Jogador histórico do Atlético, Nilson Borges jogou pelo Coritiba na primeira participação do Coxa no embrião de Campeonato Brasileiro – que foi o Torneio Roberto Gomes Pedrosa de 1969, ampliado com clubes do Paraná, Rio Grande do Sul, Minas Gerais, Bahia e Pernambuco, além dos tradicionais de Rio e São Paulo. Era uma prática na época os principais clubes do Paraná emprestarem seus melhores jogadores para o adversário fazer bonito na competição. Era a honra do Estado em jogo. A cena em que Nilson Borges vestiu a camisa alviverde pela primeira vez aconteceu na tarde do dia 16 de setembro de 1969. Nilson Borges foi escoltado pelo presidente atleticano, José Siqueira Júnior. Os dois chegaram às 14h30 no Alto da Glória e conversaram com o diretor Munir Calluf, porque o presidente alviverde, Evangelino da Costa Neves, estava acamado.

Meia hora depois, Nilson Borges apareceu na entrada do campo e foi saudado pelos boleiros do Coxa: “Olha o Bocão, gente!”. Bocão era o apelido de Nilson Borges entre os boleiros. O ponteiro abriu um grande sorriso. Embaixo do braço a velha chuteira. Ele explicou: “Uma de minhas manias é usar sempre a mesma chuteira porque dá sorte”. Munir Calluf fez a apresentação do jogador para o elenco alviverde, depois o técnico Francisco Sarno fez a preleção e avisou: “Ele vai passar por uma avaliação, mas se estiver bem, já estreia neste domingo contra o Botafogo”. Nilson Borges não estava em casa, mas não se sentiu estranho. Ele encontrou Paulista, que foi seu companheiro no Atlético. E também encontrou aquele que foi o responsável pela sua transferência do futebol paulista para o paranaense: Lanzoninho.

Na primeira entrevista, mostrou experiência de quem não era mais garoto. Naquele tempo, jogador com 28 anos era veterano. “Agora sou Coxa até o fim do Robertão. Estou alegre e vou me esforçar bastante. Espero acertar o pé no Coritiba. Depois do campeonato eu viro inimigo de novo”, disse ele. No dia seguinte, a Tribuna não economizou: “Nilson está pronto para a batalha”. E anunciou o jogador como a grande novidade do dia anterior no Alto da Glória. “O jogador está em forma e poderá estrear domingo prometendo fazer muita força com a camisa do Coritiba”, disse o jornal. Ele prometeu e cumpriu. No jogo disputado na tarde de domingo dia 21 de setembro, no estádio Belfort Duarte, contra o Botafogo, que entre seus cobras tinha Jairzinho, que no ano seguinte seria o Furacão da Copa, Nilson Borges foi considerado o melhor homem da partida.

O Coritiba venceu por 3×1, dois gols de Kosilek, aos 20 do primeiro tempo e 14 do segundo. Rinaldo fez o terceiro de pênalti e Jairzinho descontou para o time da Estrela Solitária. Na edição de segunda-feira, a Tribuna registrou: “Nilson, o dono da bola. Nilson foi o melhor homem em campo, principalmente no segundo tempo, quando Sarno o colocou em sua verdadeira posição de terceiro homem de meio-campo”. O jornal informou que o ponteiro obstruiu com precisão e construiu com perfeição, “fez lançamentos precisos para Miranda, Kosilek e Passarinho e investiu em direção da área inimiga”. Resumindo, “Nilson foi o cérebro do time e realizou grandes jogadas individuais”. E arrematou: “A famosa retranca de Zagallo não funcionou”.

O atacante viria ainda a se destacar em outras partidas, como na decisiva contra o Cruzeiro, também no Alto da Glória, no dia 2 de novembro, um sábado. Aos 14 minutos do primeiro tempo, Krüger disputou bola com Fontana, perdeu e foi ao chão. O juiz Amilcar Ferreira marcou falta na zona do agrião, para protesto geral dos jogadores do Cruzeiro. “O que aconteceu depois foi o seguinte. O goleiro Raul orientou a barreira. Augusto e Passarinho colocaram a bola no chão e ficaram discutindo quem ia bater. Aí eu fui para a bola e bati com efeito. Ela fez curva e entrou na gaveta do goleiro Raul. Os dois me olharam e eu falei: continuem discutindo, podem continuar”, relembra Nilson Borges. Na arquibancada a galera foi à loucura.

O Coritiba br,igava por vaga na fase decisiva e a vitória era fundamental. No entanto, a um minuto do segundo tempo, Palhinha cobrou escanteio da direita, Nico subiu e não pegou. A bola sobrou para Evaldo, que virou e chutou como quis para o fundo das redes de Joel. O empate não era bom. Mas o gol naquela partida teve um sabor histórico para Nilson Borges. Foi o único que marcou com a camisa do Coritiba. Sobre a experiência de jogar com a camisa do Coritiba, Nilson Borges disse depois: “Eu tive a chance de jogar com o Krüger, que era um baita jogador”. Além disso, foi bem recebido: “A torcida do Coxa ia bater papo comigo na concentração. Foi muito bacana”. E confessou uma vez que “meus amigos atleticanos pedem para eu rasgar as fotos que tenho jogando no Coxa. Mas não posso fazer isso. Afinal, é a minha história”.