Todo lugar tem uma alma. E em Jericoacoara, uma pequena vila de pescadores localizada no litoral norte do Ceará e que se transformou em reduto turístico de visitantes europeus, isso traduz-se na simplicidade do brasileiro associada ao que a natureza tem de mais belo.

Dotado de paisagens espetaculares, mar e lagoas que unem o azul de suas águas ao do céu, o local faz o visitante não ter vontade de partir. É capaz de produzir o encontro entre a alma do lugar e a de quem chega para conhecê-lo – e, por que não, senti-lo.

Afinal, a vila de Jeri é sensorial e sinestésica. O que já se percebe no acesso. O trajeto de 300 quilômetros partindo da capital Fortaleza, de ônibus, dura cerca de cinco horas. Isso na parte que conta com asfalto – pelas Rodovias BR-222, CE-354 e CE-178, em bom estado, por sinal.

Na estação que adentra a Vila de Jijoca, já próximo a nosso destino, é hora de pegar a jardineira (mais conhecida como pau-de-arara). A experiência de sentir o lugar tem início aí. O sacolejo da camionete faz parte da diversão e dá indícios, no trajeto, da beleza do lugar, área que forma o Parque Nacional de Jericoacoara.

A vegetação nativa se exibe nas vias de areia que levam até a vila, adornadas pelos inúmeros cajueiros, característicos da paisagem local. O aroma que paira no ar é convidativo – cheira a uma das frutas típicas do nordeste brasileiro e torna a ida ao paraíso ainda mais prazerosa.

Dali, o vento típico de Jericoacoara começa a dar as caras. A época de agosto a setembro é das melhores para praticantes de windsurf e kitesurf, o que atrai gente do mundo inteiro. Mas vale também para quem só vai a descanso e passeio, já que visualizar o vento carregando as areias nas enormes dunas torna ainda melhor senti-lo.

Fim de tarde em Jeri é hora de assistir ao espetáculo do pôr-do-sol, que dizem ser um dos mais belos do mundo.

E é ele mesmo, o vento de Jeri, que dá as boas-vindas ao visitante. Quando chegamos à vila, que tem cerca de 2,2 mil habitantes, o cansaço da viagem se mostra compensador.

As ruas de areia dão a sensação de não sair da praia para dormir, passear ou comer. Logo é possível perceber que o local é muito bem estruturado, dotado de boas lojas, confortáveis pousadas e excelentes restaurantes.

Mas o melhor ainda está por vir: o mar de Jeri, azul claro, convida a passar horas na praia em frente à vila, de águas quentes e calmas. As marés, que sobem e descem ao longo do dia, dinamizam a paisagem, formando lagos na extensa faixa de areia durante o dia e recuando já perto do anoitecer, preparando um dos momentos mais especiais de Jericoacoara, o pôr-do-sol.

Rito

Em Jeri, existe um ritual que se repete todos os finais de tarde. É nesse momento que visitantes e moradores sobem a chamada Duna do Pôr-do-sol, logo em frente à praia, ao lado da área central do vilarejo.

A peculiaridade do visual é que, lá, o sol se põe no mar, oferecendo uma paisagem única e dando uma beleza diferente à praia. Dizem que o crepúsculo em Jericoacoara é dos mais belos do mundo.

Certamente é verdade, e assisti-lo de cima da duna torna-o ainda mais especial – apesar do vento extremamente forte, quase ensurdecedor, e das rajadas de areia que atingem o espectador durante o espetáculo. Vale cada minuto.

Depois, o pessoal continua reunido na praia para apreciar as rodas de capoeira e ver a vila se preparando para a chegada da noite, quando todos se encontram, de novo, nas ruelas de areia, ao som de uma boa música para apreciar um bom jantar, à base dos peixes típicos do local. Assim é sentir Jericoacoara. Simples, rústico. Inesquecível.

Vila facilita vida do turista

Nos restaurantes da Lagoa de Tatajuba, o cardápio vem na bandeja.

“Se encontrar” em Jericoacoara é simples, até porque o local é pequeno e tudo fica ao alcance do turista. Para ir de Fortaleza ao vilarejo, o Hotel Mosquito Blue oferece o transfer completo.

O microônibus passa no hotel em que o turista estiver na capital para apanhá-lo e leva-o até a estação onde se toma a jardineira para, posteriormente, ficar no local onde estiver hospedado na vila.

O Mosquito é o único hotel de Jeri, sendo os demais meios de hospedagem as mais de 60 pousadas (a maior parte, de proprietários italianos). Os passeios podem ser fechados na Associação dos Bugueiros, que fica na Rua Principal.

Geralmente, eles oferecem os passeios básicos das lagoas, mas, se você tiver mais tempo, informe-se sobre os trajetos mais longos, como o que vai até Barra dos Remédios (este tem percurso de cerca de 130 quilômetros). Há muito o que desbravar na região.

Para comer, não há dificuldade em Jeri. Há vários restaurantes bons, como o Espaço Aberto e a Casa das Trufas, e vale a pena experimentar um diferente a cada dia. No cardápio, peixes típicos e frescos, como biju-pirá (que lembra a textura do bacalhau), cavala, robalo e badejo, entre outros.

Lagosta também pode ser degustada a preços excelentes. E quando for à Lagoa de Tatajuba, não deixe de experimentar os restaurantes locais: o cardápio (enormes camarões, peixes e lagostas) vem na bandeja. O escolhido pelo cliente vai direto para a brasa.

Reserve pelo menos quatro dias

Permita-se relaxar em uma das muitas redes sobre as águas das lagoas.

Boa parte dos turistas que visitam Jericoacoara fica, em média, de duas a três noites na localidade – salvo os europeus que, em geral, passam bastante tempo na vila. Mas vale a pena ficar pelo menos quatro dias para aproveitar os principais passeios. Mais dias, melhor ainda, já que há muito para conhecer na região.

Os passeios mais divulgados são as Lagoas Paraíso e Azul, localizadas na comunidade do Preá, e a de Tatajuba, no município de Camocim, ambos a não mais que 30 quilômetros da vila de Jericoacoara. Além, é claro, da ida ao cartão-postal mais famoso de Jeri: a Pedra Furada.

A Lagoa Azul é um dos pontos mais visitados próximos à vila de Jericoacoara. A cor da água, um azul degradê, explica o nome do ponto turístico.

As lagoas são o que se pode chamar de o paraíso na Terra. O azul degradê e as redes estrategicamente posicionadas sobre a água convidam a longas horas sob o sol. Nelas, a água é doce e a temperatura, agradável. As pequenas ondas que se formam são em decorrência do vento, quando está forte, que vem para amenizar o escaldante sol do Nordeste.

Na ida à Lagoa de Tatajuba, em especial, a paisagem do Parque Nacional se mostra exuberante, com seus incontáveis coqueiros e belíssimas lagoas entre dunas.

O trajeto inclui passeio de barco em região de mangue para ver os cavalos marinhos – que os locais tratam carinhosamente de “jegues marinhos”, por causa da grande quantidade desses animais em toda a região – e passa pela velha cidade de Tatajuba, engolida completamente pelas dunas móveis há cerca de trinta anos.

Mas para aproveitar cada minuto a dica é ir de bugue – as agências locais oferecem o passeio no famoso pau de arara, mas isso tira a oportunidade de paradas para apreciar a paisagem, além de os horários ficarem mais rígidos e a interação com o bugueiro, excelente fonte de informações e sempre disposto a um bom papo, ficar de fora.

Trajeto à Lagoa de Tatajuba inclui passeio com os “jegues marinhos”.

Essa figura, aliás, é capaz de fornecer máximo aproveitamento do passeio. Gente como Alex Cunha, turismólogo e bugueiro que mora na vila, mas já passou anos estudando em Fortaleza e São Paulo com um só objetivo: profissionalizar o turismo local. “E tem coisa melhor que ser bugueiro? Conheço gente nova todo dia e ainda trabalho nesse paraíso”, justifica a opção de seu trabalho.

A única diferença dos bugueiros de Jericoacoara dos restantes do Nordeste é que eles não vão fazer a clássica pergunta: “Com emoção ou sem emoção?”. É que o fato de ser uma reserva de preservação permanente torna a maior parte das dunas proibidas para o trânsito dos bugues.

O que não é um problema, já que a beleza que se mantém viva no local está diretamente ligada às restrições ambientais, com uma paisagem de natureza pura e exuberante.

Pedra Furada

Trabalho da ação dos ventos, mar e tempo, a Pedra Furada é o cartão-postal de Jeri.

Na Vila de Jeri não dá para deixar de visitar a Pedra Furada, rocha localizada à beira da praia, a cerca de 40 minutos de caminhada do centro da vila, na qual o vento e a água esculpiram em milhões de anos um buraco no centro.

Em agosto, o sol se põe bem no meio da rocha, levando os espectadores a trocarem o pôr-do-sol na duna pelo da pedra. O passeio até lá deve ser feito preferencialmente com um guia e é bem fácil arrumar um na praia mesmo. São nativos que vivem disso e não estabelecem preço para o passeio: o turista é que faz o valor.

O motivo do acompanhamento é que, assim, fica mais fácil evidenciar as curiosidades das formações rochosas ao longo do passeio, além de ser mais seguro, já que as marés mudam bastante durante o dia.

A paisagem à beira-mar é maravilhosa e a caminhada se faz pelas pedras, na praia, ou pelo morro que fica atrás da vila e de onde é possível avistá-la por inteiro. Vale a pena ir por um e voltar pelo outro para não perder nada da paisagem.

Dicas para aproveitar melhor

Se a idéia é praticar kitesurf, prepare o bolso: o pacote com sete aulas não sai por menos de R$ 1.200.

Não economize no protetor solar e use chapéu. Os passeios duram o dia inteiro, sempre debaixo de sol forte. Na baixa temporada, a hospedagem fica mais barata. Por isso, se a idéia for economizar, reserve uma ou duas noites em um local e, quando estiver lá, saia pechinchando em outros. Segundo os nativos, até novembro não faltam vagas nas pousadas.

A vila oferece várias opções de compras em artesanato e roupas. Tudo muito bonito, mas também caro, já que o turismo em Jericoacoara é bastante voltado para o público estrangeiro.

Fora o artesanato, que é mais típico, vale a pena deixar para comprar o restante nas feiras de Fortaleza. Em Jeri, só não se pode deixar de lado os crochês feitos pelas artesãs locais, geralmente esposas de pescadores. São caprichados e têm preço bom.

Se a sua opção é praticar windsurf ou kitesurf, primeiro, informe-se sobre a melhor época. E depois prepare o bolso: é preciso fazer aulas e alugar o equipamento. Em alguns locais, o aluguel custa até R$ 60 a hora e as aulas (pelo menos sete) não saem por menos de R$ 1.200.

Durante os passeios, o sol escaldante exige proteção, mas paisagem de lagoas entre dunas “refresca” o turista.

A maior parte dos estabelecimentos comercia,is aceita cartões de crédito e débito, mas leve dinheiro em espécie, porque é com ele que você terá de pagar os passeios e em Jericoacoara não há caixas eletrônicos para saques de emergência.

Os turistas reclamam bastante, mas, segundo os locais, a instalação implicaria riscos à segurança. E acredite: lá, você realmente descansa desse tipo de preocupação.

Outro problema da vila é que o atendimento médico é deficitário. Há apenas um posto de saúde e os profissionais que atendem têm pouco a oferecer, além de medicamentos básicos. Farmácia tem na localidade, mas prevenir-se é a melhor alternativa. Evite viajar no período de abril a julho, quando chove.

Serviço

* Hotel Mosquito Blue: (88) 3669-2203
* Pousada Blue Jeri: (88)3669-2027
* Restaurante Espaço Aberto: (88) 3669-2063
* Restaurante Casa das Trufas: (88)3669-2341
* Associação dos Bugueiros: (88)3669-2284 / 9955-2284
* Bugueiro Alex Cunha: (88) 9907-3852