Ronaldo Rogério de Freitas Mourão

Uma das visitas mais esperadas do cientista Albert Einstein no Brasil foi ao Instituto Oswaldo Cruz. Uma comitiva constituída por Getúlio das Neves, Roberto Marinho de Azevedo e Carneiro Filippe, este também do instituto, foi buscar Einstein no Hotel Glória, de onde o conduziu a Manguinhos, no Rio de Janeiro.

Recebido pelo seu diretor, professor Carlos Chagas, e pelo seu secretário, doutor Leocádio Chaves, e demais pesquisadores, dentre eles Evandro Chagas, filho do professor Carlos Chagas, que serviu de intérprete em alemão, Einstein foi apresentado ao seu pessoal técnico, com o qual trocou algumas palavras. Em seguida, subiu à sala do diretor, de onde deu inicio à sua visita ao estabelecimento pelo Museu Oswaldo Cruz, examinando com interesse o que pertenceu ao saudoso cientista brasileiro.

Do Museu Oswaldo Cruz passou Einstein ao Museu de Anatomia Patológica e daí à sala de leitura e à biblioteca, onde apreciou os volumes dos Annalen der Physik, em que se encontram os seus primeiros trabalhos sobre a relatividade restrita e sobre a relatividade generalizada. Foi, então, servida uma xícara de café ao visitante do instituto, que aceitou-a com a condição que fosse gelada. Subindo ao terraço do grande edifício, Einstein extasiou-se com os magníficos panoramas que lá se vêm, tendo, então, expressões de intenso entusiasmo. Descendo do terraço, percorreu vários laboratórios, nos quais apreciou vários preparados, como Trypanozoma cruzi e o Leptospira da febre amarela. Na secção de desenho, Einstein examinou com interesse os processos usados para o desenho de preparados por meio de uma câmara clara. Passando ao edifício em que se acham instalados os laboratórios de química aplicada, Einstein deixou registrada a impressão de sua visita ao instituto num curto improviso em um dos pequenos cilindros de cera, do ditafone que pertenceu a Oswaldo Cruz.

Depois de manifestar a sua magnífica impressão pela instalação do Instituto Oswaldo Cruz, o professor Einstein retirou-se, acompanhado pelos doutores Carlos Chagas, Getúlio das Neves e Roberto Marinho, regressando à cidade.

Ronaldo Rogério de Freitas Mourão é pesquisador titutar do Museu de Astronomia e Ciências Afins, no qual foi fundador e primeiro diretor, autor de mais de 70 livros, entre outros livros, do "Explicando a Teoria da Relatividade". Consulte a homepage: www.ronaldomourao.com

Conferência na Escola Politécnica

Pela tarde, Einstein dirigiu-se para a Escola Politécnica, onde foi recebido pelo respectivo diretor, José Agostinho dos Reis, e vários membros da congregação. Pouco depois das 16h era Einstein conduzido ao salão da congregação da escola, no segundo andar do seu edifício e ao lado da rua do teatro, salão esse que se achava repleto de homens de ciência, acadêmicos e várias senhoras. Depois de saudado pelo doutor José Agostinho dos Reis, em nome da Escola Politécnica do Rio de Janeiro, Einstein agradeceu essa saudação e deu inicio à sua conferência sobre a teoria da relatividade generalizada, que terminou sob grandes aplausos.

Ao ler os jornais da época, podemos sentir o clima que imperou durante a conferência na Escola Politécnica através dos seguintes trechos:

No salão de honra da escola, mais ou menos às dezesseis e trinta, chegou o professor Einstein, que tomou assento em frente à mesa, presidida pelo professor Agostinho dos Reis. Ao lado destes estavam o professor Morize, diretor do Observatório Nacional e o almirante Gago Coutinho, em cadeiras dispostas em semicírculo ao redor do conferencista, os professores da escola e convidados especiais. Ao longo da sala, atrás, a grande maioria dos assistentes e os alunos da escola. O professor Agostinho dos Reis fez breve discurso apresentando Einstein, que se achava aí presente para honrar a escola com uma preleção sobre suas idéias e teorias. O diretor da Escola Politécnica, falando em português, ergueu a voz à altura de ser ouvida por toda a casa. Einstein, com aquela sua fisionomia calma, dilatou os olhos vivos como os de uma criança, em uma grande interrogação, tentando decifrar pelos gestos do orador e o jogo fisionômico dos ouvintes o que estaria dizendo a veemência ardente daquela linguagem, para ele estranha. Apenas pronunciadas as últimas sílabas, Einstein levantou-se e começou a falar. Ao murmúrio esquisito que envolvia a sala, talvez a ressonância ricocheteante da voz do eminente diretor da escola que acabara de discursar, sucedeu um silêncio profundo, que a fonética metálica do mestre alemão feria pausadamente. Felizmente, graças às medidas tomadas a fim de evitar a invasão do recinto por grande número de pessoas, Einstein pôde desenvolver a sua teoria em um ambiente de silêncio e de atenção, e dessa maneira os cientistas brasileiros acompanharam a sua exposição.

Os efeitos que a teoria do conferencista produzia sobre as respectivas convicções filosóficas e científicas foram notadas nos gestos de alguns dos assistentes. Assim, por exemplo, foi visto o almirante Gago Coutinho, conhecidamente contraditor de Einstein, sobrecarregar num índice de incredulidade inabalável, aqueles sulcos voltairianos de sarcasmo, que lhe desciam dos lábios num cunho característico de sua fisionomia. Os gráficos de Einstein não o demoviam, parece, das suas idéias já adquiridas sobre a mecânica clássica.

O professor Henrique Morize, esguio, emergia do colarinho alvo e proporcional: as linhas severas de sua fisionomia, como um sistema de coordenadas imóvel, não deixavam transparecer sua opinião, senão a grande curiosidade de ver algo de novo. O Sr. Licínio Cardoso, na primeira fila, tinha o ar de quem, acompanhado a exposição feita, contrapunha mentalmente aos princípios da mecânica einsteiniana os dogmas de August Comte. Parecia também um irredutível. Um cavalheiro moreno e gordo, careca e céptico, oscilava a cabeça e dizia ao vizinho, de vez em quando. (RRFM)