Ronaldo Rogério de Freitas Mourão

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As câmeras da sonda Cassini obtiveram algumas imagens do olho de um furacão gigantesco formado no pólo sul de Saturno.

As câmaras da sonda Cassini obtiveram imagens sem precedente do olho de um furacão gigantesco no pólo sul de Saturno. Na realidade, este registro constitui a primeira vez que uma estrutura típica dos furacões terrestres – um olho central em torno do qual existiam muros – foi observado fora da Terra. O furacão saturniano media cerca de 8 mil quilômetros de diâmetro, ou seja, 2/3 do da Terra. Foram detectados ventos que sopravam no sentido dos ponteiros de um relógio com uma velocidade de 550 km/h. As nuvens que envolviam o olho do ciclone são duas ou  cinco vezes mais altas que o de um furacão terrestre.

Em Júpiter, a famosa tempestade conhecida com o nome de Grande Mancha Vermelha não possui nem olho nem muros. No entanto, mesmo que ela pareça com um furacão, a tempestade saturniana não se comporta como um furacão. Com efeito, em vez de se deslocar, ela permanece fixa no pólo sul.

Como Saturno é um planeta gasoso, esse furacão não se formou em cima de um oceano, como as tempestades tropicais no Atlântico ou os tufões no Pacífico. Sua origem ainda não foi determinada. Como a sonda Cassini não havia jamais obtido uma imagem tão precisa do pólo sul de Saturno, não é possível, portanto, saber se ele estava anteriormente nessa região. Essa tempestade poderá estar associada ao atual aquecimento do hemisfério sul de Saturno, que se encontra no verão. A observação do pólo sul, ao longo dos próximos anos, permitirá saber se as mudanças sazonais influenciam esse fenômeno meteorológico.

Nos quatro planetas jupiterianos, ou seja, Júpiter, Saturno, Urano e Netuno, existem ciclones tão violentos e tão grandes assim como em Marte. Por exemplo, os ventos violentos que incidem sobre Saturno a uma velocidade superior a 1.800 km/h, surgem na sua atmosfera periodicamente, de 30 em 30 anos, e comportam-se como os ciclones. Eles foram observados em 1866, 1903, 1933, 1960 e 1990. Neste último ano, graças ao Telescópio Espacial Hubble.

Quando a sonda Voyager II sobrevoou Netuno, em 1989, a uma distância de 4.950 km da sua superfície, foi possível descobrir um gigantesco ciclone ou anti-ciclone (tendo em vista o sentido da sua rotação) da dimensão da Terra ao sul do equador.

Júpiter possui um grande turbilhão, denominado Grande Mancha Vermelha, da dimensão de 12.000/25.000 km, ou seja, duas vezes as dimensões da Terra, onde reinam ventos superiores a 500 km/h. Quando da passagem das sondas Voyager I e II em 1977, ela se apresentava quatro vezes maior do que a Terra. Em 2040 ela deverá estar do tamanho da Terra e desaparecerá durante um século, se tudo continuar como está previsto, salvo se um desses muitos pequenos turbilhões continuar avançando até se misturar com a Grande Mancha Vermelha. As observações em infravermelho, assim como o sentido da sua rotação, sugerem que a Grande Mancha Vermelha é uma região de alta pressão na parte superior das nuvens e muito mais alta e mais fria das regiões vizinhas. É incrível constatar como essa estrutura pode resistir por um período tão longo.

Em Marte, as tempestades de areia são freqüentes, assim como os ciclones. Em 1977, a sonda Viking I registrou pelo menos 36 tempestades de areia. Essas tempestades se formam quando Marte está próximo do Sol. Com efeito, isso ocorre no início do verão no hemisfério sul, onde essas tempestades se formam quando Marte está mais próximo do Sol. Quando o ar do equador, mais quente, entra em contato com o ar frio dos pólos, ventos fortes levantam a areia dando origem às tempestades. A velocidade dos ventos pode alcançar os 180 km/h e chegar a 360 km/h. Nessa ocasião a areia pode permanecer durante meses em suspensão na atmosfera marciana dificultando a observação da superfície.

Os ciclones em Saturno são muito mais importantes do que aqueles observados na Terra, com nuvens girando de 30 km a 60 km acima do olho, seja de 2 a 3 vezes mais alto do que sobre a Terra. As câmaras de Cassini filmaram o fenômeno durante 3 horas em 11 de outubro de 2006, quando a sonda sobrevoou o pólo sul de Saturno a uma altitude 340 mil quilômetros.

Lançada em 1997, a sonda Cassini foi a primeira missão espacial consagrada exclusivamente à exploração de Saturno. A sonda espacial entrou em órbita ao redor de Saturno em 1.º de julho de 2004, após uma viagem de sete anos, depois de percorrer a distância de 3,5 milhões de quilômetros.

Ronaldo Rogério de Freitas Mourão    é astrônomo, criador e primeiro diretor do Museu de Astronomia e Ciências Afins, escreveu mais de 80 livros, entre outros, Anuário de Astronomia e Astronáutica 2007. Consulte a homepage: http://www.ronaldomourao.com