Ronaldo Rogério de Freitas Mourão
O ano novo chinês – a segunda Lua nova depois do solstício do inverno, no hemisfério norte – começa hoje (29 de janeiro). O calendário chinês não se conta como o calendário gregoriano – a partir do algarismo um até o infinito-, mas em ciclos; que se repetem a cada 60 anos.
O calendário chinês é um calendário lunar; deste modo a data do ano novo é uma comemoração móvel que varia de um ano para o outro. Ele ocorre na primeira Lua nova que se segue ao último signo zodiacal do inverno (Capricórnio), caindo, portanto, entre os dias 20 de janeiro e 18 de fevereiro durante o signo do Aquário.
A cada ano se atribui um nome que lhe é próprio. Na realidade, o nome de cada ano de um ciclo é composto de dois elementos: o tronco celeste e o ramo terrestre. Cada ano está associado a doze ramos terrestres, na seguinte ordem cíclica: Rato, Boi, Tigre, Coelho, Dragão, Serpente, Cavalo, Carneiro, Macaco, Galo, Cão e Porco ou Javali. Esses animais – considerados como aqueles que visitaram Buda antes do seu desaparecimento – são igualmente associados a cinco elementos cosmológicos: Metal, Água, Madeira, Fogo e Terra. A combinação desses signos e elementos forma um ciclo de 60 anos, denominado de ciclo sexagesimal.
O ano atual – o vigésimo segundo de uma seqüência de troncos celestes e ramos terrestres de 60 anos – é um ano macho ou Yang de elemento terrestre Fogo e do animal Cão.
Como o signo do Fogo equivale à cor vermelha na teoria dos cinco elementos, o ano que ora se inicia é considerado o ano do Cão de Fogo Vermelho. Para comemorá-lo, o Canadá e a França lançaram um selo representativo do Cão Rubro.
Depois da Proclamação da República, em 1912, a China aderiu ao calendário gregoriano. No entanto, só com a criação da República Popular da China, em primeiro de outubro de 1949, pelo presidente Mao Zedong (Mao Tsetong), a China adotou oficialmente o calendário gregoriano para a administração. Apesar dessa mudança, os chineses conservaram suas festividades tradicionais fixadas segundo as datas do seu calendário lunar. Com o objetivo de manter as suas tradições, o ano novo chinês continua sendo celebrado em vários países da Ásia, dentre eles: China, Vietnã, Japão e em todos os outros países onde existe uma comunidade chinesa.
Calendário chinês
O calendário chinês compreende 12 meses lunares de 29 ou 30 dias. Os meses são designados numericamente. O primeiro dia do mês é aquele em que ocorre a conjunção do Sol com a Lua (Lua nova). Os anos comuns compreendem 354 ou 355 dias. Distribuem-se os sete meses suplementares em intervalos de 19 anos, de modo que o início do ano esteja situado nas proximidades da primavera. O início do ano pode ainda variar de 20 de janeiro a 20 de fevereiro.
No ano 2650 a.C., Ta-nao, ministro do imperador Huang-ti, reformou o calendário, determinando que os anos fossem contados por períodos sexagenários. Tais períodos se baseavam num princípio cosmológico muito curioso, todavia fundamental na filosofia chinesa, segundo o qual o tempo não tem começo nem fim. De acordo com este princípio, cada um dos cinco elementos da natureza – Água, Fogo, Madeira, Metal e Terra – rege um período de dois anos consecutivos, numa imagem associada aos 12 meses do ano, renovando-se depois da ação sucessiva dos cinco elementos, num período igual a cinco vezes 12 anos, ou seja, 60 revoluções solares. Para concretizar os ciclos sexagenários, os astrônomos chineses imaginaram períodos ou ciclos de 60 anos que se sucedem sem levar número ordinal algum, nos quais cada um é designado por uma combinação binária de dez caracteres que se representam seis vezes, com outros 12 caracteres que só se reproduzem cinco vezes. Os dez primeiros troncos celestes, denominados Tiangan (diangan): Jia (kia), Yi, Bing (ping), Ding (ting), Wu (wou), Ji (tsi), Geng (keng), Xin (hin), Ren (jen) e Gui (kouei) e os outros 12 ramos terrestres, denominados Tchi (dizhi) ou Zi (tseu), Chou (tch’eon), Yin, Mao, Chen (tch’en), Si (sseu), Wu (wou), Wei, Shen (chen), You (yeon), Xu (hiu) e Hai.
A combinação destas duas séries dá origem ao ciclo de 60, do seguinte modo: Jia-Zi (kia-tse); Jia-Chou (kia-tchéu). Três séculos mais tarde, o imperador Yao julgou necessário fazer coincidir o ano lunar com o solar, introduzindo um sistema de intercalação que permitiu evidenciar melhor o deslocamento progressivo das estações do ano. Apesar de esses nomes não terem uma tradução, a partir do século VI de nossa era cristã, associou-se cada um dos ramos terrestres, respectivamente, a um animal: Rato, Boi, Tigre, Coelho, Dragão, Serpente, Cavalo, Cabra, Macaco, Galo, Cão e Porco.
Como a maior parte dos povos orientais, os chineses usaram o movimento da Lua como processo de divisão do ano. De início, eles julgaram que 12 lunações equivaliam a uma revolução inteira do Sol pelo Zodíaco. Todavia, o constante adiantamento da Lua sobre o Sol logo chamou a atenção dos astrônomos chineses, que procuraram estabelecer o equilíbrio. Primeiro, empregaram-se 13 luas em vez de 12, a cada quatro anos, e depois fixaram-se os meses lunares ora em 29 ora em 30 dias, de acordo com a necessidade de coincidir as luas com as estações. O movimento do Sol desempenha um papel muito importante no calendário chinês, cujas etapas são indicadas, em períodos de 15 dias, por divisões que correspondem à passagem do Sol diante do primeiro e do décimo quinto grau de cada signo do Zodíaco. Tais períodos bimensais estão relacionados às estações e, por este motivo, os astrônomos chineses os designaram com nomes associados às condições climáticas para as latitudes de Pequim. No entanto, como a fixação desses períodos depende unicamente do movimento solar, é fácil compreender que não vão cair nos mesmos dias das luas, o que exigiria a observação direta no Observatório Imperial de Pequim. Assim, no calendário chinês existem 24 tchietchi (etapas de estações), que correspondem aos 24 pontos do Sol sobre a eclíptica. Os tchietchi podem-se dividir em duas partes: Jie (tchei) e Qi (tchi). Os Jie e os Qi se alternam.
Na tabela “Festas solares do calendário chinês” (Tempo Universal), em negrito, são as estações principais Jei, assim como os Qi que se referem às características das estações correspondentes. Suas datas são móveis. Um mês pode comportar de um a três tchietchi. O mês suplementar, cuja ordem numérica retorna àquela do mês precedente, figura sempre sem tchi, mas o primeiro, o décimo primeiro e o décimo segundo não são jamais redobrados. O ano bissexto comporta treze meses, de 383 ou 384 dias. Aplica-se assim aos dias, como aos anos, um ciclo de 60, combinado com um ciclo decimal e um ciclo duodecimal. Obtém-se, dividindo por 60 o número do dia juliano menos 10, o número do dia de “ciclo de 60”. Este é o ciclo que permitiu à China contar os dias sem erros há mais de dois milênios.
As datas precisas assim fornecidas são usadas para o estudo dos fenômenos astronômicos, meteorológicos, geológicos, etc. descritos nos arquivos históricos chineses. Para contar os anos, utilizam-se tradicionalmente os dos reinados, cujo controle se faz pelo emprego do ciclo de 60.
Ronaldo Rogério de Freitas Mourão é astrônomo, criador e primeiro diretor do Museu de Astronomia e Ciências Afins, escreveu mais de 75 livros, entre outros, Anuário de Astronomia e Astronáutica 2006. Consulte a homepage: http://www.ronaldomourao.com