Nunca houve outro Cascavel como o de 1980. E nunca houve decisão tão polêmica quanto a do Paranaense daquele ano. “Eles (a Federação Paranaense de Futebol) não contavam que o Cascavel fosse desandar a ganhar e chegasse à última partida com chance de ser campeão. Para nos tomar o título o Colorado tinha que abrir uma goleada com diferença de cinco gols. Pelo nosso histórico, não tinha como eles fazerem aquilo. A não ser que aprontassem alguma sacanagem”, conta Borba Filho que era o técnico do Cascavel naquela decisão.

Beneficiado por resultados expressivos, a Cobra ia jogar no dia 30 de novembro de 1980 podendo perder com uma diferença de até cinco gols, para ainda ser considerado campeão do Estado. No entanto, o time do Oeste chegou ressabiado à final, temendo interferência da arbitragem no resultado. “Teve um caso em Londrina que tivemos um jogador expulso logo no começo da partida”, conta Borba Filho, técnico do Cascavel na época, hoje com 75 anos. “A situação chegou a um ponto que eu passei a fazer treinos de nove jogadores contra onze, para acostumar o time a enfrentar a situação”, diz ele.

O Cascavel não estava a fim de facilitar as coisas. “Eu tinha amigos. Me avisaram para tomar cuidado. Então eu reuni os três jogadores mais experientes do time que eram Moacir, Marcos e Maurinho, este o único reserva. Eu disse para eles que estava sentindo algo diferente no ar, que estava sabendo que eles iam tentar capar o nosso título. Eu avisei: vou botar o time em campo, mas se tiver sacanagem eu faço duas substituições. Se for o caso, este jogo não acaba”, conta ele. “Antes do jogo um repórter perguntou se eu não tinha medo que aprontasse contra a gente. Eu disse que estava preocupado. Então fomos para o jogo. Na primeira bola, fizeram falta em cima do Zico, mas o juiz não marcou a falta e validou o gol. Marcos foi pegar a bola, três jogadores do Colorado foram para cima e o juiz expulsou nosso jogador”, diz ele. O juiz era o Tito Rodrigues. “Toda vez que o nosso time ia para o ataque, ele apitava impedimento. Eu pensei: assim não tem como ganhar”, diz Borba Filho. “Aí veio o segundo gol. Eu fui protestar e o juiz me expulsou. Antes de ele me expulsar, eu pedi para o Maurinho entrar. O juiz expulsou o Maurinho. Eu rezei para o primeiro tempo terminar em 2×0”, diz ele. Borba Filho conta que no vestiário o jogador Dudu disse para o técnico ficar tranquilo, “que nós vamos virar o jogo”. Borba Filho: “Vamos virar o cacete!”.

“O médico disse que Dudu não tinha condições”, afirma Borba Filho. O Cascavel voltou sem dois jogadores por recomendação médica, eles estavam sem condições. “Então eu disse: vocês dão a saída. Zico, você pega a bola, chuta para a geral e cai. Aí o juiz já sabia que estava tudo arrumado para o Colorado ganhar e acabou o jogo. O Colorado já mandou as faixas para dentro de campo e o título foi para o tribunal”, diz ele. Ele contesta a versão de que houve ‘cai-cai’. “Quem caiu foi apenas o Zico. Foi um só. Cai-cai é quando vários jogadores caem. E, depois, nós viemos para jogar. Se a gente quisesse, podia ser campeão sem vir a Curitiba. O Colorado ia ganhar por WO, que só pode considerar um gol de vantagem e com este resultado seríamos campeões. Mas eles armaram para tirar o título do Cascavel. O que eu fiz naquele dia foi defender o meu filé. Eu não deixei roubar o nosso título. Pode passar cem anos, mas quando colocarem o dedo no campeonato paranaense em 1980, ninguém vai tirar o nome do Cascavel de lá”, defende Borba Filho.

Depois que Tito Rodrigues apitou o fim da partida, por insuficiência de jogadores do Cascavel, o Colorado comemorou o título que foi seu por pouco tempo. No dia 4 de dezembro o Tribunal de Justiça Desportiva puniu o Cascavel com a perda de pontos, perda e de parte da renda, além de aplicar multa de 200 cruzeiros. A co,missão de sindicância da FPF confirmou que as contusões dos jogadores do Cascavel eram reais e que o título só poderia ser homologado por ato administrativo do presidente Luiz Gonzaga da Motta Ribeiro. E numa decisão que não agradou ninguém, ele declarou que os dois times eram campeões de 1980.

Mais clubes

Borba Filho esteve tanto no Grêmio Maringá quando no Maringá Esporte Clube. E também no Atlético, Agua Verde, Pinheiros, Café (Cianorte), Operário, Cascavel, Rio Branco, Guarapuava, Foz do Iguaçu, Iraty e Matsubara.