Em maio, dois brilhantes cometas NEAT e LINEAR estarão visíveis simultaneamente no céu vespertino. A última vez que essa coincidência ocorreu foi em meados de outubro de 1911, quando o cometa Brooks (c/1911O1) e o cometa Beljawsky (c/1911S3), foram visíveis ao mesmo tempo no céu vespertino. O Beljawsky foi o mais brilhante dos dois, tendo alcançado a primeira magnitude com uma cauda de 15.º de comprimento e Brooks a segunda magnitude com uma cauda duas vezes maior, ou seja, 30.º de comprimento.

Agora, noventa e três anos mais tarde, dois cometas serão observados ao mesmo tempo, nos crepúsculos vespertinos dos dias 17 até 20 de maio,.

C/2002T7 (LINEAR). Cometa descoberto em 14 de outubro de 2002 pelo sistema LINEAR – Lincoln Near-Earth Asteroid Research (Pesquisas Lincoln de Asteróides Próximos à Terra), que usa um par de telescópios de 1 metro de abertura no Novo México.

No momento da descoberta este cometa foi visto como um objeto de aspecto cometário de magnitude 17,5. Imagem obtida com a câmara CCD, no Observatório de Mt. Hopkins, em 29 de outubro mostraram um objeto ligeiramente difuso.

Com base nas primeiras observações, inclusive pré-descoberta de 12 de outubro, Daniel W. E. Green calculou uma órbita parabólica preliminar, segundo a qual durante a passagem pelo periélio em 23 de abril de 2004, o cometa alcançaria uma distância de 0,61523 UA ao Sol. Mais tarde, com 212 observações, calculou-se uma nova órbita, com passagem pelo periélio prevista para 23 de abril de 2004 e uma distância ao Sol de 0,614454UA.

Segundo a curva de luz estabelecida por Seiichi Yoshida, o cometa deverá em princípios de maio de 2004 alcançar a primeira magnitude.

Como localizar:

Em 23 de abril, o cometa passa pelo ponto mais próximo do Sol a uma distância de 92 milhões de quilômetros. Nessa ocasião o cometa estará a 168 milhões de quilômetros da Terra. Para as latitudes médias do hemisfério sul, entre meados e o fim de abril vai ocorrer a primeira das duas janelas de observação, quando os dois cometas poderão ser vistos simultaneamente. Em 24 de abril, ainda na constelação de Peixes, o cometa alcançará a segunda magnitude.

Em 4 de maio, ocorrerá um eclipse total da Lua no céu vespertino. A última vez que tal coincidência ocorreu um cometa visível durante um eclipse total da Lua foi em 4 de abril de 1996, quando outro cometa brilhante de segunda magnitude, Hyakutake, foi visto durante um eclipse total da Lua. Caso análogo ocorreu em dezembro de 1927, quando outro cometa de segunda magnitude, Skjellerup-Maristany (C/1927X1), foi visível durante o eclipse total lunar.

Em 9 de maio, o cometa ainda visível pela manhã na constelação da Baleia, deverá alcançar a primeira magnitude. Em 17 de maio, o cometa alcançará a magnitude 0.3, quando poderá ser visto tanto ao amanhecer como ao anoitecer na constelação de Erídano. Em 19 de maio, o cometa passará mais próximo da Terra: 40 milhões de quilômetros. A partir de então, ambos os cometas serão vistos no céu vespertino. Em 22 de maio, próximo à estrela Sírius (Alfa do Cão Maior), o cometa alcançará a primeira magnitude.

Em 28 de maio, o cometa penetrará na constelação de Hydra, sendo visível até cerca de 21h30 na hora do fuso de Brasília. Em 7 de junho, o cometa se encontrará próximo à estrela Alfard (Alfa da Hydra), com uma magnitude 4. Em 14 de junho, o cometa estará próximo à estrela Gama do Sextante com uma magnitude 5. O cometa ainda será visível ao anoitecer.

C/2001Q4 (NEAT). Cometa descoberto em 24 de agosto de 2001 com o telescópio Schmidt de 1,2 metro do Monte Palomar, durante o programa NEAT Near Earth Asteroid Tracking (Rastreando os Asteróides Próximos a Terra), que usa telescópios de 1,2 metros de abertura no Observatório do. Palomar e no do Havaí.

Os astrônomos S.H. Pravdo, E.F. Helin e K.J. Lawrence, do Jet Propulsion Laboratory detectaram o cometa nas imagens do CCD, em 24 de agosto, mas só anunciaram a descoberta após a sua confirmação em 26 e 27 de agosto. O cometa foi descrito como uma nebulosidade redonda de magnitude 20 e de cerca de 8 segundos de arco. O primeiro anúncio sobre o cometa foi publicado na Circular de UAI n.º 7695, em 28 de agosto de 2001, quando Daniel W.E. Green, além dos detalhes da descoberta, apresentou uma órbita provisória de Brian G. Marsden, segundo a qual o cometa passará pelo periélio em 25 de agosto de 2005 a uma distância de 4UA do Sol. Em virtude do lento movimento do cometa e de sua grande distância do Sol cerca de 11UA no momento da descoberta, a órbita de Marsden apresentou-se imprecisa, como ficou evidente, quando em 5 de setembro, com base em 25 de observações de 24 a 31 de agosto, Kazuo Kinoshita publicou uma órbita que indicava o periélio em 23 de maio de 2004 e distância periélica de 0,99 UA. Essa órbita sugeria que a aparição desse cometa deveria ser potencialmente muito brilhante.

Mais tarde, uma nova órbita, com base em 134 observações, determinou a passagem pelo periélio em 15 de maio de 2003 e a distância ao periélio em 0,961876 UA. Segundo a curva da luz estabelecida por Seiichi Yoshida, o cometa deverá em maio alcançar a segunda magnitude.

Como localizar:

Entre 4 e 9 de maio, o cometa entre as constelações do Cão Maior e Monoceros (Unicórnio) deverá atingir primeira magnitude. Em 7 de maio, o cometa passa em seu ponto mais próximo da Terra: 48 milhões de quilômetros. Em 15 de maio, o cometa passará a 1º do aglomerado aberto Messier 44 (Presépio), na constelação do Câncer. Nesse momento, ele estará passando próximo ao Sol e próximo da Terra, quando vai estar a 144 milhões de quilômetros do Sol e a 65 milhões de quilômetros da Terra. Em 19 de maio, seu brilho cairá para segunda magnitude, ainda na constelação de Câncer. No início de junho, o cometa estará penetrando na constelação da Ursa Maior, como um astro de terceira magnitude e a partir de então ele passará a ser mais bem observado no hemisfério norte.

As previsões de brilho dos cometas não são precisas como as dos eclipses. Elas são às vezes decepcionantes. Todavia, mesmo que as previsões otimistas se confirmem, o ideal para observá-los é procurar um sítio longe da poluição luminosa das grandes cidades.

Diversos outros cometas de longo período, descobertos há alguns anos, estarão ainda visíveis. As teorias sobre a estrutura dos cometas sugerem que o núcleo de todo cometa pode se fragmentar a qualquer momento, de modo que vale a pena se manter vigilantes acompanhando toda a aparição dos cometas periódicos, mesmo daqueles de brilho mais fraco que, em geral, são desprezados em virtude do seu aspecto menos espetacular como, por exemplo, pela ausência de uma bela cabeleira ou cauda, bem como pelo fato de possuírem uma fraca magnitude. Um exemplo foi o que ocorreu com o cometa periódico 51P/Harrington que se fragmentou em 2001.

As informações mais completas, inclusive sua efeméride, com posição, magnitude e curva de luz ao longo do ano, dos cometas de brilho superior à décima oitava magnitude, podem ser encontradas no Anuário de Astronomia 2004 de minha autoria publicado pela Bertrand Brasil.

Ronaldo Rogério de Freitas Mourão é pesquisador-titutar do Museu de Astronomia e Ciências Afins, no qual foi fundador e primeiro diretor, autor de mais de 70 livros, entre outros livros, do “Anuário de Astronomia 2004”.