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Neneca foi considerado um dos melhores goleiros do país

No Náutico ele ficou mais de 1,7 mil minutos sem ver as redes balançarem

  • Por Edilson Pereira

O primeiro Neneca ninguém esquece. Outros vieram na cola dele, tentando repetir a mesma trajetória de goleiro corajoso, arrojado e garantia contra atacantes adversários. O primeiro Neneca é Hélio Miguel, londrinense que nasceu no dia 8 de dezembro de 1947, perto da Vila Casoni, numa Londrina pioneira. Se desse para resumir o jogador, era o gigante que falava pouco, mas pegava muito no gol. Nenhum outro reuniu façanhas como o garoto filho de ferroviário, que começou nos campos ao lado da linha do trem, em Londrina, e sagrou-se campeão brasileiro em 1978, no Guarani – único clube do interior a obter essa conquista.

Neneca não estava ali para fazer figuração. Para se ter ideia da importância dele no título do Guarani, basta dizer que teve presença segura no primeiro jogo contra o Palmeiras, disputado no Morumbi, diante de 99.829 pessoas, numa partida apitada por Arnaldo Cezar Coelho. Ele não levou gol nas duas decisões, enquanto o goleiro Leão, que foi da Seleção Brasileira nas Copa de 1970, 1974 e 1978, levou o primeiro numa vacilada imperdoável. Aliás, o título do Guarani começou a se esboçar na falha de Leão, que caiu na provocação de um garoto de 17 anos, chamado Careca. Aos 25 minutos do segundo tempo, Leão deu uma cabeçada no rosto do atacante e o árbitro marcou pênalti, além de expulsá-lo. O ponta-de-lança Escurinho foi para o gol. O pênalti foi convertido por Zenon que mais tarde confessou: “Ninguém quis bater aquele pênalti com medo de errar”. No duelo de dois grandes goleiros, Neneca foi melhor.

No segundo jogo daquela final, Neneca mais uma vez foi decisivo. Foi ele quem começou a jogada do gol da segunda vitória, numa reposição de bola que foi parar nos pés de Careca, que matou o alviverde de Parque Antártica e consagrou o alviverde de Campinas. Os bugrinos foram campeões no Brinco da Vila, num domingo à tarde, no dia 13 de agosto de 1978, diante de 27.086 pessoas, num jogo apitado por José Roberto Wright. Do jeito que Neneca conta parece que foi a coisa mais simples do mundo. “O que aconteceu foi o seguinte: eu fiz a reposição de bola para o Bozó na ponta esquerda, aos 36 minutos do primeiro tempo. Ele chutou e o goleiro Gilmar rebateu. A bola foi para Careca, que fez o gol da vitória por 1 x 0. Assim, fomos campeões”, resume. Claro que aquele título contou com o bom trabalho de um jovem e promissor técnico chamado Carlos Alberto Silva, além da genialidade de uma geração de craques, mas também contou com a segurança de um goleiro discreto e que se acostumava a ser campeão.

Hoje aposentado, e com 67 anos, Neneca mora na Londrina em que nasceu. Quando sai às ruas, com frequência é interpelado para contar suas proezas em campo. Ele tem muitas histórias. Uma delas é sobre a campanha do Guarani. O goleiro recorda que um dia apareceu um sujeito no Brinco de Ouro da Princesa chamado Guarantã. “Ele disse que se a gente desse uma volta ao redor da bandeirinha de escanteio cada vez que entrasse em campo, a gente seria campeão”, diz Neneca. O time do Guarani nem discutiu: a cada jogo isso era feito, e no final Guarantã virou profeta do título.

Arquivo
Neneca nos tempos de Náutico: recorde ainda intacto.

Recordista sem gols

A estrela de Neneca começou a brilhar no América-MG, em 1973. “Eu tive a sorte de ser treinado em Londrina pelo Orlando Fantoni, em 1972. Quando ele foi contratado no ano seguinte pelo América Mineiro, disse que queria me levar. Eu fui para o América como terceiro goleiro”, conta. Aí aconteceu um lance de sorte: os dois goleiros principais se machucaram e Neneca entrou contra o Fluminense, num jogo no Mineirão. Este jogo aconteceu no dia 24 de novembro de 1973, um sábado, pela prime,ira fase do Campeonato Brasileiro. Havia um pequeno tabu entre os dois times porque o Coelho estava três jogos sem ganhar do adversário pelo Campeonato Brasileiro. “Nós ganhamos por 1 x 0, com gol de Spencer. Fui muito bem e o Orlando Fantoni resolveu me manter no time”, relembra.

A boa campanha do América-MG no Campeonato Brasileiro de 1973 fez o Náutico cobiçar o técnico Orlando Fantoni, que foi para Recife. O foco do Timbu não era nem ganhar o campeonato pernambucano, mas evitar que o rival Santa Cruz fosse hexacampeão – um título que só o time do estádio dos Aflitos tinha. Para isso, além de Orlando Fantoni, contratou Jorge Mendonça, Vasconcelos, Baiano, Juca Show e Neneca, é claro. “A pressão da torcida era muito grande, porque o Santa Cruz era pentacampeão e todo mundo cobrava a gente para evitar o hexacampeonato dos rivais. Nós fomos campeões e no ano seguinte vice”, diz.

Foi na temporada pernambucana que, além do primeiro título, Neneca também bateu um recorde de minutos sem levar gols. “Fiquei 19 jogos e 26 minutos sem levar gols pelo Campeonato Pernambucano de 1974, totalizando 1.726 minutos”, recorda. Na final de 1974, depois das duas partidas vencidas por 1 x 0 pelo Náutico, o diretor de futebol do clube, Sebastião Orlando, dizia que “o título não era tão relevante. O importante é que conseguimos evitar o hexa do Santa”. Por tudo isto, pelo menos em Pernambuco, esta decisão foi revestida de uma importância rara.

Depois de dois anos no Náutico, Neneca foi para o Guara ni. Depois que saiu do Guarani, em 1980, ainda foi campeão sul matogrossense pelo Operário (1981) e paranaense pelo Londrina (1981). Depois de conquistar o último título de campeão justamente pelo Tubarão da cidade em que nasceu, e onde despontou para o futebol profissional, a melhor fase do grande goleiro tinha sido encerrada em grande estilo.

A partir daí, Neneca ainda continuou jogando por equipes como o Bragantino (SP), Fluminense de Feira de Santana e Votuporanguense, onde encerrou a carreira em 1989 e se dedicou a ser treinador de goleiros, principalmente no Guarani, onde até hoje goza de grande prestígio. “Sabe de uma coisa: apesar de todas as dificuldades pelas quais o clube passou nos últimos tempos, eles nunca esqueceram de homenagear aqueles que ajudaram o Guarani a conquistar o seu principal título. De vez em quando eles me chamam para uma homenagem”, confessa.

Antes de goleiro, atacante e sapateiro

Como todos os garotos de sua idade, Hélio Miguel começou correndo pelos campos de terra das proximidades de sua casa e seu primeiro time foi o Ferroviário. O campinho do time ficava ao lado do atual estádio municipal Vitorino Gonçalves Dias, no centro de Londrina. Neneca jogava de atacante, mas quando tinha decisão por pênaltis ia para o gol. “Eu estava com meus treze anos. Defendi muitos pênaltis nestas cobranças e toda vez que a coisa apertava para o nosso time, eu ia para o gol para garantir. Assim eu fui ficando no gol e, quando percebi, de centroavante virei goleiro”, diz.

Depois do Ferroviário, Neneca, já na posição de goleiro, foi para o Brasileiro da Vila Casoni. “Depois Fui para a Portuguesa, que era um timão do futebol amador de Londrina. Fui tricampeão. O técnico era o Jorge Scaff. Ele gostava muito de mim e me ensinou muito. Fiquei quatro ou cinco anos na Portuguesa. Mas em termos de futebol profissional, comecei em 1965, com 18 anos”, recorda Neneca.

A profissionalização aconteceu no São Paulo de Londrina – clube extinto da cidade do norte paranaense. Isto foi em 1965, quando tinha 18 anos. “Antes daquele ano, fazia treinamento físico de manhã e depois à tarde eu ia para o batente. Eu era sapateiro. Tinha que produzir sapatos, porque tinha encomendas e eu não podia deixar as formas vazias”, conta. Depois que se profissionalizou, pode, então, dedicar-se integralmente à carreira. Quando foi para o São Paulo Futebol Clube, o goleiro foi levado pelo seu antigo treinador na Portuguesa, Jorge Scaff.

Em 1969, Neneca foi para o Londrina, mas teve pouca oportunidade como prata da casa. “Naquela época não davam oportunidade para jogadores da casa. Os diretores tinham relacionamento com os times grandes e traziam aqueles jogadores e não iam deixá-los na rese,rva”, recorda.

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