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80 anos da visita de Einstein ao Brasil

  • Por Jornalista Externo
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Albert Einstein desembarcou no Rio
de Janeiro em 21 de março de 1925.

As idéias de Albert Einstein já eram conhecidas e estudadas no Brasil antes mesmo de o autor ter sido contemplado com o Prêmio Nobel de Física, em 1921. Assim, era mais do que lógico que, quando da passagem de Einstein pelo Porto do Rio de Janeiro, no sábado, 21 de março de 1925, no transatlântico Cap Polonio, procedente de Hamburgo em direção à cidade de Buenos Aires, uma comissão composta dos principais representantes das várias associações científicas, dentre os quais Paulo de Frontin, presidente do Clube de Engenharia e diretor da Escola Politécnica do Rio de Janeiro, conde Affonso Celso, diretor da Faculdade de Direito, médico Aloysio de Castro, representante da Liga das Nações, Adolpho Murtinho, Sodré da Gama, Daniel Henninger, Alfredo Lisboa, Luiz Betim Paes Leme, Valentim Dunham, Augusto Brandão e Mauricio Joppert, foi cumprimentá-lo.

Einstein desceu do Cap Polonio, naquele sábado, às 9h e foi convidado pela comitiva para uma breve visita a alguns dos pontos mais belos da cidade.

Conduzido ao Jardim Botânico, foi acompanhado pelo seu diretor, o cientista Pacheco Leão. No livro de registro, Einstein escreveu:

A visita ao Jardim Botânico do Rio de Janeiro, ao lado do bondoso e gentil Pacheco Leão constituiu uma das mais expressivas experiências que tive da natureza exterior. Gostaria mais uma vez de expressar minha gratidão.”

Acompanhavam-no: Leonan de Azeredo Penna, Adolpho Murtinho, Maurício Joppert, Luiz Betim Paes Leme, Isidoro Kohn, Alfredo Lisboa e o rabino Isaiah Raffalovich. Ao descrever a sua visita escreveu que a flora de modo geral supera os sonhos das 1.000 noites, onde tudo vive e cresce aos nossos olhos.

Durante a visita ao Jardim Botânico, o que mais impressionou a Einstein, segundo relato de Leonan de Azeredo, foram as gavinhas da trepadeira Passiflora (maracujá), com suas espirais que invertem a direção das circunvoluções. Ao vê-las, sugeriu Einstein que deveria existir uma explicação matemática responsável pelo fenômeno.

Almoço

Ao meio-dia e um quarto, Einstein e sua comitiva chegavam ao Copacabana Palace Hotel. Durante o discurso de saudação, Einstein foi convidado a passar uma semana no Rio de Janeiro, quando de seu regresso de Buenos Aires, para onde viajava com o objetivo de realizar uma série de conferências, a convite da comissão de Cooperação Intelectual da Liga das Nações. Na realidade, a idéia do convite partira do jurisconsulto argentino Leopoldo Lugones, que lhe dirigira o convite, em Genebra, alguns meses antes.

Ao discursar em alemão, com uma flor silvestre na lapela, Einstein deixou passar para os presentes sua admiração pela cidade do Rio de Janeiro: Foi uma das maiores emoções da minha vida o panorama que apreciei esta manhã, da barra da avenida Beira-Mar, e agora o Jardim Botânico, onde o doutor Leão me explicou as diferentes espécies vegetais da natureza tropical, que encontrei no seu horto. É uma natureza única.

Aliás, o convite para almoçar no Hotel Copacabana Palace – o mais moderno da cidade e superior a qualquer outro da América Latina -, que o industrial Otávio Guinle havia inaugurado dois anos antes, mais precisamente em julho de 1923, na praia de Copacabana, partiu do jornalista Assis Chateaubriand, diretor-proprietário de O Jornal, que residia havia alguns meses no próprio hotel.

Além da importância da visita, a sua velha admiração pela cultura germânica, acentuada depois de uma visita de oito meses à Alemanha, como correspondente do jornal Correio da Manhã, quando conseguiu entrevistar os políticos e mais eminentes líderes do exército alemão durante a Primeira Guerra Mundial, dentre eles o marechal Hindemburgo, o almirante Von Tirpizt e, em especial, o pensador marxista Karl Kautsky, festejado internacionalmente como o herdeiro político de Friedrich Engels. Além dessas personalidades, Chatô entrevistou também alguns cientistas como por exemplo, Wassermann e Haber, diretores do Kaiser Wilhelm Institut, na época presidido pelo físico Albert Einstein, que naquele ano recebeu o Prêmio Nobel de Física. Como muito bem relatou Fernando Morais, em Chatô, o rei do Brasil, voltou ao Brasil com grande prestigio. Tentou adquirir o Jornal do Commercio; no entanto, a governo de Arthur Bernardes impediu, com medo da oposição do jornalista que adquiri O Jornal em outubro de 1924, após o seu retorno da Europa.

A preocupação em fazer do seu jornal um periódico associado à cultura, assim como o tino jornalístico de Assis Chateaubriand, fez com que superasse todos os jornais concorrentes. Além da manchete de primeira página inteiramente dedicada à passagem de Einstein pela cidade, Chatô solicitou aos mais notáveis cientistas um artigo sobre a teoria da relatividade. Assim foram publicados no O Jornal artigos dos mais importantes cientistas brasileiros. Se por um lado, o engenheiro e matemático Roberto Marinho de Azevedo, sem dúvida, o maior conhecedor da teoria da relatividade no Brasil, e o engenheiro Theodoro Ramos, também da Escola Politécnica do Rio de Janeiro, explicavam a teoria da relatividade, por outro lado, o astrônomo e matemático Lélio Gama, do Observatório Nacional, além de demonstrar a importância dos eclipses totais do Sol na observação da deflexão dos raios luminosos, acrescentou como o registro fotográfico realizado pelo astrônomo inglês em Sobral, no Ceará, havia sido importante na confirmação da deflexão da luz prevista na teoria da relatividade durante o eclipse de 29 de maio de 1919. Como sempre ocorria nessas ocasiões, um texto de autoria de Assis Chateaubriand mostrava a importância da presença de Einstein.

Informado por Assis Chateaubriand de que um dos artigos publicados no O Jornal pelos cientistas – o de Lélio Gama -, naquele dia 21 de abril referia-se a Sobral e, principalmente, depois dos comentários do médico Aluízio de Castro do orgulho que sentiam os brasileiros em virtude da teoria da relatividade ter sido comprovada no Brasil, Einstein escreveu num pedaço de papel:

– O problema concebido pelo meu cérebro, incumbiu-se de resolvê- lo o luminoso céu do Brasil.

Ronaldo Rogério de Freitas Mourão é pesquisador-titutar do Museu de Astronomia e Ciências Afins, no qual foi fundador e primeiro diretor, autor de mais de 70 livros, entre eles, do “Explicando a Teoria da Relatividade”. Consulte a homepage: www.ronaldomourao.com

Descrição de Chateaubriand

No dia seguinte, além do registro dos mais importantes lances da solenidade, Chateaubriand fez uma preciosa descrição de Einstein em O Jornal do dia 22 de março de 1925:

Quantos se achavam sentados com ele à mesa fixavam os dois traços mais fortes da sua personalidade: uma testa alta, excessivamente alta, inteligente, iluminada a umas mãos brancas de marfim, mãos da mais íntima e suave espiritualidade. Como ninguém ignora, Einstein toca violino; tem uma sensibilidade artística peregrina. Basta, de resto, conversar com ele poucos minutos para ver o artista que ele é, da ponta dos pés à raiz dos cabelos. Poucos homens de ciência eu tenho encontrado, malgrado a pobreza cristã das suas roupas, os sapatos quase alparcatas que ele usa, que respirem tamanha poesia, tanta graça espiritual, espontânea, meiga, acolhedora. Ele é daquelas criaturas junto às quais, como dizia Rathenau, a gente experimenta a vizinhança da divindade. Anatole France, quando se dirigiu à Suécia, foi vê-lo em Berlim. E disse: “Einstein é um dos cumes mais altos que produziu a humanidade.” Nada de preocupações de nacionalidade, no seu espírito largo. Mais conversamos com ele, mais o sentimos humano. É uma mentalidade ampla, que só compreende os povos congraçados em continentes e unidos pelo trabalho na fraternidade, no amor e no sentimento de justiça. De vez em quando, comentando este ou aquele acontecimento, ele ria e o seu riso era um riso enorme, rabelaisiano, cheio de benevolência e de doçura.

Partida

Após um rápido passeio a pé, pelas ruas Sete de Setembro e Ouvidor até a Gonçalves Dias, voltou à rua Sete de Setembro onde retornou ao automóvel. Às 15 horas, Einstein embarcou no Cap Polonio, com destino a Montevidéu.

Além de ter considerado o Rio “uma obra de arte” como se expressava com todos como se quisesse com estas palavras retribuir ao carinho com que foi tratado pelo povo e pelos seus colegas brasileiros, escreveu mais tarde em seu Diário sobre o Jardim Botânico: ” Aqui a flora supera os sonhos das Mil e uma Noites, tudo vive e cresce a olhos vistos”. No entanto, o que mais o impressionou no passeio pelas ruas da cidade, foi a mistura étnica do português com o índio e o negro. Todos esses cruzamentos parecem espontâneos como as plantas, subjugadas pelo calor, mostrava uma indescritível variedade de impressões que em poucas horas, constituía uma experiência fantástica, como registrou em seu Diário, no dia 22 de abril, durante o trajeto entre o Rio de Janeiro e Montevidéu.

Antes da partida, em virtude do convite da comissão de recepção, Einstein decidiu que no retorno de Buenos Aires iria permanecer pelo menos uma semana no Rio de Janeiro. (RRFM)

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