Problemas para dormir, pavor de se sentir sozinha, dificuldade em interagir com outras pessoas, falta de ânimo para sair de casa. A vendedora Eviane Marley Brasil de Oliveira, 53 anos, nunca pensou que pudesse passar por isso alguma vez na sua vida, pois sempre se considerou uma pessoa bastante ativa, expansiva e de bem com a vida de maneira geral. Mas bastou um período mais conturbado no ambiente profissional para desencadear uma crise, fazendo com que ela passasse por uma fase em que não se reconhecia mais, sofrendo com todos esses sintomas.

Durante seis meses, a vendedora ficou sofrendo desta forma, mas não queria admitir a verdade que estava à sua frente. Ela estava com depressão. “Tudo começou quando passei por um período de problemas profissionais. De madrugada, eu acordava e não conseguia dormir mais. Não tinha mais vontade de fazer nada, nem de sair, nem de conversar. Não tinha mais ânimo de viver. Mas, sempre achava que tudo isso ia passar, que eu ia melhorar. Só que, cada vez mais, eu ia me retraindo, me fechando e isso estava me fazendo mal. Não estava mais me reconhecendo, mas também não queria dar o braço a torcer, procurar ajuda e assumir que podia ser depressão”, relembra.

Depois de muita insistência da filha e de sua médica ginecologista, Eviane aceitou procurar ajuda e admitir que a tristeza e o desânimo estavam passando do limite aceitável e poderiam ser sinais de que ela estava com essa doença psiquiátrica tão temida na sociedade. O diagnóstico a assustou um pouco, mas também foi a comprovação de algo que ela já sabia. Desde que começou o tratamento, há cinco meses, a vendedora tem melhorado cada vez mais e já se sente mais próxima do que era antes. “Já posso dizer que voltei à vida. Tinha perdido até a percepção de valorizar pequenas coisas boas da vida. Ainda não estou 100%, mas posso dizer que pelo menos a uns 80% já cheguei”, comemora.

Mulheres sofrem mais

De acordo com o médico psiquiatra Hamilton Grabowski, assim como acontece em outras doenças psiquiátricas, é o sexo feminino quem sofre mais com a depressão. “Podemos dizer que a incidência entre os pacientes de depressão é de duas mulheres para cada homem. Isso porque o sexo feminino sofre mais com a interferência hormonal, que provoca mudanças de humor, especialmente em alguns períodos da vida, como na TPM, na gravidez e na menopausa. Mas, por outro lado, as mulheres também procuram mais o tratamento quando percebem que podem estar sofrendo com a depressão, pois têm uma conscientização maior e menos preconceito”, explica.

Ele ainda comenta que os principais sintomas da doença são exatamente aqueles que Eviane sentia quando estava em crise devido a problemas no ambiente profissional. “A depressão tem um número grande de sintomas, mas os principais são a tendência à tristeza (a pessoa fica emotiva, tem muita vontade de chorar), o desânimo (falta de energia para fazer as coisas) e a perda do prazer (o indivíduo não sente alegria mesmo em situações normalmente prazerosas). E também pode ser acompanhada por inquietação, dores pelo corpo sem explicação e alterações de sono e apetite”, lista. Para dizer com certeza que o caso é de depressão, a pessoa precisa apresentar esses sintomas por pelo menos dois meses, ininterruptamente, com aumento da intensidade deles aos poucos.

Centro oferece tratamento gratuito

Geralmente, o tratamento para depressão é feito com medicação via oral, podendo ser associado a psicoterapia em alguns casos, como explica Grabowski. “Quando ela vem ‘do nada’, o resultado é conseguido apenas com o medicamento, mas quando ela é derivada de fatores estressores de vida, é indicado que o paciente faça psicoterapia associada”, esclarece. Além dos fatores estressores, o médico afirma que pode existir uma predisp,osição genética para o desenvolvimento da doença, entre outros fatores desencadeantes. Tudo isso faz com que os neurotransmissores passem por modificações, o que provoca alterações no humor do indivíduo.

Como não há formas de prevenção e o tratamento é feito basicamente com medicamentos antidepressivos, uma iniciativa tem facilitado a recuperação dos pacientes de depressão aqui em Curitiba. Desde o final do ano, o Centro de Pesquisas Dr. Hamilton Grabowski oferece tratamento gratuito para pacientes entre 18 e 65 anos. A ação faz parte de um programa de estudos de medicamentos antidepressivos. “Para participar desse projeto, a pessoa deve ter um quadro bem caracterizado de depressão. Antes de iniciar o tratamento, o paciente passa por uma avaliação para verificarmos essa condição, pois muita gente confunde os sintomas com outras doenças psiquiátricas, como bipolaridade, esquizofrenia ou uso de álcool e drogas. Para receber a medicação gratuitamente, o indivíduo deve apresentar um quadro de depressão pura”.

O médico explica que, diferente de outras pesquisas de medicamentos, o tratamento oferecido em seu centro não conta com remédios em teste. “Os medicamentos que utilizamos já são testados e comprovados e já estão no mercado à disposição dos pacientes de depressão há algum tempo. Não é uma pesquisa para lançar uma novidade no mercado, mas um trabalho comparativo de marcas que já existem. Por isso, as pessoas não precisam ter medo de efeitos colaterais que não estejam previstos. A maior prova de que o projeto é sério é que, depois de fazermos uma avaliação aqui, ela é validade por uma equipe do exterior”. Para participar, veja mais informações no quadro abaixo – o programa atende tanto mulheres quanto homens.