São Paulo (AE) – Doze a dez mil anos atrás, o homem deixou de ser nômade e virou sedentário – foi quando surgiu a agricultura. Passo a passo, acumulamos conhecimento e largamos a pré-história para formar uma civilização. No corpo também as variações se acumularam. Como mostra uma pesquisa que será publicada na revista científica on-line PLoS Biology (www.plosbiology.org), neste período recente o genoma humano passou por mais de 700 mudanças em resposta à nova realidade exterior.

?A seleção natural, levantada pela primeira vez por Charles Darwin, mexe em diversos sistemas genéticos?, explica o geneticista Francisco Salzano, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), que também trabalha com a identificação de mudanças genéticas acumuladas durante a evolução.

Seleção natural é a forma encontrada pelos indivíduos para viver frente à competição, doenças e outros problemas que enfrenta. Os mais fortes não apenas sobrevivem como passam a característica vantajosa para as gerações seguintes.

Algumas dessas mudanças têm efeito direto, como a tolerância à lactose na fase adulta – em outros mamíferos, o consumo de leite pára na juventude, enquanto o homem pode beber por toda a sua vida.

Outras delas fazem parte de quadros mais complexos, como os da fertilidade e do funcionamento do cérebro. Algumas das mudanças são características de determinados povos, outras são comuns a todos. Seja como for, é um indicativo de que a evolução não pára, nem mesmo no patamar molecular.

O estudo foi conduzido por uma equipe do Departamento de Genética Humana da Universidade de Chicago (EUA), um dos grandes centros de estudo do setor atualmente. Ele se baseia em dados do HapMap, um ?mapa? que tenta mostrar as diferenças genéticas entre diferentes populações. Eles usaram dados de 209 indivíduos: 89 asiáticos, 60 europeus e 60 africanos.

Com a ajuda de modelos matemáticos, os cientistas observaram a recombinação de genes nos indivíduos. Se um deles muda com freqüência, é porque existe uma pressão externa. Por exemplo: europeus demonstram modificações em pelo menos cinco genes ligados à baixa pigmentação da pele, provavelmente uma resposta ao ambiente em que viviam. ?Quando uma variação competitiva do DNA é selecionada em favor de outras variações, ela prevalece, e rapidamente?, explica um dos autores do artigo, Sridhar Kudaravalli. Como resultado, essa variação se torna comum nos descendentes.

A maioria dos sinais que apareceram no estudo parece estar relacionada a apenas uma população. Porém, o grupo afirma existirem evidências de que há mais mudanças compartilhadas. Das 717 mapeadas nesta primeira análise (algumas conhecidas, mas outras novas), apenas 10 aparecem igualmente em africanos, asiáticos e europeus. ?Cerca de um quinto de todas as mudanças que achamos é compartilhado por pelo menos duas populações?, diz Kudaravalli. ?E, apesar de termos identificado regiões que potencialmente passam hoje por pressão, a causa e suas ramificações ainda são desconhecidas?.