“Para ser sincero, foi um dia tão triste em minha vida que eu não lembro quando foi e contra quem foi e nem como foi quando o Atlético caiu para a segunda divisão em 1967”, conta o lateral-esquerdo Amauri. Aquele ano de 1967 entrou para a história do Atlético como o pior de todos: foi um ano de cão. Para ter ideia do tamanho do desastre, basta dizer que se somar os últimos quatro jogos do ano anterior e os primeiros 17 daquela temporada o rubro-negro ficou 21 partidas sem vencer. Uma verdadeira tragédia. O Atlético conseguiu perder em casa para o Jandaia e para o Primavera que embora valorosos, não eram rivais tradicionais. A partida que sacramentou o rebaixamento do Atlético aconteceu no dia 29 de outubro em plena Baixada. O time perdeu para o Grêmio de Maringá por 4×2. Ainda havia a última rodada contra o Água Verde, que seria o campeão da temporada: mas já era tarde. Nem a vitória salvaria. O Apucarana abrira três pontos na penúltima colocação e naquele tempo cada partida valia apenas dois pontos. O Atlético estava rebaixado.

Amauri estava no time. “Eu nunca vi nada igual como naquele ano. O time só se defendia. Tudo estava errado. A diretoria contratava qualquer sujeito que aparecia e dizia que era de fora e era fera. Pensava que era boleiro e quando entrava em campo a gente percebia que era um pipoqueiro. Vieram uns cariocas que ninguém sabia onde tinham jogado. O time não ganhava de ninguém”, conta ele. “A grande verdade era que o Atlético não tinha onze jogadores para colocar em campo”, completa. E o problema não estava apenas em campo: “A administração naquele ano foi horrível. Salários atrasavam por meses e isso só ajudava a piorar as coisas”.

A vida do Atlético naquele ano foi tão amarga que além da parte esportiva, Amauri guarda até hoje profunda mágoa pessoal. “Eu me casei no final daquele ano. Os diretores foram padrinhos de meu casamento. Eles estavam me devendo cinco meses de salários atrasados e prometeram pagar. E não pagaram. Eu me casando, precisando de dinheiro e ele não aparecia. Nem vale me deram. Tive que fazer empréstimo para me casar”, conta Amauri, que se casou no dia 9 de dezembro de 1967. “Foi tão triste que eu não tive dinheiro nem para fazer lua de mel”, diz ele. A coisa foi tão brava que o ano terminou, um novo presidente assumiu com promessa de levantar o Atlético, que em teoria estava na Segunda Divisão do Campeonato Paranaense, porque terminou a temporada na lanterna com apenas 14 pontos ganhos, três vitórias, oito derrotas e onze empates.

E daquele time a nova diretoria queria apenas quatro jogadores: o goleiro Gil, o lateral Amauri e os zagueiros Charrão e Adilson. “Só que eu não queria ficar mais”, diz Amauri. “Quem me convenceu a ficar foi o Jackson, que foi jogador, técnico e era diretor. Ele disse: você é nosso menino, nós queremos que você fique. Eu contei o meu drama e o Jackson falou para o presidente: vamos pagar agora tudo o que o Amauri tem para receber. O presidente fez um cheque na hora e foi assim que minha barra aliviou”, diz ele. “E não foi só isso. O Jackson disse: você agora vai ganhar que nem os caras que a gente vai trazer de fora. Tudo cobra. E foi assim que eu renovei contrato”, completa. Se o ano que estava terminando foi um ano de cão, o ano que começou depois daquele dezembro macabro para o Atlético foi um dos melhores anos da vida do clube. Tudo por causa do novo presidente, Jofre Cabral.

Em campo, 1968 foi diferente de tudo. “Só vinha craque. Aquele time de 1968 foi o melhor time em que eu joguei em toda a minha vida. Era simplesmente fantástico. Tinha banco poderoso. Quem saía do banco não queria voltar. E para voltar para o time titular não era fácil”, conta ele. “A gente olhava para o lado, era Djalma Santos, Bellini, Dorval, a gente se sentia valorizado”, acrescenta.

Curiosamente o Atlético não foi campeão, perdendo o título para o Coritiba na famosa decisão em que Paulo Vecchio marcou o gol no último minuto da temporada. “Eu, joguei a primeira partida. Na segunda partida o técnico colocou o Adilson. E infelizmente foi justamente ele quem fez a falta no final da segunda partida que resultou no gol do Coritiba”, diz. Mesmo assim o Atlético conquistou vaga para disputar o torneio Roberto Gomes Pedrosa. Foi um belo ano, graças a Jofre Cabral.

“Na nossa época, falar em Jofre Cabral para um atleticano era como falar em Deus. Ele era muito atleticano. Ele amava o Atlético acima de todas as coisas. Pena que não deu tempo de ele mostrar tudo o que ele queria fazer porque morreu no dia 2 de junho daquele mesmo ano. Ele era um homem de visão. Tinha projetos inovadores. Se hoje tem o Santa Mônica foi graças a ele”, diz Amauri. No dia em que Jofre Cabral morreu em Londrina no meio de uma partida contra o Paraná local em pleno estádio Vitorino Gonçalves Dias, Amauri estava no banco. “Era para entrar eu ou o Zezinho. Como o time estava perdendo, entrou o Zezinho. Quando a gente ia jogar no interior era uma parada dura. Os caras jogavam a vida. Tinham alguns naquele tempo que tomavam tanta boleta que chegavam a espumar. Eles batiam. Jogar em Apucarana, Bandeirantes, Cornélio Procópio e Arapongas era uma guerra. Além do campo ser ruim. A gente estava concentrado no jogo. Sabia que houve alguma coisa com o presidente na arquibancada. Que apareceu a ambulância. Quando terminou a partida, foi que disseram no vestiário: o presidente morreu”, conta Amauri. “Foi uma grande tristeza”, completa. “Ele era muito carismático. Jofre Cabral era paixão pura. O cara falava e todo mundo ia com ele”, concluiu.