O circo começou a entrar na vida da ginasta brasileira Camila Comin durante os Jogos Olímpicos de Sidney. “O primeiro contato que eu tive com o Cirque du Soleil foi em 2.000. Eles fizeram o primeiro convite e eu falei que eu queria continuar na ginástica. Em 2004, eles novamente entraram em contato comigo. E eu falei que tinha o sonho da medalha olímpica, que meu sonho era a ginástica”, conta ela. “Como o circo não é bem visto no Brasil, eu pensei, eu vou tentar as Olimpíadas de Pequim em 2008. E a partir daí eu tentaria fazer uma audição ou coisa assim. Mas, em 2007 eu decidi parar e eles entraram em contato comigo, ligaram na minha casa e ofereceram pra mim uma audição em São Paulo”, diz ela.

“Quando eu cheguei, tinha mais ou menos umas cinquenta pessoas. Tinha cantores, palhaços, malabaristas, ginastas que pararam antes que eu. A audição tinha etapas. E eu fui passando as etapas e ao fim da audição passaram duas pessoas. Uma delas era eu. Após isso, eles ofereceram um contrato pra mim que começaria no Canadá. Eu cheguei em casa e minha mãe, curiosa, perguntou como é que foi. Eu disse que ia morar no Canadá.. Foi uma mudança muito brusca. Eu acabei de sair de uma ligação com a ginástica, de dezoito anos e entrei para o circo. Eu disse, é uma porta que está se abrindo, é uma oportunidade pra mim sair um pouco do Brasil, ir morar fora, ter outros horizontes, trabalhar com outras pessoas e entrar para um mundo totalmente diferente”, conta ela. E foi assim que a ginasta Camila Comin entrou para o Cirque du Soleil.

“Quando eu cheguei ao Canadá, era janeiro, estava frio, frio, frio. Eu não estava preparada, mas a estrutura do Cirque du Soleil é fora do comum. Eu cheguei e fui morar numa residência na frente do circo. Eu fui recebida muito bem. Quando você é aprovada numa audição, você tem três meses para se adaptar. Você treina em Montreal. Você começa a aprender se é trapézio, se é outra coisa, você começa a entender a adaptação do esporte para o circo. Você aprende a fazer as roupas em suas medidas e também as maquiagens do show. Esse período em Montreal foi importante”, recorda ela.

“Após isso eu me adaptei superbem. Eu aprendi a falar em inglês mais fluente, porque o meu era básico e além do mais, quando você entra na turnê, todos os artistas estão em nível olímpico e mundial e o curioso que outras pessoas que foram comigo para as Olimpíadas de Sidney estavam comigo no Canadá. Foi um reencontro. Eles falavam: nossa, você demorou muito para entrar para o circo. Eu respondia: eu não sabia que ia encontrar vocês aqui”, conta ela.

Um mundo sob a lona

“Com certeza o circo é o lugar em que você pode falar no mínimo cinco línguas diferentes e encontrar nacionalidades e culturas extremamente diferentes das suas e isto faz com que a gente fique mais flexível, a adaptação seja um pouco mais fácil, porque a pessoa que está ao lado está com as mesmas dificuldades de língua, de estar numa cidade nova, de não gostar da comida ou da temperatura de onde a gente mora, mas isto é adaptável, tudo a gente consegue se moldar, quando a gente quer alguma coisa. Eu aprendi inglês e francês na turnê. O circo foi como uma escola para mim. Eu aprendi tanto a me mudar de ginástica para artista, como aprendi a me comunicar melhor com outras línguas, outras pessoas, com o grupo que eu estava trabalhando”. 

Não há culpa no circo

“A ginástica é um esporte totalmente individual, a culpa, o erro, normalmente é do artista. No circo não, não tem culpa de ninguém. A gente simplesmente treina mais no dia seguinte. É um time. Normalmente o grupo do trapézio que eu trabalhava, nos eramos em tre,ze. A comunicação, nem verbal, mas corporal era muito grande. A gente tinha uma conexão muito grande. Isto faz com que esta harmonia que a gente tem no grupo passe para o público. A gente não é do mesmo país, a gente não é da mesma cultura, mas o circo faz com que a gente sinta-se em casa, eu me sinta como se eu conhecesse aquela pessoa faz muito tempo e normalmente nem faz muito tempo. Eu acho isto mágico”.

Saudades do Brasil

“Hoje eu sou casada com um canadense de Quebec, da parte francesa do Canadá. Eu moro no Canadá. Eu sinto muito saudade do Brasil e da minha família, mas eu sempre morei muito longe de casa, por causa da ginástica, depois faz oito anos que estou no circo, então a distância faz parte da minha vida há muito tempo, mas a internet hoje em dia os meios de comunicação são muito acessíveis. Eu sinto muita saudade mas quando dá meus pais vem me ver. Eu vou ao Brasil normalmente uma vez por ano. Com certeza eu sempre guardo uma data, uma semana, para ir ver meus pais e a minha irmã. Eu acho a família muito importante, sem eles eu não estaria onde eu estou e eu espero fazer o mesmo com meus filhos. Eu acho muito importante a família carregar esta parte dos pais para frente”.

Camila Comin: “Eu nasci com a ginástica no sangue”

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