O Ano Novo hindu de 1929, associado ao início da primavera no hemisfério norte, começa na próxima quinta-feira, 22 de março de 2007. O calendário hindu, usado na Índia na época védica, sofreu muitas mudanças e modificações no processo de regionalização de acordo com as diversas tradições regionais que deu origem, por um lado a sua atual subdivisão nos modernos calendários indianos regionais e, por outro lado, no calendário nacional indiano.

 A maior parte dos fundamentos destes sistemas calendários derivam do esquema originalmente enunciado no Jyotish Vedanga, uma das seis partes que compõem os Veda, elaborados entre os séculos XIV e XII a.C. que, após ter sido, padronizado no Surya Siddhanta, no século III, que foi reformulado por astrônomos como Aryabhata (476-550), Varahamihira (505-587), Bhaskara (1114-1185), e Fatehullah Shirazi (século XVI). No entanto, apesar da colaboração destes astrônomos, as diversidades de tradições regionais associadas aos cálculos dos astrônomos deram origem a variantes, assim como uma rica variedade de concepção calendárica.

No calendário hindu, o dia começa com a aurora, ou seja, no momento do nascer do sol, no horário local. O início do ano varia segundo as regiões. No sul da Índia, o Ano Novo é o primeiro dia do mês Chaitra (março); à leste e ao centro, adota-se o primeiro dia de Kartik (outubro) e finalmente para a comunidade Tamul, o Ano Novo é celebrado no mês Vaishakh (abril). Os meses hindus começam na lua nova em algumas regiões e na lua cheia em outras regiões. De toda maneira, o calendário hindu está baseado no movimento da Lua e compreende doze meses de 29 dias e meio. Os doze meses completam, portanto, um total de 354 dias, ou seja, 11 dias de menos do calendário solar. Para compensar essas diferenças, introduz-se um mês suplementar – Adhik Maas – adicionado periodicamente para sincronizar o calendário com as estações. O mês lunar é dividido em quatro semanas, sendo que cada dia leva o nome de um planeta. Como todos os outros países, a Índia tem um calendário solar para afins administrativos (político, negócios e viagens) e vários outros religiosos e tradicionais.

Calendário nacional

A instituição do calendário nacional solar teve por finalidade unificar a multiplicidade de calendários que existiam na Índia. Com efeito, a diversidade cultural da Índia é particularmente estonteante, podendo parecer mesmo excêntrica até mesmo quando se trata de contar os dias. Os hindus utilizaram diferentes sistemas de datação assim como de calendários. Até vários deles estão em uso de modo que poderão ocorrer no território indiano duas ou três celebrações de Ano Novo em cada mês.

Em 1953, Srï Jawäharläl Nehru – Líder da Independência e Primeiro Ministro da República – relacionou a existência de pelo menos 30 calendários na Índia. Com efeito, estes diferentes calendários eram utilizados para determinar a data de comemoração das diversas festas religiosas dos hindus, dos budistas e dos jainistas. Esses calendários eram sobretudo baseados em práticas astronômicas dos sacerdotes locais e/ou dos fabricantes de calendários (kalnrnayaks).

Para unificar os calendários hindus com fins administrativos, o governo indiano nomeou um comitê da reforma do calendário Constituído em 1952 (pouco depois da independência indiana), esse comitê identificou os calendários, todos variantes do calendário Surya Siddhanta, de uso sistemático em diferentes regiões do país. Dentre eles os mais difundidos são os calendários Vikrama e Shalivahana, com suas variantes regionais.

Atualmente, o calendário nacional usado na Índia é aquele definido pelo comitê e adotado oficialmente em 22 de março de 1957. A numeração dos anos faz-se a partir do primeiro dia do mês Chaitra de 1879, inicio da era Saka. Os meses do calendário indiano se contam em 30 ou 31 dias.

Dentre as variantes do calendário Surya Siddhanta, de uso sistemático em diferentes regiões do país, os mais difundidos são os calendários Vikrama e Shalivahana com suas variantes regionais. Um calendário solar totalmente diferente é usado em Tamil Nadu e em Kerala.

Calendário nacional no sul da Ásia

É uma variante do calendário Shalivahana, reformada e padronizada como base na reforma de 1957. Embora o Ano Novo nesse calendário tenha início no mês Chaitra, o ano zero é contado a partir de 78 d.C., de modo que para passar do calendário gregoriano para o indiano oficial deve-se subtrair 78; assim, o ano 2007 corresponde a 1929 do Calendário Nacional Indiano. Como nos outros calendários indianos, além de adotar ano bissexto, cada mês possui um número determinado de dias.

O calendário de Bangladesh ou Bangabda, introduzido em 1584, é ainda amplamente adotado na Índia oriental, principalmente, depois da sua reforma, em 1966, quando se aplicou o mesmo sistema usado na Reforma de 1957, desde então passou a ser adotado oficialmente como o Calendário Nacional de Bangladesh.

No Nepal, adota-se o calendário Vikram Sambat, sendo os nomes dos meses e os períodos idênticos aos que se aplicam aos vários calendários budistas no Sri Lanka, Tibete e outras regiões da Ásia.

Ronaldo Rogério de Freitas Mourão é astrônomo, criador e primeiro diretor do Museu de Astronomia e Ciências Afins, escreveu mais de 85 livros, entre outros, Anuário de Astronomia e Astronáutica 2007. Consulte http://www.ronaldomourao.com.

Festas hindus seguem as variações dos calendários praticados no país

As festividades hindus constituem uma mistura de cerimônias religiosas, de espetáculos, de orações, de purificações e de outras manifestações de caráter religioso ou tradicional. Uma das celebrações mais importantes do calendário hindu é a Holi, que foi comemorada no início do mês (3 e 4), e está associada ao equinócio da primavera. Outrora dedicada a Kama, deus do desejo sexual, Holi, como as outras festas, além de estar associada ao ciclo da vida, objetiva a purificação com a finalidade de afastar os maus espíritos e ressuscitar os poderes vitais da natureza.

Uma outra festa religiosa, Divali (ou Diwãli, forma contraida de Dipavãli ou Deepavali de origem sânscrita que significa fileira de luzes), conhecida também como a Festa das Luzes, que está associada ao Ano Novo no calendário Vikram ocorre na lua nova ou na lua cheia de outubro ou novembro. Em 2007, será em 11 de novembro. Além de constituir a festa mais popular na Índia, é a ocasião em que as pessoas estréiam as roupas novas, trocam presentes e doces assim como estouram rojões e fogos de artifício. Sua finalidade consiste em homenagear Laksmi, a deusa da saúde e da sorte, recebendo o apoio de todas as classes da sociedade. A Festa das Luzes acontece no último dia do calendário Vikram, um dos calendários empregados pelos moradores do norte da Índia, e na véspera do Ano Novo.

Em algumas regiões, durante esse festival, celebra-se o assassinato do malvado Narakasura, o que converte o Divali num evento religioso que simboliza a destruição das forças do mal.

No sul da Índia, Divali não coincide com o início do Ano Novo, pois um outro calendário é usado, o Shalivahana, onde o Ano Novo – denominado de Ugadi – é celebrado em Andhra Pradesh e no Karnataka, enquanto as festas de Vishnu e Varsha Pirappu comemoradas respectivamente em Kerala e Tamil Nadu. Todas estas três festas ocorrem habitualmente na primavera, em geral em março e abril.

Divali se situa em outubro ou novembro no calendário gregoriano, sempre numa lua nova. Em 2006, a data de Divali ocorreu no dia 21 de outubro e, em 2007, a data situa-se em 9 de novembro. Divali assume significados muito diferentes para os povos no continente indiano. No norte da Índia, Divali celebra o retorno de Rama, em Ayodhya, depois da derrota de Ravana e de sua coroação como rei; em Guzerate, o festival de luz homenageia Laksmi, a deusa da riqueza; e em Bengala, ele está associado à deusa Kali. No entanto, para outros povos e lugares da Índia, Divali representa o renascimento da vida; em conseqüência, é comum vestir roupas novas para celebrá-lo, pois a passagem anuncia aproximação do inverno e o início da estação do incenso.

Na realidade, o ano religioso é freqüentemente marcado por peregrinações aos inúmeros sítios sagrados, notadamente aos rios e às montanhas, que constituem uma das características essenciais da vida religiosa dos hindus: a preocupação com a natureza. Contam as lendas que nestes numerosos sítios, onde os deuses teriam se manifestado, teriam vivido algumas celebridades, ou figuras legendárias ou deuses. Em certos momentos privilegiados, como eclipses solares, aparecimento de cometas e meteoros, ocorrem freqüentemente reuniões religiosas muito concorridas.