| Fotos: Ciciro Back |
| Betiol: cada vez mais empresas levam em conta usabilidade na elaboração de suas linhas. continua após a publicidade |
A cena é comum. Quem nunca viu uma pessoa tendo dificuldades para operar um aparelho, seja ele um telefone celular, microondas ou caixa eletrônico de banco? Ou se deparou com alguém quebrando a cabeça com um complicado manual de instruções? Por vezes difícil, a interação do consumidor com os objetos motivou a realização, em diversas cidades do mundo, na última quinta-feira, do terceiro Dia Mundial da Usabilidade.
Segundo a professora da pós-graduação da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR) e membro da Associação de Profissionais da Usabilidade (UPA, da sigla em inglês), Adriana Holtz Betiol, o conceito perpassa toda e qualquer interação de humanos com objetos. ?Falamos de usabilidade desde a facilidade para abrir um sachê de maionese até o painel de controle de um Boeing. Naquele emaranhado de controles, existe uma interface que teve que ser pensada. Inclui lógica, raciocínio e tomada de decisão?, explicou. De acordo com ela, esse pensar não é necessariamente novo, mas a idéia de se promover um dia mundial para reforçar o tema começou apenas em 2005. ?A UPA foi fundada nos Estados Unidos e passou a ter representantes no Brasil apenas no ano passado?, lembrou.
Para Betiol, a usabilidade passou a ter status de novidade porque está cada vez mais presente no planejamento de produtos. ?Hoje cada vez mais empresas levam em conta os quesitos da usabilidade na elaboração ou remodelação se sua linha?, disse.
A realização do Dia Mundial da Usabilidade pelo terceiro ano consecutivo em Curitiba leva a professora a apontar uma tendência da capital paranaense. ?Há uma afinidade muito grande da cidade com a usabilidade. Dá pra perceber isso pela atenção que nosso evento atrai.?
Pesquisa intuitiva
| Consumidores tinham de aumentar potência de forno. |
No estande montado no Shopping Mueller, estudantes do curso de Desenho Industrial da PUCPR também fizeram uma pesquisa para entender quais as principais dificuldades que os consumidores enfrentam no uso diário de diversos produtos, como telefones celulares, fornos de microondas e móveis ergonômicos.
Como exemplo dos problemas da interface de um produto aparentemente simples, como um microondas, a professora cita um teste simples que foi feito com os visitantes. ?Pedimos a vários deles pra mudar a potência do forno. Mas muitos sequer sabiam dessa possibilidade. Usabilidade também passa por estimular as pessoas para que façam uso pleno das funcionalidades presentes nos aparelhos?, afirmou.
Mesmo com a subutilização de algumas funções e a aparente dificuldade de algumas pessoas na operação, Adriana destaca que nada disso é culpa do consumidor. ?Quem compra o aparelho não quer complicação e sim algo que seja fácil de usar?, afirmou.
Segundo o estudante Thierri Decker, do 6.º período de Desenho Industrial da PUCPR, há uma lógica nessa interação que deve ser obedecida. ?É o objeto que conversa com o consumidor e não o contrário. Por isso, hoje há um esforço muito grande das empresas para fazer interfaces cada vez mais intuitivas?, explicou. A maioria dos visitantes atendidos por ele não sabia que havia esse tipo de estudo. Para ele, uma interface difícil pode levar à troca da marca a ser escolhida. ?Quanto mais pessoas souberem do conceito, mais elas vão poder exigir dos produtos que adquirem. Será mais um parâmetro a ser levado em consideração, além de preço e design.?
| Thierri Decker. |
A participação dos estudantes no evento é, segundo Adriana, um dos principais benefícios obtidos com o Dia Mundial da Usabilidade. ?Nunca podemos esquecer que eles vão ser os designers de amanhã, planejando o que vamos utilizar daqui pra frente. Com esse conceito consolidado, podemos obter mais e mais benefícios?. Mesmo com um possível avanço, ela descarta um produto com usabilidade 100%. ?A sociedade é muito diversa. Temos que levar a usabilidade para um determinado tipo de usuário, para uma determinada tarefa e situação em que ele está inserido?, concluiu.
Funcionalidade sem uso é dinheiro perdido
Outro efeito colateral da má-usabilidade é o desperdício de dinheiro. De acordo com a professora Adriana, os fabricantes investem muito dinheiro para dotar seus produtos com novas facilidades e ?perdido? por não ser utilizado de maneira apropriada.
Para ela, há alguns produtos que evidenciam melhor esse ?desperdício?. ?Imagine um telefone celular com agenda, calendário, mp3, rádio, etc. E muitas pessoas pagam por essas inovações e nem ao menos as usam. Fazendo uma comparação, é a mesma coisa que não saber reduzir a potência do forno de microondas ou só o usar para esquentar comida e fazer pipoca. Isto é, se tiver a tecla pipoca?, explicou.
O problema com os celulares já foi enfrentado pela veterinária Alexandra Schell Bastos, que visitava o evento. Mas ela se defende. ?Quem não enfrentou essa situação? Depois que compro os aparelhos é que geralmente descubro se eles são fáceis de mexer ou não?, afirmou.
| Alexandra Schell Bastos. |
Outro problema enfrentado pela médica foi a subutilização dos aparelhos. ?Sempre que vou vender algum deles descubro que tinha uma função que precisava, mas nunca usei. Aconteceu da última vez quando passei um celular pra minha mãe?, explicou. Com as explicações de usabilidade, ela prometeu ficar mais atenta para esses quesitos. ?Nunca tinha pensando nisso, mas agora vou passar a pensar?.
Outros casos
De acordo com Adriana, outro caso evidente de desperdício de dinheiro do consumidor acontece em móveis de escritório. Como o mote principal desse ano do dia mundial era o cuidado da saúde, o tema não passou batido em Curitiba. ?Hoje há extensos estudos de saúde ocupacional no projeto das cadeiras e escrivaninhas. Mas muitas pessoas sequer sabem utilizar as regulagens de forma adequada para obter um maior conforto.? (FK)