Depois de visitar as praias do Espelho e Coruípe, tínhamos a intenção de seguir até Caraíva (BA), um vilarejo primitivo e isolado, sem energia elétrica e acesso por travessia de canoa. Devido à dificuldade de chegar lá e ao fato de termos que voltar pelo mesmo caminho para continuar a expedição, resolvemos retornar a Porto Seguro. No dia seguinte, saímos bem cedo para a beira da estrada, com objetivo de chegar até a cidade de Ilhéus.
Enquanto esperávamos pela carona, conhecemos Adolfo, um paulista que também tinha adotado a carona como meio de transporte e estava justamente querendo ir para Ilhéus. Ficamos um tempo juntos, mas a carona estava difícil. Nos despedimos de Adolfo e fomos caminhando pelo acostamento da rodovia.
Depois de muita espera, mudamos de tática. Fomos até um posto de gasolina e qualquer um que parasse para abastecer era abordado. Luís, que dirigia uma Ranger, acabou aceitando a intimação e nos levou até Eunápolis, na BR-101.
Na saída para Eunápolis, esperando mais uma carona, conhecemos outra figura: um chileno maluco, apenas com a roupa do corpo e ilegal no País, aguardando uma “caroninha” até a Guiana Francesa. De lá, ele iria pegar um navio para a África. Ele disse que a Guiana é local de desembarque de muitos africanos clandestinos que fogem dos seus países. Por sorte, uma Saveiro carregada parou, mas podendo levar apenas um. Então, o chileno embarcou e se perdeu pelo mundo.
Um caminhão de abacaxi resolve parar no acostamento para ver alguma coisa e sem querer acaba nos dando carona. O caminhão estava sobrecarregado e, em qualquer subidinha, o motorista tinha que engatar a primeira. Na reta, raramente o velocímetro passava dos cinqüenta quilômetros por hora. A viagem que podia ser feita em três horas durou seis.
À noite, quando começou a chover, o motorista descobriu que o limpador do pára-brisas não funcionava. A solução foi amarrar uma cordinha em cada limpador. O motorista puxava a cordinha do lado dele e eu a minha. Assim fomos até a entrada de Ilhéus, quando o pneu furou.
Já não agüentávamos mais aquela situação. Aproveitamos que o pneu furou em frente a um posto policial para esperarmos outra carona com mais segurança, mesmo estando noite. Rapidamente um carro de passeio pára e nos leva até o centro de Ilhéus. Lá encontramos a Fabíola, amiga de Anastácia, que nos abrigou em sua casa.
Enfim Ilhéus
Ilhéus é a maior cidade do Sul da Bahia. Teve seu apogeu no século XX com a cultura do cacau e hoje tenta reerguer-se com o turismo. Mas as praias são um pouco sem graça, com o mar escuro e cheio de barracas. É impossível falar de Ilhéus sem lembrar de Jorge Amado. Na região, o escritor viveu e criou obras como Gabriela Cravo e Canela.
O próximo passo da expedição era seguir até Itacaré. Depois de várias caronas curtas, no meio do caminho conseguimos entrar na caçamba de uma caminhonete direto para o nosso destino. O esquema da carona é nunca ficar parado no mesmo lugar por muito tempo.
Não importa se o motorista vai até a próxima esquina. Isso evita que as pessoas ao redor fiquem observando por um longo período. Outra dica é esperar carona sempre próximo de algum ponto de ônibus. É a garantia de não ficar preso no lugar, caso a carona não apareça.
Itacaré deixou de ser um “secret point” dos surfistas há pouco tempo. Para chegar até lá era necessário seis horas de poeira e buracos a partir de Ilhéus.
Hoje a estrada está asfaltada, com ônibus passando de hora em hora. Então, virou moda passar o verão em Itacaré. Praias mais próximas como Resende e Tiririca ficam cheias de surfistas e gente bonita. As mais retiradas como Jeribucaçu, Engenhoca e outras são selvagens e com acesso por trilhas, indicadas para os surfistas mais aventureiros. Mas é de Itacaré até Barra Grande que tudo volta a ser como antigamente.
São cinqüenta quilômetros de areião, onde só os veículos mais resistentes conseguem passar. Quase ninguém vai para Barra Grande pela estrada. A rota mais comum é de barco, saindo da cidade de Camamu. Tivemos sorte de pegar carona com os únicos três veículos que passaram à tarde pela estrada. Fomos até Maraú com uma Fiorino.
Até Taipus de Dentro com um curitibano, dono do extinto bar El Mago, que fugiu do frio para abrir um negócio de transportes na região. E finalmente chegamos em Barra Grande em cima de um caminhão de lixo.
Barra Grande é a base para conhecer a Península de Maraú, com quilômetros de praias ainda desertas, mar azul e piscinas naturais. Na praia de Taipus de Fora, quando a maré está baixa, os corais represam a água formando uma piscina de um quilômetro de extensão por quinhentos metros de largura, repleta de peixes. Claro que não deixamos de alugar um equipamento de mergulho e cair na água.
Saímos de Barra Grande de barco até Camamu, num passeio pela terceira maior baía do País. De Camamu encaramos um ônibus até Valença, cidade histórica que já foi palco da invasão holandesa. Valença é na verdade o acesso oficial para Morro de São Paulo. E é para lá que a expedição seguiu, pegando o barco já quase de madrugada.
Morro de São Paulo tem lindas praias com águas claras e piscinas naturais. Durante a temporada o morro é invadido por turistas estrangeiros, principalmente argentinos e chilenos. Eles são atraídos pelas paisagens e pelos esportes radicais – lá se pratica a maior tirolesa do País. Anastácia Vaz, a outra aventureira dessa expedição, encarou.
Mas como nem tudo são flores, o que irrita em Morro de São Paulo é a falta de respeito dos nativos pelo turista brasileiro. Além de ter que escutar espanhol em todo lugar, o brasileiro é tratado como alguém que reclama, pechincha e não gasta muito dinheiro. Está certo que é um pouco verdade, mas ser expulso de uma mesa de restaurante para dar lugar a um gringo é revoltante.
E a aventura continua. Leia na próxima edição, o que a semana reservou aos aventureiros da expedição Carona Brasileira pelo litoral brasileiro.


