José Domingos Fontana

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O craqueamento do petróleo, um negócio multibilionário, gera em ordem crescente de densidade e de ponto de ebulição os gases liquefeitos de petróleo (C1 a C4, metano até butano), a gasolina (C5 a C10), o querosene (C10 a C16), óleo diesel (C14 a C20), óleo lubrificante (C20 a C50), óleo combustível (C20 a C70) e o resíduo betuminoso (C70; para fins de asfaltamento e impermeabilização).

O Brasil consome cerca de 40 bilhões de litros de óleo diesel / ano. Com alguma variação composicional em função dos tipos metropolitano, de estrada e marítimo, o óleo diesel é uma complexa mistura de hidrocarbonetos: 42% de lineares e ramificados (cetano e pristano como representativos), cicloparafínicos (32%) e aromáticos (25%). Diferentemente da gasolina, mais leve e na qual os componentes mais nocivos são o grupo BTEX (Benzeno, Tolueno, Etilbenzeno, Xileno), no diesel se dá a ocorrência dos ditos PAHs ou Hidrocarbonetos Poliaromáticos, dos quais o benzopireno é bem reconhecido como carcinogênico. Por serem menos hidrogenados (e a riqueza de uma matriz combustível é a quantidade relativa de hidrogênio que ela possue), os PAHs tendem a acumular na emissão veicular (gases de exaustão) em combinação com a matéria particulada ou fumaça negra. Ademais, o óleo diesel contém variadas formas orgânicas e inorgânicas de enxofre, o qual, após a combustão no motor, gera dióxido de enxofre, cuja hidratação pela chuva ou umidade do ar acaba precipitando sob a forma de chuva ácida.

A adição de etanol ou álcool etílico anidro à gasolina favorece bastante a queima das frações mais renitentes (e.g., BTEX). O etanol, infelizmente, não é miscível ao diesel (*). O papel aqui pode e deve ser cumprido pelo biodiesel, uma estrutura química simples, igualmente oxigenada, derivada dos óleos vegetais e gorduras animais quando, com auxílio de um catalizador básico (soda) se promove o deslocamento da glicerina e então se (re)liga os ácidos graxos ao etanol ou metanol. Em outras palavras se transforma os triésteres naturais (óleos e gorduras) em mistura de monoésteres de ácidos graxos (biodíseis). Quimicamente, trialcilglieróis ou triglicerídios são convertidos em monoalquil ésteres mediante uma transesterificação. Óleos mais ricos em ácidos graxos insaturados (e.g., ácido linolêico; 55% na soja e girassol) fornecem biodiesel mais fluído (menos viscoso) e algo menos estáveis; óleos ou gorduras mais saturadas (e.g., ácido palmítico, mirístico e esteárico; óleos de dendê, babaçu e gordura de porco) rendem biodíeseis mais viscosos, mais estáveis, mas também mais sujeitos à insolubilização (cristalização) quando a temperatura ambiente cai nas faixas típicas de inverno.

Os efeitos mais imediatos da mistura de biodiesel ao óleo diesel é a significativa redução de inconvenientes ambientais tais como hidrocarbonetos não queimados (HC), monóxido de carbono (CO) e matéria particulada (MP). A ASA – American Soybean Association -, maior patrocinadora do uso de biodiesel nos USA, informa que a adição de apenas 2% de biodiesel ao diesel acarreta um acréscimo de 100% na lubricidade do segundo. Lubricidade é proporcional à duração do ciclo de vida de um motor a diesel (onde a pressão provoca a ignição comparativamente a um motor do ciclo Otto ou gasolina onde há a faísca da vela para o mesmo fim). Há esforço internacional para a redução do conteúdo de enxofre do óleo diesel para um patamar de apenas 15 ppm (partes por milhão) mas esta redução também implica em perda (parcial) da lubricidade.

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Há uma série de outras vantagens para a utilização de biodiesel seja na forma de blendas ao óleo diesel (Bx desde B2, B20, B50) até na forma pura (B100), além da maior que é a qualidade do ar e saúde ambiental, principalmente nos grandes centros urbanos. Um motor a diesel não requer qualquer modificação, seja do motor propriamente dito, seja do sistema de injeção, para receber biodiesel. Há um grande biodiversidade botânica para prover as oleaginosas para a produção do biodiesel (soja, girassol, amendoim, algodão; dendê ou palpa e babaçu; mamona). No Brasil, com uma produção de 14 bilhões de litros de etanol / ano-colheita, este álcool é o ideal para a reação de transesterificação embora o metanol ou álcool metílico, derivado do petróleo, também se preste à mesma finalidade. O biodiesel tem menor ponto de fulgor que o óleo diesel e está sujeito a menor risco de auto-ignição e explosão e no caso de um vazamento e, diferentemente do petróleo e seus derivados, é rápidamente biodegradado. O biodiesel (etílico) é totalmente inerte ao homem pois suas partes químicas, se hidrolisadas pelas enzimas esterases, geram ácidos graxos e etanol, dois excelentes combustíveis metabólicos dos quais o corpo lança mão quando da falta de glucose (você se lembra de ter visto um bêbado reclamando de frio?). Diferentemente da indústria petroquímica (alto capital, sofisticados equipamentos e macrocorporações), a produção de biodiesel pode ser um negócio até para o pequeno agricultor (**) quando parte do produto pode alimentar seu pequeno trator ou caminhão de transporte. A produção de biodiesel gera um segundo co-produto, a glicerina. Embora na forma bruta esta somente encontre mercados de menor valor agregado (e.g., sabões), uma vez destilada ou bidestilada ou seja alcançando grau de pureza: 87%, a glicerina tem lugar privilegiado em numerosas aplicações da indústria médico-farmacêutica, química e alimentícia. Nestas condições o valor de mercado pode ser duas vezes mais valioso do que o próprio biodiesel. Neste particular, num processo de inclusão social calcado no biodiesel, pequenos agricultores deveriam se associar, recolher e endereçar o sub-produto para refinamento em outra instância.

A legislação brasileira (Lei 11.097 de 13 de janeiro de 2005), deixa por ora a adoção do biodiesel ao óleo diesel de forma voluntária mas a transforma, como B2 (2% de biodiesel ao óleo diesel), obrigatória a partir de 2008. Serão portanto necessários (40.000 x 2 : 100) 800 milhões de litros para aquela época. Por ora, já estão instaladas ou em instalação no País, sob a égide da Abiodiesel -Associação Brasileira das Indústrias de Biodiesel, os seguintes empreendimentos: Adequim, AgroDiesel, Agropalma (Belém-PA), Biolix, Brasil EcoDiesel, Ceralit, Ecomat (Cuiabá-MT), Fuserman Biodiesel, PetroCap e SoyMinas (Cássia-MG).

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Negócio já consolidado em países mais desenvolvidos, a produção européia de biodiesel em 2004 foi de mais de 1,9 milhões de toneladas (Alemanha, França e Itália como líderes com 1.035, 348 e 320 mil ton, respectivamente). Nos EUA, no mesmo período foram produzidas 358 mil toneladas.

(*) inovadora é a mistura ternária MAD8 (óleo diesel 89,4% : etanol 8% : biodiesel 2,6%) sendo ensaiada pela parceria URBS / TECPAR em frota cativa de transporte metropolitano em Curitiba desde 2002.

(**) uma fabricante de pequenas biodieselizadoras na Argentina (Biofuels S/A) tem vendido seus equipamentos de 400 a 800 litros / batelada para mais de 12 países da Europa, Ásia e América.

José Domingos Fontana (jfontana@ufpr.br) é professor emérito da UFPR junto ao Departamento de Farmácia, Pesquisador 1A do CNPq e 11.º Prêmio Paranaense em C&T