O Clube Atlético Ferroviário nasceu na casa do ferroviário Ludovico Brandalise no dia 12 de janeiro de 1930 e morreu no dia 29 de junho de 1971, depois de 41 anos de existência. Mas ainda hoje é o terceiro maior time do Paraná, se levar em conta o acervo de conquistas estaduais – e glórias. O Paraná Clube que sucedeu o Colorado Esporte Clube, que sucedeu o Ferroviário, ainda precisa tomar vitamina para ultrapassar o Boca Negra, como era conhecido o esquadrão vermelho e negro.

O Boca Negra não era só títulos. Ele se impôs como uma força no futebol paranaense. Nos anos 40, o Ferroviário construiu o mais moderno estádio de futebol do Paraná, o Durival Britto e Silva, considerado à época o melhor estádio do país depois de Maracanã e Pacaembu, tanto que sediou duas partidas da Copa do Mundo de 1950 – Estados Unidos x Espanha e Suécia x Paraguai. Além disso, o clube foi o primeiro representante paranaense no Torneio Roberto Gomes Pedrosa, em 1967, competição que reunia os grandes times de Rio de Janeiro e São Paulo e que foi embrião do atual Campeonato Brasileiro.

E, para arrematar, o Ferroviário revelou grandes jogadores do futebol paranaense, um deles um dos maiores ídolos do Atlético, Barcimio Sicupira Júnior. Sem contar os craques que desfilaram com sua gloriosa jaqueta como Bídio, Madureira, Paulo Vecchio e outros. O Boca Negra ainda hoje está entalado na garganta de furibundos velhinhos torcedores que o viram jogar e que não engoliram o nascimento do Colorado, time que apesar de bonito e forte, talvez por conta da maldição da cigana, não ganhou um campeonato estadual – apenas meio, em 1980, dividindo a taça com o Cascavel.

A praga da cigana foi tão forte, que o Colorado bateu na trave cinco vezes. Um retrospecto que não se compara ao do Ferroviário. O Boca Negra foi campeão oito vezes, em 1937, 1938, 1944, 1948, 1950, 1953, 1965 e 1966. Além de ser vice mais sete vezes, a primeira em 1934 e a última em 1960. Para não destrambelhar de vez, o Colorado fundiu-se com o Pinheiros para dar origem ao Paraná Clube.

Trio de ferro

A verdade é que o Ferroviário tinha tudo que um grande time precisava. Bom time, torcida apaixonada e esquadrão vitorioso, além da Rede Ferroviária Federal que dava suporte econômico para o time enfrentar a dupla Atletiba.

Tem velhinho hoje em dia que pragueja contra Juscelino Kubistchek. O presidente bossa nova ao dar prioridade no final dos anos 50 para a indústria automobilística, colocou em terceiro plano o transporte ferroviário, sucateando o setor, que perdeu a importância econômica e logística que tinha – até hoje nossa malha ferroviária é um vexame se comparar com outros países de território vasto. Quando faltou o apoio da Rede, não demorou muito para a decadência bater na porta do clube no final dos anos 60. A solução foi buscar uma gambiarra que produzisse dinheiro: a fusão com Britânia e Palestra. A responsabilidade foi passada para frente, para o Paraná Clube, então com mais patrimônio e dinheiro.

E sobrou a saudade do Boca Negra, único time a ombrear em rivalidade com a dupla Atletiba, criando a expressão Trio de Ferro da Capital. Tudo isto, não é pouca coisa. Mas num belo dia de 1971 o Boca Negra parou na estação e não saiu mais. Faltou aquele trem da Rede que o empurrou – chamado grana.