O número de produtores também cresceu.
Há oito anos, eram 450. Hoje são 3,9 mil.

A prática de produção de alimentos sem o uso de insumos de origem sintética – agrotóxicos -, respeitando os ciclos da natureza. Essa é a definição da agricultura orgânica, que aos poucos vem ganhando espaço entre os agricultores paranaenses. Apesar de representar apenas 1% do total das 370 mil propriedades no Estado, a produção de alimentos orgânicos vem crescendo a cada ano.

A evolução é visível nas estatísticas. Dados da Secretaria de Estado da Agricultura e Abastecimento (Seab) apontam que na safra de 96/97 a produção de orgânicos foi de 4.365 toneladas. Em 03/04 saltou para 52.270 toneladas. A expectativa para a safra deste ano é um aumento entre 20% e 30%. O número de produtores também cresceu. Há oito anos eram 450, e hoje, 3,9 mil.

De acordo com o engenheiro agrônomo e coordenador estadual da agricultura orgânica da Empresa Paranaense de Assistência Técnica e Extensão Rural (Emater), Iniberto Hamerschmidt, apesar dos números serem pequenos em relação ao total de propriedades, a evolução é importante. “É expressiva porque demonstra o crescente interesse pelo movimento agroecológico, mas infelizmente ainda não conseguimos abastecer o mercado, podendo chegar a todas as classes sociais”, avaliou. Atualmente, a Emater conta com 91 técnicos que trabalham a agricultura orgânica em diversas regiões do Estado. Esse número, diz Hamerschmidt, ainda não é o suficiente para suprir a demanda. Por isso, apostam em uma série de parcerias com associações de produtores, organizações não governamentais e prefeituras.

Produtos x entraves

Do total de 52 toneladas produzidas na safra passada, a soja representou 22%. Em segundo lugar aparece a cana-de-açúcar, seguida das frutas, hortaliças, feijão e milho. Segundo o engenheiro da Emater, a produção é generalizada em praticamente todo o Estado, mas algumas regiões concentram culturas específicas. É o caso da soja orgânica, presente em Francisco Beltrão, as hortaliças nas regiões de Curitiba, Londrina, Cascavel e Foz do Iguaçu, e as frutas no litoral. Uma novidade tem sido o cultivo do fumo orgânico, em Palmeira e Francisco Beltrão. Já na região de Guaraqueçaba, onde os agricultores tinham problemas com a produção por estarem em uma área de preservação, o cultivo do arroz irrigado surgiu como uma excelente alternativa.

Mas apesar dos resultados certos, a grande dificuldade tem sido conscientizar o produtor, que não obtém lucro imediato com a produção. Iniberto Hamerschmidt explica que quem optar em passar da agricultura convencional para a orgânica precisa cumprir diversas etapas antes de ter o produto classificado como orgânico. O primeiro passo, diz, é procurar um técnico para avaliar as condições da propriedade – que também irá orientar sobre as normas para iniciar o processo de conversão, que passam pela recuperação da área até a introdução de algumas culturas. Dependendo das situação do solo, o período de conversão pode durar de 18 meses a três anos.

Só depois de cumprir todas as etapas pode-se obter a certificação de produto orgânico. Hoje no Brasil existem 22 certificadoras, incluindo empresas particulares, estatais e ongs. O custo para se obter essa classificação é variável, dependendo de como o agricultor solicitar – de forma individual ou em grupo -, e vai de R$ 12 até R$ 2,5 mil. Além disso, no início a produtividade é reduzida, mas depois pode ser igual ou superior à conquistada na agricultura convencional. “Por isso é preciso fazer um trabalho educativo com o produtor, que antes de pensar no lucro, tem que ter consciência que está produzindo um alimento saudável e preservando o meio ambiente”, falou o engenheiro.

Interesse pela qualidade

Quando foi fundada em 2000, a Associação dos Consumidores de Produtos Orgânicos do Paraná (Acopa) contava com quinze associados. Hoje são cerca de 400. A entidade é composta por pessoas interessadas em alimentação saudável e responsável. Além de incentivar o consumo de produtos orgânicos, a Acopa promove a aproximação do produtor com o consumidor. Isso acontece através de visitas às propriedades rurais.

O pesquisador do Instituto Agronômico do Paraná (Iapar) e presidente da Acopa, Moacir Roberto Darolt, comenta que essas ações fizeram muitos produtores mudarem sua visão, diversificando a atividade. “Alguns evoluíram e construíram pousadas, promovem caminhadas ecológicas e outras atividades ligadas à natureza”, disse. E essa integração total é um dos principais objetivos que se busca alcançar com a agroecologia.

Através da Acopa, Darolt também realizou um sondagem para identificar o perfil dos consumidores de orgânicos. Segundo o pesquisador, a maioria é mulheres, tem entre 30 a 50 anos, e 60% têm nível superior. Esses consumidores, normalmente, não são fumantes, fazem esporte, gostam de atividades ligadas à natureza, e ao contrário do que se pensa, a minoria é vegetariano. (RO)

Serviço – Quem quiser mais informações sobre a Acopa pode acessar o site www.consumidororganico.hpg.com.br ou escrever para o endereço acopa2000@ig.com.br .

Projeto demonstra os resultados

Um projeto desenvolvido no antigo Parque Castelo Branco, em Pinhais, na Região Metropolitana de Curitiba, vem servindo para a demonstração de resultados da agricultura orgânica. Mas o Centro de Agroecologia vai além, pois serve também para validação de pesquisas, difusão do ensino e inclusão social. Nos moldes em que ele foi idealizado, é único no gênero no País.

Oficializado em junho deste ano, o centro foi criado por um grupo multiinstitucional com a idéia de revitalizar a região do Cangüiri e da represa do Iraí, responsável pelo abastecimento da região de Curitiba. Hoje o local conta com uma fazenda orgânica que é utilizada para a demonstração prática de diversas culturas. Segundo o engenheiro agrônomo da fazenda, Filipe Braga Farhat, o objetivo é quebrar mitos, “que os alimentos orgânicos são mais feios e mais caros”.

Em termos de aparência, diz, podem ser tão bonitos quanto os da agricultura convencional, e a produção chega a ser até 30% mais barata. O problema do custo para o consumidor são os intermediários que levam até os supermercados. “Se adquiridos direto na fonte, ou seja, na propriedade, com certeza serão mais em conta”, avaliou.

Ainda na linha de mudanças de posturas, as experiências aplicadas na fazenda orgânica demonstram resultados interessantes. Um deles é o consórcio de culturas, onde são cultivadas duas espécies diferentes na mesma área, sem que haja competição.

O técnico agrícola Décio Vidal Pacheco demonstra que é possível plantar, por exemplo, brócolis com alface, ou rabanete com alface. Essas cultivares tem ciclos de desenvolvimento diferentes, o que não interfere na produção individual. Como as culturas não recebem nenhum tipo de agrotóxico para combater mato, a praga acaba atraindo insetos e pássaros.

Região

Mas o objetivo do Centro de Agroecologia vai além dos limites do antigo parque. O projeto vem trabalhando todo o entorno, e envolvendo instituições vizinhas. É o caso da implantação de um trabalho de hortiterapia com os pacientes do Hospital Psiquiátrico Adauto Botelho. Já os detentos da Colônia Penal Agrícola estão tendo formação em agroecologia. Segundo o engenheiro agrônomo Júlio Carlos Bittencourt Veiga Silva, também fazem parte das ações do centro a revegetação das margens do rio, implantação de agroflorestas e a conscientização das famílias que moram na região da área de preservação ambiental (APA). “A agricultura orgânica é uma forma de eles continuarem produzindo mesmo estando dentro de uma APA”, falou. (RO)