Rafael e Miguel têm apenas quatro anos, mas já sabem muito bem o que querem. Quando a pergunta é sobre o Dia das Crianças, os gêmeos são diretos sobre o presente que desejam ganhar: um brinquedo dos personagens do desenho infantil Tartarugas Ninjas. Aos pais, a dona de casa Gisele Coura Ribeiro, de 34 anos, e o metalúrgico Luciano de Castro Ribeiro, 41, que também têm mais um filho, Lucas, de 13 anos, resta negociar com os pequenos e propor alternativas para que a data não se limite a ser apenas mais uma comemoração de apelo comercial.

Quando a data se aproxima, a mãe conta que deixa os filhos escolherem um presente, mas que este não é o foco principal da família. “Deixamos eles darem opinião, mas não são as crianças que decidem o que será comprado. No Dia das Crianças, damos preferência a passar o dia juntos, indo ao cinema ou a um dos parques da cidade”.

Os pedidos, aliás, não são poucos, afinal, com tantas informações e propagandas na TV e na internet sobre uma infinidade de produtos atrativos, coloridos e principalmente tecnológicos, as crianças costumam ficar encantadas. “Eles veem os brinquedos na TV e, como sabem que o Dia das Crianças está chegando, começam a pedir o que desejam ganhar. Outra dificuldade é que os presentes para os pequenos precisam ser em dobro e, além deles, ainda damos algo para o Lucas também”.

Gisele ainda explica que, mesmo que pudesse, não realizaria todos os desejos de consumo dos filhos. “A gente dá o que pode, não tudo aquilo que eles desejam. Assim, eles crescem entendendo que não se pode ter tudo e aprendem estes valores. Acredito que a mãe e o pai não têm obrigação de comprar tudo o que as crianças pedem. Mas se não déssemos nada, sei que eles ficariam chateados”.

Para a mãe, o dia 12 de outubro, antes de ser uma comemoração com as crianças, é um dia religioso, de agradecer pela saúde da família. “Na minha infância, aprendi que antes de ser o Dia das Crianças, este é o dia de Nossa Senhora Aparecida. Minha mãe me ensinou que, neste dia, devemos primeiro rezar, agradecer e depois festejar”. Neste ano, a programação da família deve incluir um almoço na casa dos avós, na companhia dos primos e outras crianças da família e depois, se o tempo ajudar, um passeio no parque. “Estamos torcendo para que não chova, assim podemos aproveitar bem este dia em família”, diz o pai.

Ressignificação da data

Para a psicóloga Claudia Menegatti, é possível agradar às crianças, sem necessariamente fazer muito esforço. “As crianças gostam de ganhar presentes e há um incentivo de nossa cultura consumista a presentear nesse dia. Mas se isso for um dever, perde um pouco a alegria e a comemoração. Para presentear, os pais devem respeitar as possibilidades da família. Um presente pode até ser feito com as próprias mãos, por exemplo, e ele ainda estará carregado de valor afetivo”.

Para ela, o foco da questão não é presentear ou não, mas entender qual é o significado que queremos dar ao Dia das Crianças. “É necessário refletirmos sobre uma educação voltada para valores e falarmos deles para as crianças. Não é necessário defender uma bandeira anticonsumo, mas refletir numa postura pró-valores. Pode-se presentear, mas o Dia das Crianças pode ir muito além disso. Se a data fica centrada só no presente, ela se esvazia de significado”.

Mas, segundo Claudia é necessário ter coerência. “Não vejo sentido em tornar o Dia das Crianças como o dia do protesto ao consumismo, senão o materialismo continua no centro da questão. Que tal ser um dia realmente dedicado às crianças?”. A p,sicóloga lembra ainda, que mesmo vivendo em uma sociedade de consumo, deixar de receber um presente pode ser difícil para a criança, que pode se sentir frustrada se comparada às outras. “Não queremos que nossos filhos se sintam excluídos ou diminuídos”.

Outras prioridades

Para a pedagoga e professora da Universidade Tuiuti do Paraná Maria Francisca Vilas Boas Leffer, o Dia das Crianças não deveria se restringir a um único dia. Para ela, é importante pensar na educação e no incentivo à cultura durante todo o ano. “A sociedade precisa pensar na criança, na qualidade da educação, na riqueza cultural e nos espaços dos quais elas precisam, como escolas preparadas”.

Segundo Maria Francisca, é necessário ter mais amparo e investimentos em vez de apenas festinhas anuais no Dia das Crianças. “É a educação que vai formar os profissionais do futuro. E, infelizmente, não temos em nossa formação uma cultura que preze mais pela qualidade da educação do que pelos bens materiais. Esta é uma questão complexa, que rende ampla discussão entre a família, a escola e a sociedade”.