imigração Holandesa, uma homenagem aos cinqüenta anos de imigração. O destaque é o grande, mas gracioso, moinho O Imigrante, cuja construção foi acompanhada de perto por Jan Heijdra, de 75 anos, que veio da Holanda especialmente para viabilizar o projeto. É o maior moinho da América Latina: tem 37 metros de altura e uma envergadura de 26 metros de uma pá à oposta.

No memorial, os turistas são recebidos com um café colonial com os salgados e tortas típicas e a apresentação de um grupo folclórico. Para quem quiser comprar uma lembrança do local, há uma loja de souvenires. Está aberto sextas, sábados, domingos e feriados, das 14h às 18h.

A rota holandesa continua nas cidades de Arapoti e Carambeí.

Em Carambeí, a lembrança da Indonésia

A rota holandesa em Carambeí tem início com um jantar cheio de novidades. Os turistas são recebidos no Krakatoa para uma noite ao estilo indonesiano. Mas a rota não é holandesa? Sim, mas a história explica a ligação entre os dois povos. Os europeus chegaram à Indonésia, país do sudoeste asiático, no século XVI. Dentre eles, os holandeses formaram a colônia mais expressiva, dominando o país entre os anos de 1816 e 1949. E até hoje os dois países têm forte ligação, até porque há muitos holandeses e descendentes morando naquele país asiático. O Restaurante Krakatoa, de Elisabeth Baldrati, filha de holandeses, procura mostrar os pratos da culinária indonesiana. À mesa, frango com gengibre, macarrão com vários tipos de carne e molho de soja, carne ao molho curry, carne de porco, legumes com creme de amendoim e coco ralado frito. Alguns pratos são servidos com sambal, uma pimenta vermelha que parece suave mas se for usada em excesso pode arder na língua. O jantar custa R$ 30 por pessoa.

História

No dia seguinte, a surpresa fica por conta da visita à Casa da Memória da Colonização de Carambeí, um museu muito bem montado. Lá, há uma maquete cheia de detalhes que mostra as primeiras décadas da colonização holandesa nos Campos Gerais. Cerca de sessenta pessoas chegaram a partir de 1911 a Carambeí, que, à época, era distrito de Castro, e criaram uma colônia e, depois, em 1925, a Cooperativa Holandesa de Laticínios, primeiro nome da atual Batavo.

Cômodos montados com objetos doados por imigrantes e bonecos ajudam a imaginação do turista chegar mais perto da história. Os cenários mostram, por exemplo, a igreja e a escola que funcionavam no início do século XX e que foram importantes pilares para a consolidação da cidade.

Depois, o grupo de turistas segue pela Avenida dos Pioneiros, a principal e maior da cidade, onde pode visitar um imóvel ?real? da época. É uma típica casa de pioneiro, de propriedade de Dymphnus Vermeulen, mais conhecido como senhor Dimmy. Um simpático holandês de 83 anos que chegou ao Brasil com seus pais, em 1938, quando tinha 16.

A casa, ampla e com móveis originais, é rodeada por uma densa floresta de pinus. A chácara, de quatorze hectares, guarda mais um recanto: um cemitério onde estão enterrados os pais e dois filhos do senhor Dimmy.

A manhã em Carambeí termina no Clube Social, onde é oferecido um almoço e a presença dos turistas é festejada com a apresentação de um grupo folclórico.

Turismo industrial

A Rota dos Tropeiros possibilita ao turista conhecer também a produção industrial nas colônias. Em Carambeí, é feita a visita à Batavo, primeira cooperativa de produção do Brasil, fundada em 1951, e que hoje, junto com a cooperativa de Arapoti (Capal) e de Castro (Castrolanda), integra o Grupo ABC. A visita permite ao turista visualizar as várias etapas da fabricação dos iogurtes e mousses que levam a marca Batavo. É um programa que se destaca em meio a maior parte da programação, mais lúdica e cheia de cultura e história. (DS)

Em Arapoti, a gastronomia é um convite à gula

A primeira casa de imigrantes holandeses em Carambeí,
da família Vermeulen,
hoje é ponto turístico.

Assim como os imigrantes que chegaram a Arapoti, a 250 quilômetros de Curitiba, em 1960, os turistas chegam à pequena cidade de 27 mil habitantes pela estação de trem. Desativada, a estação, que começou a operar em 1915, hoje é a Casa da Cultura, um dos mais interessantes pontos turísticos da cidade. Bem conservada, retrata a história por meio de peças de suas locomotivas e de manutenção, assim como de objetos utilizados em sua administração, como um telégrafo e o carimbo que validava os bilhetes ferroviários. Sua importância justificou o tombamento pelo Patrimônio Histórico do Município.

Depois de um passeio pela história, ainda em Arapoti, o Roteiro dos Imigrantes convida os turistas a conhecer a gastronomia, passando pela fabricação artesanal de queijos. Uma das famílias que se dedicam à produção leiteira é a de Anna Cornélia e Martin Sibma, que chegou ao Brasil em 1980. A Chácara Frezena é aberta à visitação nos fins de semana, dando oportunidade aos turistas de conhecer alguns segredos da produção de queijo artesanal. ?Um quilo de queijo é feito com dez litros de leite e leva-se quatorze horas para fazer uma peça?, informa Anna Sibma. Depois da visita, o casal oferece à degustação vários tipos de queijo por eles fabricados.

Na Avenida dos Pioneiros, em Carambeí, muitas casas lembram
as típicas construções holandesas.

Ainda na colônia, a Igreja Evangélica, a mais freqüentada pelos holandeses na cidade, chama a atenção pelo estilo moderno de sua arquitetura, que tem a assinatura de um engenheiro da Holanda. Lá acontecem dois cultos aos domingos, que atraem cerca de quinhentas pessoas. O curioso é que um deles é inteiramente rezado em holandês, em respeito aos cerca de dez imigrantes idosos que não entendem o português.

Almoço típico

Chegada a hora do almoço é também o momento de conhecer a culinária típica. O local escolhido é o Restaurante Refúgio, onde os turistas são recebidos por três holandesinhas que fazem as honras da casa. No cardápio, salada de pepino agridoce, purê de maçã, arroz ao curry, vagem cozida, couve-flor ao molho branco e o hutspot, um dos pratos mais populares na Holanda.

Se o nome não faz alusão à nada que temos por aqui, o prato em si não é assim tão incomum: uma mistura de batata, repolho, cenoura, lingüiça calabresa, tudo temperado somente com sal e pimenta-do-reino. Mas antes disso, é erguido um brinde ao passeio com o boerenjongens, que parece uma sangria, feita de vinho, vodca, canela e passas. Embora o nome seja estranho, não há o que temer: o gosto é bom e não chega a embebedar, pelo menos, um copo não. De sobremesa, pudim de chocolate com nata e iogurte com frutas e um biscoito caseiro. Bem familiar para os brasileiros.

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