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Conheça Ciska, o lateral que brilhou no Grêmio Maringá

Ex-jogador fez parte do time que foi campeão de um torneio da CBD

  • Por Edilson Pereira

O professor de educação física e treinador de escolinhas de futebol José Gonçalves de Oliveira, 69 anos, tem um velho Fusca de cor grafite, que, quando ele vai ao centro de Maringá, o deixa estacionado na Avenida Getúlio Vargas. O Fusca tem colado no capô uma grande foto preta e branca de um time de futebol (a foto está ao lado). É o Grêmio Esportivo Maringá de 1969, quando Gonçalves tinha 25 anos. A foto foi tirada na tarde de 23 de março, domingo, dia em que o alvinegro paranaense repetiu o resultado da partida anterior no dia 16 de março, no estádio Willie Davids, e venceu o Sport na Ilha do Retiro por 3×0. A vitória praticamente definiu o primeiro e mais controvertido título nacional de uma equipe do Paraná em torneio promovido pela Confederação Brasileira de Desportos (CBD).

Não seria exagero dizer que o título saiu por acaso e circunstância. “A verdade é que a gente não ia jogar em Recife e ia deixar o título para o Sport. Os jogadores do Grêmio estavam com dois meses de salários atrasados e o time não tinha dinheiro nem para pagar as passagens”, conta Gonçalves, que fez parte dos dois jogos e daquele time vencedor com o nome de Ciska, lateral-esquerdo revelado pelas equipes de base da Portuguesa Santista e que depois de passar pelo Paulista de Jundiaí, foi contratado pelo Grêmio Maringá em 1966. No entanto, ironicamente, alguém ajudou o time paranaense a ir até Recife, custeando passagens de ônibus de Maringá ao Rio de Janeiro, inclusive estadias de hotel no centro da cidade.

Fotos: Edílson Pereira

No Rio de Janeiro, o time pegou avião para Recife. “Então, no Rio de Janeiro nós colocamos ternos tudo bonitinho e fomos para o Nordeste. Chegamos lá com tudo em cima, como manda o figurino e fomos para um hotel reservado para a delegação. Lembro até hoje o nome do hotel: São Domingos, que ficava ao lado do rio Capiberibe”, diz ele. Nesta altura do campeonato, o leitor gostaria de saber qual o nome do benfeitor que pagou as despesas. Era o industrial José Rozenblit, dono da maior gravadora de discos do Nordeste e à época presidente do Sport. “Acontece que o presidente do Sport, que era rico e orgulhoso, ficou mordido com os 3×0 que o Grêmio aplicou e disse que o Sport tinha futebol e time para golear nossa equipe”, conta Ciska. “Ele queria ganhar o titulo no campo e não por desistência nossa. Nós dissemos que nosso time não tinha dinheiro para a passagem e muito menos para o hotel. Ele disse que pagava”, acrescenta o lateral-esquerdo.

“Talvez ele achasse que por estar sem dinheiro nosso time ia ser presa fácil, mas a verdade era que ele queria ensacar a gente”, conta Ciska. “Quando chegamos ao estádio um pouco antes do jogo foi bacana ver ele estava cheio. Mas levamos um susto no nosso vestiário: ele estava cheio de velas enormes de mais de um metro de altura, velas acesas. Na mesa de massagem tinha uma grande Estrela de Davi. Quando a gente viu aquilo, foi fazer aquecimento em outro lugar, do lado de fora do vestiário, que aquilo era macumba. Talvez por isso, por fazer aquecimento longe daquele negócio que foi preparado para a gente e por não ter o compromisso de vencer, talvez porque a nossa vantagem era grande, nós entramos leve no gramado. Além disso, as torcidas de Náutico e Santa Cruz começaram a cantar a música ‘Maringá, Maringá’. Aquilo deu mais moral para a gente. Eu só sei que nós entramos leves”, conta Ciska. O resultado disso tudo foi que “os gols foram nascendo um atrás do outro, dos pés do Osvaldo, do Iaúca e a torcida vibrava muito porque tinha muita gente torcendo para nós. Chegou uma hora que foi de arrepiar. Era emocionante. Estávamos longe de Maringá e tínhamos torcida no estádio. Aquilo encheu o nosso time de moral”, recorda Ciska.

O veterano jogador lembra que no dia seguinte à vitória sobre o Sport, os jornais de Rec,ife estampavam em manchetes: “3 lá e 3 cá”. As reportagens eram de admiração pelo futebol do Galo do Norte. “E não apenas isso, os times de Recife queriam que a gente ficasse para fazer amistosos, queriam contratar os nossos jogadores, foi extraordinário. Eu só sei que três jogadores nossos nem voltaram para Maringá e ficaram por lá mesmo. Um deles foi o ponta-direita Iaúca que começou comigo na Portuguesa Santista e jogou no São Paulo. Ele ficou no Sport. Outro foi o centroavante Osvaldo que foi para o Náutico. O terceiro foi o Zé Carlos que foi para o Santa Cruz”, conta Ciska. “Eles queriam mais, mas o pessoal resolveu voltar. E quando voltamos e chegamos perto de Maringá foi uma grande festa. Tinha uma multidão em Mandaguari nos esperando. E todo mundo veio de lá até Maringá comemorando”, recorda ele. Foi provavelmente a última grande alegria que o Grêmio Esportivo Maringá deu à sua torcida. Uma vitória que o Grêmio deve muito a seus jogadores e também ao generoso presidente do Sport, que não contava com a astúcia do Galo do Norte. Depois daquele resultado, a equipe alvinegra tinha que enfrentar dois alvinegros pela frente. Primeiro, o Santos. E se passasse por ele, o Botafogo. Se conseguisse, ficaria com o título de Campeão dos Campeões. Com vaga garantida na Libertadores de 1970. Mas esta era outra história. Na realidade, tudo acabou mesmo em Recife.

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