Noite de 26 de outubro de 1972, uma quinta-feira. Estádio Fonte Nova, em Salvador. Era o 18º jogo na história de Bahia e Fluminense, partida válida pela 14ª rodada da primeira fase do Campeonato Brasileiro. O Bahia dirigido pelo técnico Sílvio Pirilo fazia uma campanha razoável na competição. O Fluminense, dirigido pelo técnico Pinheiro, nem tanto. O time baiano tinha conseguido reforços, entre eles o ponta-esquerda Nilson Borges, do Atlético, que não disputou a competição. Era prática normal. O Rubro-Negro emprestou Sicupira para o Corinthians e Alfredo para o São Paulo. O Paraná foi representado naquele ano pelo Coritiba. Nilson Borges tinha fama de grande driblador.

Quem conta é o goleiro Altevir, que jogou com ele: “Nilson Borges foi um dos maiores dribladores que eu vi. Ele dava elástico que nem o Rivelino, com perfeição. Ele tinha um domínio de bola sensacional, o passe era perfeito, era como se colocasse com a mão. E ainda gostava de jogar por baixo das pernas do outro jogador. Se o cara abrisse a perna, a bola passava”.

Nilson Borges deu um drible no volante Denilson, também conhecido por Rei Zulu, que foi cortar e entrou no joelho do atacante. Os amigos dizem que foi uma maldade. Denilson tinha fama de destruidor e sobre ele Teixeira Heizer escreveu na revista Placar em 1970: “Não tente passar. Ninguém passa por Denílson”. A fama do cara não era das melhores. Para Nilson Borges, aquilo foi coisa de carniceiro. “Ele só me pegou porque veio de lado e eu não vi ele chegar. Se viesse de frente ele não me pegava. Foi sem necessidade. O lance foi no meio campo. Sem perigo. Ele deu o carrinho, eu estava com o pé de apoio. Por isso eu tenho raiva até hoje”, conta ele.
Castigo

A partida terminou mal para Nilson Borges, mas não terminou bem para tricolor carioca. Como castigo, saiu derrotado de campo com um gol de Picolé aos 49 minutos do segundo tempo. Nilson Borges não jogou mais aquela competição. Aquela e outras pelo menos da maneira como jogava, inteiro. Ele operou o joelho e não teve como voltar a jogar do mesmo jeito. A pancada foi fatal. E, além disso, não era mais um garoto. Estava com 33 anos. Ainda hoje ele mostra a perna: “Olha como ficou!”. E foi assim que Nilson Borges começou a deixar de jogar futebol. Ele ainda tentou voltar. Entrava em campo. Não rendia como antigamente.

A torcida não chiava porque compreendia o esforço do jogador. Mas ele e ela sabiam que a época do velho ídolo tinha acabado: “A pancada que levei no joelho naquele jogo contra o Fluminense me obrigou a parar de jogar futebol”.

Vingança

Ele continuou no Atlético por mais um tempo. E uma pequena vingança veio dois anos depois, em 1974, quando pendurou definitivamente as chuteiras. O Furacão fazia boa campanha em seu grupo no Brasileiro. No dia 30 de março, ele recebeu o Fluminense no estádio Belfort Duarte.
O tricolor veio mordido e saiu arrebentado. O Rubro-Negro massacrou: aos nove minutos do primeiro tempo Sicupira tinha feito 1×0. No segundo tempo, Caio ampliou aos 4 minutos. Aos 34 minutos, de pênalti, Sicupira fez o terceiro.

E Sicupira ainda podia ter feito o quarto aos 44 minutos, não fosse o excesso de preciosismo. O jogo de volta foi disputado somente no dia 6 de julho, porque a competição teve que parar. O mundo inteiro voltou os olhos para a Copa do Mundo na Alemanha, que apresentava a Holanda como a grande atração e o time anfitrião como vencedor. O Brasil voltou com um amargo quarto lugar, depois de perder o penúltimo jogo da competição para a Polônia.

O segundo jogo do Atlético contra o Fluminense foi disputado num sábado, antes mesmo da final da Copa, que foi no domingo. O Rubro-Negro precisava ganhar. O tricolor estava ainda mais mordido. Aos 33 minutos do segundo tempo, Nilson Borges entrou no lugar de Bira. E foi para a cobrança de um escanteio. Ele cobrou com perfeição na cabeça de Alfredo, que fez o gol do time paranaense.

O Atlético venceu e terminou a partida na liderança de seu grupo. O Rubro-Negro, embora tenha feito bom papel na competição, não se classificou para a fase seguinte. E o velho Nilson deixou a sua marca no Maracanã. Mas ele não foi embora. Continuou no clube. Virou técnico das categorias de base, exerceu função de auxiliar técnico e está no clube até hoje. Há mais de 30 anos.