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Liam Neeson fala com admiração do sueco Joel Kinnaman

Liam Neeson e Jaume Collet-Serra já fizeram vários filmes juntos. Respeitam-se, mas, como em qualquer relacionamento, existem momentos de tensão e atrito. “Esse cara é ‘a pain in the ass’, um saco”, diz o ator na entrevista sobre Noite Sem Fim, realizada em Nova York. O thriller hollywoodiano do espanhol Collet-Serra estreia na quinta, 30. É ótimo. Neeson conta – “Jaume não é muito de conversar com os atores. Ele faz a parte dele, nós fazemos a nossa. Mas ele espera que a gente faça a nossa do jeito dele. Quando começa a filmar, ele é do tipo que já tem o filme pronto na cabeça, e a gente que se adeque.”

É a hora do elogio. Baixa o paizão e Liam Neeson fala com admiração do sueco Joel Kinnaman, que faz seu filho. Só para lembrar, o ator é o mesmo que fez o RoboCop na versão do brasileiro José Padilha. “Joel é muito focado e talentoso. Quisera eu ter sido assim, quando tinha a idade dele. Não teria dado tantas cabeçadas na vida.” Sobre ter virado um astro de ação, é sucinto. “Não procurei, simplesmente aconteceu. Tem a ver com essa cara amassada e esse físico de estivador”, brinca. Mas correndo, dando porrada, eventualmente fazendo comédias românticas ou participando de um filme ‘nobre’ de Steven Spielberg – o vencedor do Oscar A Lista de Schindler -, Neeson diz que nunca perde de vista o fato de ser um ator. “Compondo (o personagem) ou sendo naturalista, sou eu que levo a ação ou o drama no imaginário do público. Concentro-me e tento dar o máximo de credibilidade ao que faço. Acho que tenho conseguido.”

Diz sem soberba. Não é o astro falando. É o operário da representação. O encontro ocorre não muito tempo depois da outorga do Oscar e o repórter provoca. Certas cenas de diálogos – de Neeson e Ed Harris, ou de Neeson e Kinnaman – são muito boas, mas os votantes da Academia jamais pensariam nesses personagens, ou nesses atores, como dignos de premiação. “Que bom que você gostou, porque na realidade não é fácil fazer essas cenas que eu chamaria, sem nenhuma intenção pejorativa, de dramaticidade ‘média’. Não é Shakespeare, mas também não é banal. Já fui indicado para o Oscar e não creio que aqueles papéis fossem mais difíceis”, reflete Harris. Embora tenha uma filmografia respeitável – Os Eleitos, de Philip Kaufman, Alamo Bay, de Louis Malle, As Horas, de Stephen Daldry -, sua praia/sua vida é o teatro. E ele conta.

“Enquanto filmava Noite sem Fim, fazia teatro, aqui mesmo em Nova York. Fazia as cenas diurnas e corria para o teatro. Terminava a função e o carro me levava para o set noturno. Foi assim durante duas ou três semanas. (Nós, atores) Somos treinados para isso, mas chega uma hora em que você só tem de deixar acontecer. E quando você contracena com atores talentosos, quando o diretor sabe o que quer e o diálogo é bem escrito, tudo fica mais fácil.” Já que o assunto tocou no Oscar, o repórter quer saber o que Harris achou da vitória de Birdman, de Alejandro González-Inárritu? Harris ri porque não consegue dizer o nome. Sai alguma coisa como “Iartu”. “Sou um grande fã do filme”, revela. Por causa dos bastidores do teatro? “Iartu tem uma direção de cena muito interessante, e os diálogos dos filmes dele são sempre ótimos. Mas o foco no teatro foi bom, sim.”

O assunto ‘teatro’ permite que se aborde uma questão que é forte em Noite sem Fim. Tudo se passa em família, como nas tragédias gregas. “É o componente mais interessante do filme. Fala-se muito no amor de mãe, mas e o de pai?”, pergunta Neeson. “Por mais que existam hoje um novo tipo de homem, um novo tipo de mulher, a manifestação do amor ainda é coisa feminina. Quantos pais você ouve dizer ‘Te amo, filho’? Parece piegas. Com as filhas ainda fica mais fácil, mas entre homens é tabu. Para meu personagem é mais fácil matar pelo filho que dizer para ele ‘Eu te amo’. Como se representa o afeto reprimido? Quando as palavras não saem, é preciso usar o olhar, certos gestos. E isso é real.”

Ed Harris prossegue – “Esse cara (Neeson) estourou com os filmes da série Taken/Busca Implacável, e eu não fiz muitos desse gênero. Pode ser um cacoete de teatro, mas estou sempre atrás da dramaturgia. E aí veio a oportunidade de trabalhar com ele, e num filme que realiza o que gosto e sei fazer. Nossos personagens têm uma relação que muda dramaticamente, a gente conversa mas também se golpeia, dá tiros. Nossos clássicos estão lá, a densidade, o valor literário dos diálogos, mas com nova roupagem.” Liam Neeson não duvida – “Acho que o filme tem realmente uma qualidade mítica. Já o vi e gostei da química que tenho com Ed, com Joel (Kinnaman, o filho). E, quando isso ocorre, o público embarca.”

Os ‘velhos’ veem com bons olhos a nova geração que avança em Hollywood. “Dizem que os filmes andam infantilizados, que só têm efeitos, mas não é verdade. Mesmo os filmes de super-heróis andam cada vez mais complexos. Não se pode querer que os filmes sejam feitos do mesmo jeito para espectadores que hoje se ligam em diversas telas (a do cinema como a do celular)”, reflete Harris. Kinnaman diz que foi gratificante trabalhar com Neeson, com Harris. “A segurança e tranquilidade deles foi inspiradora.” Genesis Rodriguez, que faz a mulher de Kinnaman, é uma estrela das novelas do canal Telemundo. É filha de um ícone da música, José Luis Rodriguez. A entrevista é para o Brasil? “Suas novelas são as melhores do mundo”, diz. E manda um recado para Rodrigo Santoro, com quem fez par romântico em O Último Desafio, ao lado de Arnold Schwarzenegger. “Rodriguito es muy guapo. Gostaria de trabalhar com ele, de novo.”

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